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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A travessia parte III


Leia antes
Parte I
Parte II




Eveline deu um passo para trás ainda encarando o homem parado há alguns metros de nós. Ela olhava para o rosto dele ainda incrédula
– Não pode ser... – a ouvi murmurar.
– Eveline... – pronuncie seu nome baixinho. – É um assunto complicado.
Hoan riu.
– Olá, cunhada. – ele surgiu ao lado dela pegando-a de surpresa. – Obrigado por dar ao meu irmão um ponto fraco. – ele colocou uma adaga apontada contra o pescoço dela.
– Fique longe dela! – rosnei.
– Ou o que? – Hoan me desafiou.
Eveline suava frio com a adaga apontada contra a pele frágil do seu pescoço. Seus olhos estavam voltados para mim e clamavam por socorro.
Encarei o meu irmão, que exibia um sorriso sarcástico nos lábios. Eu sabia muito bem do que Hoan era capaz e temi pela vida da minha namorada. Porém, meu irmão também me conhecia bem.
– Eu disse para ficar longe dela! – falei ao surgir na frente dele e o atingir com um chute que o fez voar contra a parede da caverna e lançar a adaga longe.
Eveline me encarou com uma grande interrogação no rosto. Não acreditava no que eu havia feito. Mal fazia ela ideia do quão rápido eu era capaz de me mover.
Hoan começou a rir enquanto se punha de pé e limpava a poeira das vestes negras.
– Confesso: achei que você estivesse enferrujado. – ele ainda ria. – Faz quanto tempo desde a última vez que trinamos juntos, cinco anos? – seus olhos meu fitaram profundamente. – Cinco anos, época em que você ainda não era um traidor.
– Eu não sou um traidor! – gritei alto.                
– Ah não? – Ele perguntou sarcástico . – Até onde eu me lembrava esse era o nome que davam para aqueles que abandonavam a sua própria família para se juntar ao lado inimigo. Fico imaginando o quanto a mamãe estaria decepcionada se visse no quer você se tornou. Uma simples marionete dos nossos inimigos...
– Não fale da nossa mãe. – eu estava furioso. – Ela jamais aprovaria a Nova Ordem.
– Muito pelo contrário, ela se orgulharia de nós, por termos feito do mundo um lugar melhor...
– Cala a boca! – berrei acertando o meu irmão com um soco no rosto. Eu ha estava farto daquela ladainha do Hoan.
Ele foi arremessado mais uma vez contra a parede da caverna. Levantou massageando a bochecha atingida.
– Tudo bem, você quer resolver as coisas desse jeito para mim tudo bem. – Ele partiu para cima de mim me acertando com um golpe na boca do estômago e me fazendo voar.
– Noah! – Eveline berrou correndo na minha direção.
– Fica fora disso, traidora número dois. – advertiu Hoan. – Meu irmão e eu temos alguns assuntos pendentes.
Ela olhou para mim extremamente preocupada.
– Eu vou ficar bem. – prometi a ela ao me levantar.
Parti para cima do meu irmão que se defendeu do meu golpe. Ele deferiu um chute contra o meu peito, mas eu me esquivei.
Hoan sacou uma espada e lançou outra para mim.
– Como nos vemos tempos. – ele murmurou.
Rodei a espada na mão e me coloquei em uma posição confortável. Ele gritou e partiu para cima de mim novamente. O chocar das espadas produzia um barulho agudo quase ensurdecedor.
– Pelo visto você não perdeu a prática. – meu irmão provocou.
– Aprendi coisas novas. – ameacei.
Girei e deferi um golpe de espada contra ele, fazendo com que perdesse o equilíbrio e cabalasse para trás.  Ele aproveitou a deixa e se agachou me dando uma rasteira e fazendo com que eu caísse contra o chão. Eu me defendi como pode dos seus golpes de espada e rolando para o lado.
Seus olhos me encaram com ódio quando se preparou para me dar um golpe final. Meu coração disparou...
Mas... De repente ele tombou e caiu para o lado e eu pode ver Eveline parada atrás dele segurando uma pedra com uma das mãos.
– Precisamos amarrá-lo, antes que acorde. – ela foi logo dizendo.
Peguei umas cordas dentro da mochila e marrei o meu irmão, ainda desacordado, a uma pedra.
– Você tem muitas coisas para me explicar. – Eveline me fuzilou com o olhar.
– Eu sei. – disse de cabeça baixa. – Nem sei por onde começar.
– O inicio é sempre uma boa.
– Bem, Hoan e eu somos irmãos gêmeos como você percebeu. – comecei a dizer. – Desde pequenos fomos treinados para nos tornar assassinos da ordem. Nosso pai é o Klaus...
– O líder supremo da ordem?! – ela engoliu seco.
– Sim... – lamentei. – Nossa mãe morreu quando ainda éramos bem pequenos. Pouco depois do congelamento da terra, ela não concordava com a ideia de um governo ditatorial quando meu pai era apenas um membro da cúpula governante do mundo. Pouco depois que ela se foi meu pai assumiu o controle de tudo e transformou tudo no que vemos hoje... – dei uma breve pausa. - Eu era apenas um fantoche que cumpria ordens, assim como meu irmão. Mas quando me dei conta de quanto mal estava fazendo principalmente àqueles mais fracos eu abandonei a cúpula da Nova Ordem e me juntei à resistência, na luta contra o mau que a minha família causava...
Encarei Eveline, ela não disse nada. Estava chocada demais para fazê-lo, eu não esperava reação diferente.
– Precisamos sair daqui. E levar os cristais. – eu disse. – Antes que meu irmão acorde e traga uma exercito para cá. Termino essa historia em outro momento.
 Sacudi a poeira da minha roupa e caminhei para dentro da caverna.  Demos de cara com um ambiente quase indescritível, de beleza singular. Os cristais revestiam as paredes o chão e o teto, criando um jogo de luzes esplêndido.
– Uau! - Eveline exclamou. – Como é lindo.
Peguei uma bolsa e enchi a com aqueles cristais.
– Vamos dar o fora daqui. – disse a Eveline ao puxar-la pela mão.
– Mas e o seu irmão? – ela se voltou para ele, interrompendo a nossa saída.
– Ele sabe se virar sozinho. E eu que não quero estar por perto quando ele acordar...

Continua...

By Ashe

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Hunted hunter - capítulo 7 : Bloody Tears


Cap1
Cap2
Cap3
Cap4
Cap5
Cap6

     - Cadê ela? 
     - Eu não... sei...
Gabriel apertava o homem pelo pescoço. Em seu rosto, trazia uma expressão de ódio e frieza e em seus punhos, sangue humano.
***
Assolado por um mau pressentimento de que Sônia poderia estar em perigo, caçador voltou ao vilarejo Ravenest, logo após a morte de Laura.
Suas suspeitas estavam certas; logo que chegou, notou que as pessoas pareciam assustadas com a presença dele. Em seguida, passaram a ignora-lo, como se nunca o tivessem visto antes. Tentou conversar e fazer perguntas, mas ninguém lhe dava atenção, e o pior, não havia sinal de Sônia em parte alguma.
Irritado, ele começou a procurar por sí, quando então, dentro do estábulo achou a cruz de prata dela, caída no chão, com uma pequena mancha de sangue. Foi nesse momento, que dois valentões, dois dos mais altos e fortes moradores de Ravenest entraram, para dar um fim àquele visitante enxerido...
***
Um dos homens estava caído no chão, com os olhos roxos e alguns dentes quebrados, o outro, estava com Gabe sobre ele.Tinha uma garrafa quebrada enfiada na coxa esquerda, que jorrava sangue.
Soltou o pescoço dele, lhe dando uns segundos para recuperar o ar. A cruz de Sônia, caída no chão, lhe dava a certeza de que algo péssimo tinha acontecido, e aquele ataque a ele, justificava sua suspeita; aquelas pessoas sabiam exatamente onde ela estava, e quem a tinha levado.
Sônia Renard, 24 anos. Acompanhava Gabriel como caçadora de vampiros desde que ele iniciou sua missão sagrada. Ele nunca esperou que os dois tivessem uma vida longa e feliz, mas não esperava que seriam traídos por humanos que juraram proteger.
A fúria dele era quase incontrolável. Apesar da raiva que sentia, manteve uma postura calma. Seus olhos estavam injetado de sangue, mas sua voz soava calma. Ele iria matar aqueles dois e todos naquele vilarejo se não lhe dessem o que pedia. Sônia era sua humanidade, seu lado bom. Sem ela por perto, só sobrava rancor.
Pisou na ferida do homem, fazendo a garrafa quebrar, forçando os cacos a lhe penetrarem mais fundo na carne.

   - Eu sei que doi. Onde está a sacerdotisa?
O homem gritou de dor.
Os outros moradores do vilarejo estava reunidos do lado de fora do estábulo. Alguns com enxadas e forcados nas mãos. Quando ouviram o grito, a maioria deles estremeceu; aqueles dois eram os maiores e mais fortes deles.
    - Assassino! - gritou uma senhora, com uma pedra na mão.
Os demais se apressaram para calar a boca dela, mas ela resistiu:
   - É meu filho que lá dentro com aquele animal!
Do lado de fora estava um reboliço; alguns concordavam com ela, mas outros não queriam piorar as coisas. A discussão aumentou, alguns homens estavam pensando em entrar e ver o que estava acontecendo, mas então, sem que ninguém esperasse, a porta do estábulo abriu-se.
Gabriel a empurrou com o pé. Na mão direita trazia seu chicote, aquele que noite passada tinha estraçalhado os zumbis como se fossem papel. Na mão esquerda, a cruz de Sônia, com a adaga armada. Atrás dele, dentro do estábulo, puderam ver os dois fortões, terrivelmente espancados.
   - Eles estão vivos. - disse ele. - Mas ainda não me disseram onde está Sônia.
Apertou com firmeza a cruz na mão e os encarou.
Alguns homens avançaram uns passos, dando a entender que pretendiam ataca-lo. Gabe sorriu maldosamente quando fizeram isso e disse:
    - Antes de me atacarem em um numero tão grande, certifiquem-se que vocês tem espaço para tantos túmulos assim, naquele seu cemitério.
O sorriso demoníaco dele, somado ao sangue que estava espalhado por seu rosto, mais aquela ameaça de chacina eminente, fizeram os aldeões vacilarem.
   - Se não me disseram onde está Sônia, eu vou matar todos vocês. Vou me certificar que desta vez, Ravenest seja de fato, uma cidade cheia de mortos.
A segunda ameaça fez com quem uns sentissem raiva, mas a maioria estava visivelmente apavorada. Ele continuou:
   - Vou perguntar pela ultima vez. Onde está Sônia? 
   -  Ela foi levada daqui.
Era a voz de um homem idoso, vinda de trás do grupo que o cercava, parecia ser o líder ou chefe deles. A multidão abriu espaço para que o velho pudesse ser visto.
   - Onde está ela agora? Quem a levou? 
   - Se você puder se acalmar, eu lhe contarei tudo que sabemos, mas por favor, fique calmo.
   - Prossiga.
   - A umas semanas atrás, nossa vila recebeu uma visitante estranha. Uma moça de capuz preto que passou por nós e foi até nosso cemitério. A partir de então, os mortos começaram a levantar do túmulo, como você mesmo viu.
Os aldeões pareciam apreensivos, mas nada diziam. O velho continuou:
   - Mas, a alguns dias antes de voces chegarem, ela voltou a aparecer. Idenficou-se como uma vampira e que estava atrás de dois caçadores: um homem de cabelos compridos e um chicote e uma sacerdotiza. Nos disse que vocês estavam a caminho dessa cidade e que matariam todos os zumbis e depois, iriam se separar. Quando isso acontecesse, era para prendermos a mulher que ela viria para pega-la e depois disso, estariamos livres dela para sempre. 
   - Vocês entregaram Sônia para uma vampira? - gritou ele – depois de tudo que fizemos por vocês?
   - Estávamos sobre ameaça! Os vampiros controlam toda essa região! Somos escravos deles a vida toda.
   - Aquele vampiros estão todos mortos! Essa garota, quem quer que seja, é a ultima deles! Para onde ela a levou?
   - Ela nos disse onde estaria indo, até deixou um mapa de onde te esperaria, caso quisesse ir atrás dela.
    - E porque diabos não me deram essa porra desse mapa na hora que eu cheguei?
    - Nós não... achamos que...
    - Que não precisavam mais se meter em coisas de vampiros e que aqueles dois caipiras de roça seria mais do que o bastante para me silenciar?
    - Bem...é...
    - Me dá o mapa.
O caçador se aproximou do velho.

   - Me dê o mapa e eu vou embora, nunca mais vão me ver ou qualquer vampiro.
O velho senhor fez um gesto para uma jovem e ela lhe entregou um pedaço de papel dobrado.
   - Aqui está, ela está esperando em uma casa marcada aqui.
Gabe arrancou o papel das mãos dele; abriu-o e analisou: teria que pegar o caminho de volta à Crecent e depois seguir a noroeste. Havia um circulo vermelho na base de uma montanha.
Fechou o mapa e voltou-se para o estábulo.
   - Vou pegar um cavalo.
Houveram protestos, mas o líder do vilarejo mandou que todos ficassem quietos:
   - Deixem ele pegar um dos cavalos. Devemos isso a ele. Nós entregamos a amiga dele à vampira.
Antes de entrar e escolher um dos cavalos, Gabriel esfregou a mão nas roupas de um dos homens que estava com uma enxada na mão.
   - Ei! Que isso? O que você limpou em mim?
O caçador foi até a porta. Parou, olhou para trás e respondeu:
   - Minha fé na humanidade.
Respondeu secamente.
Chutou as portas e segundos depois, saiu galopando rapidamente, deixando aquele vilarejo maldito para trás.
Montanha Baljhet... já ouvira falar mas nunca teve motivos para ir até lá. O caminho não era difícil, mas o lugar não era exatamente perto. Forçou o velho cavalo de tração que encontrou, o máximo que pôde. Sua mente estava muito confusa; não parava de pensar em Sônia, e em quem poderia tê-la capturado. As palavras do Conde ainda ecoavam em sua cabeça: “ havia mais alguém”. Sabia que era uma garota vampira... Seria alguma sobrevivente do ataque insano de Laura aos vampiros de Olney? Mas se fosse o caso, porque pegaria Sônia?
Não parou a viagem nem para comer; devorou as rações ainda cavalgando, porém, pobre animal estava no limite da sua força. Não era culpa dele; os seres humanos são fracos e como todos os seres fracos, agem por medo. Uma pessoa normal teria enlouquecido... Laura jogou com ele a vida toda porque queria ser morta por suas mãos. E o conde... ele estava envolvido nisso, mas também estava sendo manipulado. Quem quer que espera naquela montanha, é a peça solta que resolve tudo.
Ao entardecer, Gabriel foi obrigado a soltar o cavalo, que estava para morrer, não tinha opção se não seguir a pé. Implorava mentalmente o tempo todo para que sua parceira estivesse bem... O pesar em seu peito era muito grande; suas ultimas palavras para ela foram agressivas. Partiu sentindo raiva dela.
   - Só mais dessa vez, aguente por favor...

***

O sol se escondia ao longe, quando chegou até o pé da montanha Baljhet. Como imaginava, havia um casarão lá. Sem medo, correu até ele, derrubando a porta com o pé.
O interior era ricamente decorado, como todo lorde vampiro gosta; cortinas grossas nas janelas, carpete ao chão, quadros lindos e caros pelas paredes... e uma escadaria para o andar de cima.
   - Oh Gabriel... - chamou uma voz feminina, do andar de cima – Gabriel, finalmente chegou! Aqueles caipiras tentaram ocultar o mapa de você por muito tempo?
A voz dela ecoava bem alto, como se estivesse na sala.
   - Suba as escadas. Sua amiga está aqui!
Subiu.
Lógico que ele esperava por uma armadilha, mas ele estava preparado; seus reflexos estavam a mil e nada o surpreenderia.
Logo que chegou ao topo da escada, um homem veio pelo corredor e lhe atacou com um machado. Gabe jogou o corpo para trás e o ataque acertou o corrimão da escada, deixando o machado preso.
O homem em questão era negro e tinha quase 2 metros de altura. Corpo sólido de músculo.
O caçador aproveitou a deixa para acertar um soco no rosto do sujeito, mas ele não parecia ter sentido muito. Com muita força, ele arrancou o machado que estava preso e o brandiu com violência. Gabriel evitou o ataque abaixando-se. Porém, desta vez o homem desferiu uma joelhada nele, acertou-o no queixo. O impacto jogou Gabe para trás; ele caiu no chão e rolou.
Sentiu os dentes baterem com força, enchendo a boca com gosto de sangue. Mal tinha se recuperado da pancada e se viu sendo obrigado a rolar mais uma vez: estava deitado no chão e o gigante estava tentando parti-lo ao meio com o machado. Rolou para esquivar, levantando-se habilmente com uma cambalhota. Tão logo ficou de pé, sacou o chicote e acertou o rosto do sujeito, com um movimento de arco.
O talho aberto no rosto dele o fez gritar de dor. Aproveitando o balanço do chicote, Gabriel girou o corpo todo, num salto de 360 graus, acertando o mesmo lado do rosto, mas desta vez com uma força muito maior. O estalo foi alto e o grito do gigante, ainda maior. Seu sangue tingiu a parede branca atrás dele.
Aproveitou-se do atordoamento causado pelo chicote para arrancar-lhe o machado das mãos e antes que pudesse reagir, acertou-o no peito com a arma. O machado cravou nas costelas do negro. Ele soltou um ultimo gemido de dor, antes de cair morto.
Havia uma porta à sua frente. Estava entreaberta.
   - Bravo! Bravo Gabriel!
Aquela voz, vinha daquela porta. Empurrou-a com a mão esquerda...
Era uma sala de jantar. Os pratos estavam postos, mas comida alguma estava servida. Na ultima cadeira, da ponta oposta a ele, estava uma moça: Estava vestida com vestido branco e preto, com babados, estilo gótico. Seus cabelos eram ruivos e curtos e os olhos, verdes e penetrantes.

   - Lembra de mim, Gabriel?
Ele arregalou os olhos. Não queria acreditar no que estava vendo, era...
   - Glória!? 
   - Sim! Sou eu! Quem diria hein? Sou uma vampira agora!
   - Mas...
   - Porque? É isso que quer saber? Vingança!
A garota atirou a taça de sangue que tinha nas mãos, estilhaçando ela na parede.
   - Vingança porque? 
   - Ainda pergunta? Você me humilhou, me rejeitou! Eu lhe ofereci amor sincero, uma vida boa, e o que você fez? Dispensou tudo! Me chamou de criança e se juntou com aquelazinha... Sônia Renard!
   - Cadê a Sônia?
   - Aquela sem graça? Bem ali.
Glória apontou para um canto. Lá estava Sônia. Algemada na parede. Suas roupas estavam rasgadas, haviam machucado em seu rosto e sangue em suas pernas.
    - Sônia! - gritou – O que fez com ela?
Glória riu.
    - Ela é tão chaaata! Não gritou em momento algum, nem quando meu guarda-costas... aquele morto ali fora... a estuprou.
Sentiu como se uma faca tivesse rasgado suas entranhas. Seu queixo caiu. Lágrimas vieram aos seus olhos.
   - Acho que aquela coisa de castidade já era não é? - riu mais uma vez, com a mão na boca.
O caçador baixou a cabeça. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto.
   - Essa garota irritante... não gritou, não implorou.. isso me deu muita raiva. Olhe para ela! - gritou, ficando de pé. - Isso é culpa sua Gabriel! Você e essa sua sede de vingança! Você fez isso a ela!
Deu a volta na mesa, indo para mais perto dele.
   - Não vai dizer nada? Você está tão destruído assim? Juro que pensei que iria gritar e chorar... vocês dois, hunf! São dois chatos! Mas quer saber de algo realmente legal? - ela riu como uma criancinha – Sônia é a minha primeira cria... não é demais?
Rangeu os dentes. Não sentia vida na sua parceira. Pelo contrário, ela emanava o cheiro de túmulo que todo vampiro tinha.
Violaram seu corpo e a transformaram em vampira. Glória tirou tudo dela, sua vida e sua castidade...a raiva explodia nele, mas continuava sem ação. Sentia-se destruído.
   - Oh Gabriel... e agora meu amado? Você mata vampiros não é? Sônia é uma! E ai campeão da justiça? Vai mata-la tambem? Vai matar a nós duas? Eu e Laura manipulamos tudo, desde o inicio, quando eu a conheci num baile. Eu estava bebada e contei a ela de você e então ela propós um jogo, onde no final, a Sônia seria minha e você seria dela...mas a idiota se deixou matar...mas pelo menos ela me deu a vida eterna, como prometido. 
   - Porque... porque a Sônia? Seu problema era comigo.
   - Hun. Porque ela era sua querida parceira. Eu queria fazer dela o seu maior inimigo, e te forçar a mata-la. Você está com raiva não está? Vai me atacar agora e vai matar a nós duas não vai? Pois saiba que eu sei tu...

Um golpe rápido e brutal do chicote acertou o pescoço da vampira, enquanto ela falava e se gabava. Surpresa, ela não conseguiu reagir quando o caçador a puxou com força, fazendo-a voar até ele. Com toda fúria e brutalidade que seu ser conhecia, Gabriel acertou um soco no estomago da pequena vampira, com a cruz de prata em punho.
Num segundo ela estava se gabando do quão forte era como vampira e no segundo seguinte, estava debruçada sobre ele, com uma cruz enterrada no dentro de seu corpo.
O rombo na barriga fazia Glória sangrava todo o sangue que tinha sugado de Sônia. O choque havia paralisado seu corpo. Ela gemeu, olhando para ele, surpresa.
   - Ga..briel...?
Ele abriu os olhos lentamente, olhou-a nos olhos:
   - CRUX DIVINA!
Assim como Sônia tinha feito contra Vladimir, Gabriel invocou a crux divina. Uma explosão de luz branca cobriu toda sala, explosão esta que se originou dentro do corpo de Glória.
Quando o clarão passou, a pequena lady vampira estava caída a 3 metros dele. Todo seu corpo estava queimado e suas entranhas expostas, com o rombo em sua barriga. Ela gemia alto, sentindo uma dor indescritível.
   - Eu não... deveria estar sentindo tanta dor... eu sou uma lady vampira!
Gabe aproximou-se dela, a passos lentos, olhando-a.
    - Gabriel! Estou com medo! Por favor... me perdoe.
Ele mexeu no bolso e tirou uma moeda de cobre. Colocou a moeda na boca dela.
   - Entregue isso ao barqueiro, no mundo dos mortos. Adeus.
Ela arregalou os olhos, implorando por perdão. A porta da adaga que saía do cabo da cruz perfurou seu coração podre.
Glória era só um montinho de cinzas no chão.
Fechou os olhos e respirou fundo. Ainda não era hora de descansar. Ainda havia mais um vampiro.
   - Gabriel...
A sacerdotisa o chamou, sua voz estava trêmula e carregada de dor.
Ele foi até ela, cheio de pesar no coração.
   - Ah Sônia... o que fizeram com você?
Soltou-a das correntes. Não havia mais vida em seu corpo. Não bastando isso, seu corpo tinha sido violado. Tudo isso por causa dele, para atingi-lo. Tudo isso porque ele se recusou a se casar com uma maluca, a alguns anos atrás.
   - Me pegaram desta vez, parceiro. - respondeu ela, tentando ficar de pé. 
   - E agora? - perguntou ele, escorando o corpo dela ao seu. - o que acontece agora?
   - Você sabe o que acontece agora Gabe.
   - Não! Isso não! Não me peça isso!
   - Olhe pra mim! Olha o que sobrou de mim! Eu não posso mais viver. Me tiraram tudo. Tudo, menos você.
Tocou carinhosamente o rosto do amigo.
   - Não me negue isso – continuou ela – não permita que eu viva dessa forma.
Secou as lágrimas que lhe escorriam e concordou com a cabeça. Ela era uma vampira,a ultima vampira da região, e precisava ser destruída.
   - Me leve para fora. Quero ser morta pelo sol, pelas mãos e Deus. Por favor.
Sem muitas opções, ele a levou para fora. Ainda era noite. Teriam que esperar o amanhecer.
Sônia ajoelhou-se para orar e ele ficou ao lado dela, sem dizer uma palavra.
A tantas da manhã, depois de terminar suas orações, a sacerdotisa olhou para eu amigo e sorriu:
   - Você conseguiu usar a Crux divina. Fiquei impressionada. Eu levei muito tempo para conseguir usa-la. 
   - Aprendi com a melhor.
Os dois riram. O sol, ameaçava nascer. Sônia sentiu seus últimos momentos.
   - Gabriel. Antes de te conhecer, eu não temia nada. Eu vivia para servir a Deus e estava pronta para morrer por meu dever. Todo dia podia ser meu ultimo, e eu aceitava isso numa boa. Mas desde que fui escalada para ser sua parceira, eu passei a ter medo de tudo. Eu temia a perda, temia a morte.. Percebi que meu maior temor na verdade, era de me apegar. Você me trouxe uma dor que eu nunca quis. Uma dor que eu nunca pedi. Uma dor que aumentava a cada dia que eu passava com você. Sou muito grata por tudo que passamos juntos...obrigada Gabriel. Eu amo você.
Os raios de sol tocaram a pele alva dela.
Fechou os olhos e deixou que Deus a levasse. O sol a queimou gentilmente, transformando-a numa estátua de cinzas. Uma estátua que ainda sorria.
Ele não conseguia conter suas lágrimas. Tocou a amiga no rosto pela ultima vez, fazendo-a se desmanchar completamente...
O dia estava começando. Pegou a cruz, levantou-se, respirou fundo e se pós a caminhar. De volta para casa. Missão cumprida.
Na estrada, ele viu um homem de capuz negro, sorrindo para ele. Brincava com uma moeda de cobre entre os dedos finos esqueléticos...
***
Dias depois, ele estava na catedral de Roma. Reportou à seus superiores o sucesso da missão. Os padres fizeram uma missa pela alma da sacerdotisa morta.
Os dias e as noites voavam. Nada mais tinha sentido para ele. Estava sem ela pela primeira vez em muito tempo. Quase não saia do quarto. Quase não comia.
Até que, uma noite...
Deitado em sua cama, olhando para o teto, levou um susto quando um vento repentino soprou, escancarando a janela. Um som, como se fosse um suspiro soou pelo quarto. O vidro da janela ficou embaçado.
Levantou-se, olhando para a janela.
Uma mensagem começou a se escrever sozinha no vidro embaçado, como se dedinhos invisíveis estivessem escrevendo:

JUNTOS
PARA
SEMPRE
S.R.

Um sorriso lhe veio aos lábios, seguido por uma gargalhada. Sentia claramente a presença dela.
   - Senti sua falta.
Mais uma vez, ele ouviu aquele suspiro. Era o jeito dela de se comunicar.

***

Do lado de fora da catedral, um homem de vestes pretas atirava uma moeda de cobre para cima com os dedos. Ele sorriu, deu as costas e foi-se embora, sumindo nas sombras.


FIM.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Hunted Hunter - capítulo 6: Wicked child



Cap.1
Cap.2
Cap3
Cap.4
Cap.5

    O moinho de vento ficava cada vez maior diante de seus olhos, conforme se aproximava. Apertava o chicote com força, estava ansioso; desde que fora contratado para cuidar do caso dos vampiros adolescentes, estava no encalço desse lugar. Destruiu os três que assolavam vilarejo no leste o país e conseguiu deles a informação que precisava: a localização do esconderijo. A destruição desse lugar representaria uma grande investida contra os vampiros... Mas algo o incomodava muito. Depois de anos de busca infrutífera, Laura, a vampira que matou seu irmão, simplesmente surgiu em sua trilha. Não esquecia as palavras de Sônia, de que aquilo tudo parecia armação. Tinham sido guiados por uma série de desafios, ligados um no outro, de alguma forma. E no ultimo desafio: ele se viu de frente com a colina Olney.
"Você não acha estranho?" Perguntou Sõnia.
   Sim, Gabriel achava muito estranho, mas, se Laura estava mesmo fazendo isso tudo só para manipula-lo a ir até ela, ele tinha que ir, por mais que seja uma armadilha. Sua vida não era nada, ele era apenas um instrumento de Deus para limpar a terra dos vampiros e se tivesse que morrer, então morreria sem medo. Queria uma chance de poder olhar pra ela e lhe perguntar "porque".
"Porque não me matou também?"
   Essa pergunta não saia da cabeça dele, acompanhou-o a vida toda.
   Caminhando pensativo, ele quase não percebeu o homem que estava à sua frente, parado, olhando-o.
   Gabriel parou e encarou aquele que estava em seu caminho:

   Era pouco mais alto que ele, vestia uma túnica preta. Não tinha cabelos e em sua mão, segurava um bastão branco, de caminhada. O homem sorriu e falou:
   - Essa aura... você é o moleque Belmondo, não é?
   - Essa presença aterradora... você é a morte, correto?
   Ele riu baixo e consentiu com a cabeça.
   - Fico feliz que ainda se lembre de mim, Belmondo. Acho que sabe porque eu estou aqui.
   - Você quer eles. Você quer os vampiros, é isso?
   - Sim! aqueles trapaceiros! fugindo da morte! Mande-os para mim Gabriel! Sou um inimigo terrível mas também posso ser um aliado poderoso!
   - É bom ter a morte ao meu lado.
   O senhor Morte lhe sorriu gentilmente.
   - Aquilo que procura... encontrará. Agora siga seu caminho, complete seu destino. Espero demorar muitos anos para voltar a vê-lo.
   O caçador fez uma reverenciou e seguiu o caminho, a colina e o moinho, estavam tão próximos que eles já podia sentir o cheiro de defunto que exalavam. Agora, não havia qualquer duvida: Laura estava logo ali, naquele moinho. Estaria ela aliada com os vampiros dessa região? Gabriel tinha muitas perguntas em sua mente, mas ele sentia que isso não seria apenas mais uma invasão à covil de vampiros, tão pouco parecia ser apenas uma armadilha... Pela primeira vez, Gabe sentiu um calafrio.
   - Acho que dessa vez vai ser interessante!
   Disse ele olhando para trás, tinha se esquecido que Sônia não estava com ele. Não estava acostumado a ficar sem ela. Voltou-se para frente, a porta do moinho estava a 5 passos de distancia dele. Seu coração estava acelerado. O vento soprava, fazendo o moinho girar lentamente. Respirou fundo e abriu a porta...
   Mal a abriu e uma pessoa veio lá de dentro, tentando acerta-lo com um desajeitado ataque de mãos limpas. Gabe recuou com um salto para trás. A pessoa que o atacou estava exausta por algum motivo, e gemia de dor.
   Era uma garota.
   A pela dela era branca como leite, seus olhos tinham uma cor violeta que reluzia lindamente com a luz da lua. Vestia-se com um vestido preto estilo gótico. Era bem bonita.
   - Morra! eu vou proteger esse lugar!
   Ela também era uma vampira, o odor de túmulo dela era inconfundível.
   - Outra vampira adolescente!? o que há de errado com esses jovens?
   A menina estava cheia de cortes e sangue pelo corpo, parecia que tinha acabado de sair de uma luta terrível. 
   Seu primeiro impulso foi atravessar o peito dela com uma estaca, mas sentiu pena. Ela estava claramente nas ultimas, mas mesmo sem força, mostrava-se feroz com a ideia de defender seu esconderijo.
   - Onde estão os outros?
   - Só sobrou eu. Os outros morreram.
   Ela se apoiava na porta, seus joelhos tremiam. Gabriel nunca tinha visto um vampiro tão machucado assim. Geralmente eles usam o sangue que sugam dos outros para se regenerar. Aquela menina devia estar sedenta.
   - Como eles morreram?
   - Cale-se mortal! não fale comigo assim!
   Mais uma vez ela tentou acerta-lo com as garras, mas o caçador pegou o braço dela e torceu para trás.
   - Você não aguenta nem o peso do próprio braço. - jogou-a de cara na parede. - O que aconteceu aqui?
   Ao olhar para o interior da sala, ele viu muito sangue espalhado por toda parte, e muitos, MUITOS montinhos de cinzas no chão. Os mesmos que ficam quando um vampiro morre. Gabriel olhou para a menina que estava segurando e perguntou:.
   - Quem fez isso?
   - Eu fiz. Só sobrou eu. Sou a mais forte. - a voz dela tinha um tom de choro. - Ela disse que eu seria recompensada... ela disse que o mais forte nós, viraria um lorde ao lado dela!
   Gabriel sentiu um frio na espinha.
   - Quem é "ela"?
   - Ela apareceu a uns dias atrás, matou nosso líder sem motivo. Ordenou que nos matasse-nos ate que só um sobrasse e esse, o mais forte, reinaria como lorde ou lady ao lado dela. O medo e a oferta de poder nos subiu a cabeça. Nos atacamos como animais...agora que só eu sobrei, eu devo matar alguém que vai tentar entrar aqui essa noite e completar meu destino, e me tornar uma lady vampira!
   Aquilo era terrível, até mesmo com vampiros. Alguém manipulou os sentimentos deles e os forçou a matar os amigos.
   - Quem é ela? quem foi a vampira que te fez isso?
   - Laura... o nome dela é Laura.
   O choque que aquele nome causou fez com que Gabriel afrouxasse as mãos, permitindo a menina se desvencilhar dele.
   - Onde está ela? onde está Laura?
   A menina apontou para um alçapão aberto no chão.
   - Ela está lá embaixo, me esperando. Mas eu não vou retornar, nao é? Voce vai me matar, não vai?
   - Sim, eu vou. Sinto muito pelo que você passou.
   A menina se encosta na parede, sentindo-se completamente desolada. Isso fez com que o caçador ficasse com ainda mais pena dela.
   - Eu não... quero morrer. - lágrimas de sangue escorreram dos olhos violeta dela.
   - Você morreu a muito tempo atrás, menina.
   - Jessica. Meu nome é Jessica.
   Gabe puxou uma estaca do casaco.
   - Vou fazer a Laura pagar pelo que fez a você e seus amigos.
   Cravou a estaca fundo no coração dela. Jessica fez cara de dor. Olhou bem nos olhos dele:
   - Obrigada...
   Disse ela e se desfez em cinzas no segundo seguinte.
   Ele sentia-se arrasado; crianças vampiros sempre lhe causavam isso. A maldita Laura armou isso tudo para deixa-lo abalado para o confronto definitivo.
   Rangendo os dentes de raiva, ele desceu as escadas do alçapão, queria muito encontra-la e logo.
   O piso de baixo era finamente decorado, parecia o interior de um castelo; o chão era coberto por tapete vermelho, e haviam velas iluminando o corredor. Logo que desceu as escadas, Gabe notou um homem à alguns passos à sua frente, segurando um candelabro.
   - Olá Gabriel Belmondo, caçador de vampiros.
   - Eu conheço você...Você é o Conde Ainslead não é?
   - Sim, sou eu. Te contratei para salvar minha filha e você a matou. Lembra disso?
   - Sua filha estava além de qualquer salvação. Onde está Laura?
   Ele sorri. O conde era um homem de cabelos e barbas brancas. Vestia-se com elegância impecável e sua voz era baixa e severa. Gabriel podia sentir raiva nele, apesar dele tentar disfarçar.
   - Ela está esperando-o, caçador. Siga-me.
   Ele virou as costas e andou até uma porta. Abriu-a e entrou, com Gabriel logo atrás. Era uma biblioteca. Ao fundo, sentada em uma poltrona, estava uma mulher de longo vestido roxo e uma mascara branca no rosto.
   - Senhorita Laura, o senhor Belmondo está aqui. - disse o conde.
   Ele foi até ela, deixou o candelabro na mesa e posicionou-se ao lado da vampira.
   Gabriel sentiu o coração acelerar, então, finalmente, Laura!
   A mulher levantou-se e puxou uma espada longa e fina que estava ao lado de sua poltrona.
   - Gabriel Belmondo, fico feliz em te ver aqui. Vejo que seguiu minhas dicas, precisamente como previ.
   - Morra monstro, você não pertence a esse mundo. - disse ele, calmamente.
   - Tem seus motivos para me chamar assim, Gabriel, e eu não te culpo.
   - Porque me deixou viver? na noite que matou meu irmão, porque me deixou viver?
   - Gabriel, preste muita atenção no que vou te dizer agora. Eu e seu irmão, éramos amantes.
   Aquilo soou nele como um soco nas vísceras. Isso tinha que ser mentira!
    - Não diga besteiras.
    - É verdade. Nos amávamos.
    O conde pareceu irritado com a conversa:
   - Ei que papo é esse? você me disse que iria mata-lo! ele matou minha filha e eu entrei nessa pra trazer ele pra cá para te ver matando ele!
   - Cale-se, Ainslead. Este é meu momento com Gabriel.
   - Não! - gritou o velho. - Eu fiz tudo como você mandou. Você e aquela outra menina vem me dizendo o que fazer a meses, desde que esse desgraçado matou minha filha! E eu obedeci, porque prometeu que o mataria!
   - Eu disse pra calar a boca!
   Com um rápido movimento de espada, Laura decepou a cabeça do velhote. Seu corpo foi ao chão como uma boneca de pano.
   - Desculpe esse inconveniente. Gabriel, eu amava seu irmão. Eu o matei por fui tola, manipulada.
   - Como assim.
   - Seu irmão estava desenvolvendo um tipo de soro, que neutralizava a fome por sangue dos vampiros. Se esse soro se espalha-se poderia trazer problemas a muitos lordes e ladies vampiros que existem. Seu irmão tinha boas intenções, mas estava mexendo com quem não devia.
   Gabe estava atordoado com aquilo tudo, era muita coisa pra ele engolir. Ela continuou:
   - Fizeram minha cabeça para mata-lo. Ama-lo era um erro e ajuda-lo a prosseguir com esse plano, seria insanidade. Eu era uma vampira! deveria viver como uma" Reinar sobre os mortais e não ao lado deles! Como fui tola... caí no jogo deles, fui enganada... matei quem eu amava verdadeiramente... e para que?
   O caçador tremia, ele não sabia como reagir. Não podia acreditar que a Laura que caçou a vida toda, tivesse de fato amado seu irmão. Ele esperou por um demônio, e o que encontrou foi isso?
   - Por isso eu não te matei. No momento que tive seu irmão morto em minhas mãos, eu sabia que o que fiz era errado. Vampiros são maus, e manipulam tudo e todos sem se importar com nada. Eu não sou diferente. Todos os vampiros precisam ser destruídos. Por esse motivo eu não te matei. Todos esses anos eu te observo. Te ajudando a treinar, te guiando secretamente para covis de vampiros poderosos. Eu mesma matei alguns deles, como você mesmo notou na entrada desse covil.
   - Por que isso? porque tudo isso? não me matou, me guiou entre vários desafios, manipulou o Conde Ainslead... e pra que? estou aqui agora, Laura! vamos lutar e ver quem é o maior caçador de vampiros, é isso?
   - Não. - ela tirou a mascara e a deixou cair, revelando seu rosto. - Você vai me matar agora.

   O rosto de Laura era terrivel; sua boca e queixo eram negros e retorcidos como se tivessem sido queimandos. Os dentes dela eram negros e quebrados.
   - Gabriel, eu trai e matei quem eu amava. Eu não quer e nem mereço continuar existindo. Eu esperei todos esses anos ara que você pudesse ficar forte e me matar. - Ela deixa a espada cair. - Agora mate-me por favor. A maldita manipuladora e assassina, que você sempre odiou.
   - Você quer que eu a mate? - ele não acreditava no que ouvia.
   - Eu cuidei do seu futuro para que você pudesse se tornar forte e acabar com essa maldita raça de vampiros. Você é forte agora. Faça seu trabalho, caçador.
   Ele pegou uma estaca e se aproximou dela, olhando-a nos olhos.
   - O que aconteceu com seu rosto?
   Ela sorriu. Seu sorriso era medonho, porém sincero.
   - Eu bebi o soro do seu irmão. A única amostra que ele tinha produzido. Não estava boa ainda, presumo. Foi minha penitencia... Queimou meus dentes e minha boca e eu não consigo mais morder ninguém.
   Laura ajoelhou-se e abriu os braços, esperando o golpe final.
    Com muito receio, ele mirou seu peito e lhe golpeou com toda sua força, atravessando as costelas dela, perfurando seu coração.
   Laura cai de costas no chão, gemendo alto.
   - Jonathan! eu estou indo! eu finalmente estou...
   Com um longo suspiro, Laura se desmancha em cinzas.
   Morta, finalmente. Mas ao contrario do que esperava, Gabriel se sentia vazio. Era isso que ele tinha buscado a vida toda? O dia já estava amanhecendo. O conde Ainslead estava morto ao lado de Laura, ele fazia parte disso tudo, junto com outra pessoa...sim, o conde mencionou mais uma pessoa, pouco antes da Laura lhe cortar a cabeça. Tomado por um mau pressentimento, o caçador decide correr para o vilarejo de Ravenest.

continua...

by Kennen
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A travessia parte II



Não deixe de ler a Parte I





Deslizei a minha mão sobre a sua nuca e puxei o seu cabelo curto trazendo o seu rosto para mais perto do meu. A pouco mais de três meses ela era uma completa estranha que eu havia arriscado a vida para trazer em segurança até a Tribuna e agora estávamos lá, em meio a um beijo quente. Desde o primeiro instante em que a vi senti algo especial por ela, e seria só questão de tempo para que algo acontecesse entre nós.
Empurrei-a contra a parede e comecei a dar leves mordidas e beijos no seu pescoço. Eveline se arrepiou e enterrou os dedos no meu cabelo. Deslizei as mãos pelo contorno do seu corpo até seus seios. Ela suspirou e intensificou o beijo. Nossas línguas dançavam em perfeita sincronia.
Retirei a sua blusa e joguei ao chão. Ela fez o mesmo com minha camiseta. Soltei o seu sutiã e o retirei. Meus lábios percorreram um caminho pelo seu pescoço ate a região entre os seus seios.
Eveline me puxou para a cama e deitei sobre ela. Encarei-a e vi sorrir. Como eu adorava aquele sorriso! Retirei as roupas que ainda nos cobriam e a puxei, sentando-a no meu colo. Minhas mãos percorriam o seu copo, enquanto ela subia e descia em mim.
– No... Noah... – ela gemia o meu nome.
Chegamos ao clímax juntos e ela caiu sobre o meu peito. Sua respiração era ofegante.
Com ela deitada sobre mim, acariciei eu cabelo e dei vários beijos carinhosos até pegarmos no sono...
Acordei no meio da noite com o telefone tocando. O barulho acabou acordando-a também.
– Alô. – eu resmunguei ao atender o telefone.
– Noah, finalmente conseguimos decifrar o que a Eveline nos trouxe. Precisamos de vocês aqui. – disse o responsável pelo nosso setor de inteligência.
– Estamos indo. – avisei antes de desligar o telefone.
Eveline e eu nos vestimos e fomos até a sala de reuniões onde os mais importantes membros da tribuna estavam. Quando passamos pela porta todos os olhos se voltaram para nós. Eu não gostava muito de todos aqueles holofotes, não passava de um atravessador e gostava disso, mas depois que Eveline chegou parece que tudo havia mudado.
 – Que bom que finalmente chegaram.  – disse Aron a nós. Ele era um homem alto de cabelos grisalhos e vestia um terno de giz. Aron era o presidente da tribuna, o fundador da resistência.
– Como não temos tempo para rodeios vou direto ao que interessa. – disse Yan. Ele não dirigia a inteligência da tribuna ao acaso. Era o nosso maior cérebro.  – Analisando os dados que Eveline trouxe para nós descobri que a Nova ordem encontrou um meio de restaurar o clima antigo da terra...
Um murmúrio alto começou a ecoar por toda a sala. Os membros da tribuna estavam incrédulos sobre o que acabaram de ouvir.
– Isso é impossível! – exclamou alguém.
– Não com a tecnologia e a fonte de energia necessária para sustentar o sistema. – um holograma surgiu na mesa do centro. Todos os olhares se voltaram para ele cuja imagem mostrava uma caverna repleta de cristais. – A ordem descobriu nesses cristais uma energia ainda mais forte do que a radioativa. Energia suficiente para manter em pequenas aéreas um clima semelhante ao da terra no século passado...
Os murmúrios ecoaram pela sala novamente, as pessoas não acreditavam naquela possibilidade.
– Então a Ordem está tentando fazer uma coisa boa em restaurar o antigo clima? – me atrevi a perguntar.
– Não. – Yan foi enfático. – Vindo da Ordem nada é para o bem do povo. Eles planejam vender essa tecnologia a quem possa pagar por ela...
As pessoas voltaram a discutir. Olhei para Eveline e ela não parecia nem um pouco chocada, conhecia bem a Ordem para não esperar menos.
– Eu preciso de um desses cristais para tentar replicar o projeto deles. – Yan continuou dizendo.
– Eu vou! – anunciou Luke de um canto da sala, nem ao menos esperou que o chefe de inteligência terminasse a sua fala.
– Maravilha! – Yan sorriu. Luke me parecia um bom candidato a missão, era um dos melhores homens da segurança. – Não é nada muito complexo... – começou a explicar. – É mais uma missão de reconhecimento. A caverna fica em uma das montanhas dos Andes, então enfrentará temperaturas muito mais baixas do que as que estamos acostumados. Graças ao trabalho de Eveline temos todas as coordenadas do local, portanto preciso apenas de um cristal e mais fotos do local.
– Vai ser fácil! – Luke contou vitória.
Eveline olhou para mim com uma expressão séria estampada em seus olhos castanhos. Ela estava preocupada e eu também. Nada era tão simples quando se tratava da Nova Ordem.
Luke recebeu as ultimas instruções e partiu em viagem. Durante a breve despedida não consegui tirar de mim a péssima sensação que sentia. Um mês depois as noticias chegaram e não eram nada animadoras. Luke havia sido assassinado, e antes de morrer, deixou uma mensagem, não para a tribuna, mas para mim, ninguém na tribuna conhecia aquele método de agir tão bem quanto eu.
– Eu vou até a caverna. – anunciei em uma das reuniões.
– Não! É perigoso demais. – Eveline tentou me impedir. – Você é só um atravessador.
– Noah está certo. – Aron concordou comigo. – Está na hora de você resolver isso. – disse ao se virar para mim.
Concordei com um aceno de cabeça e fui arrumar as minhas malas Eveline veio atrás.
– Isso é loucura, Noah. Você não pode ir lá, tem um assassino da Nova ordem naquela caverna – ela segurou meu braço para que eu parasse e olhasse para ela.
– É por isso mesmo que eu vou. – não disse mais nada e fui para o meu quarto. Joguei algumas roupas numa mala e abri um cofre atrás do meu guarda-roupa onde peguei algumas armas.
Quando me virei dei de cara com Eveline parada atrás de mim, com uma bolsa pendurada no ombro.
– O que é isso? – perguntei.
– Não acha que eu vou te deixar ir sozinho, acha?
Abri a boca para protestar contra a atitude insana dela. Porem antes que qualquer palavra saísse da minha boca ela me calou com os lábios.
– Nada de mas.
Embora eu não pudesse deixá-la ir, não consegui obrigá-la a ficar. Eveline era bem persuasiva quando queria.
Viajamos de carro até Mendonza na argentina. Por mais que os transportes aéreos fossem mais rápidos e
eficientes esses eram mais controlados pela Ordem e burlá-los era mais difícil. O lugar estava praticamente deserto, eram poucos os que se arriscavam a viver em temperaturas inferiores a -20 ° c.
A viagem de carro, não foi mais complicada do que a escalada até a caverna. Receber as coordenadas era fácil, o complicado mesmo era escalar até lá. Olhei para Eveline subindo ao meu lado e dei-lhe um rápido beijo, tocando seus lábios gelados de frio. Preferia que ela tivesse ficado segura na tribuna, ela era uma espiã e não uma exploradora.
Quando finalmente chegamos à entrada da caverna Eveline sorriu, impressionada com a beleza daquele lugar. Os cristais refletiam a pouca luz do sol para dentro da caverna criando um efeito único e maravilhoso.
– Finalmente você apareceu! Achei que mandaria mais dos soldadinhos da tribuna para que eu me divertisse. – Eveline e eu nos viramos no sentido da voz.
Os olhos dela se arregalaram de surpresa quando viu o homem há alguns metros de nós. Ele vestia roupas grossas pretas e tinha uma espada junto ao corpo, contudo o que provavelmente a assustou foi o fato dele ter o mesmo rosto que eu.
– Não contou há ela sobre mim? – ele perguntou em meio a uma risada sarcástica.
– Esse é o Hoan. – murmurei – meu irmão...


Continua...

By Ashe

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mais além


O que era aquilo? Onde eu estava? Mas o que...
Um clarão passou por meus olhos. A cabeça doeu. A mão foi à testa.
Sinto-me tonta como se o mundo estivesse girando ao meu redor.
Parei. Esfreguei os olhos e tentei focar algo a minha volta. Muito cedo ainda, a visão era fosca e muito luminosa. Pisquei diversas vezes. Mantive os olhos abertos até captar as imagens ao meu redor.
Estava na rua, disso eu sabia. Havia uma chuva fina que encharcava o meu corpo e grudavam as minhas roupas. Não me lembrava de tê-las vestido. Olhei para baixo e percebi que não usava nada mais do que uma camisola. Estava descalça.
Demorei a notar o lugar onde estava. Levei um susto.
Mas que lugar era aquele? Eu estava no meio da cidade e pessoas corriam a minha volta tentando se proteger da chuva que caia. Todos estava aflitos segurando seus casacos e tentando se esconder dentro das lojas.
Não sabia o que estava havendo, pois ninguém parecia me notar. Todos apenas passavam por mim. Precisava pedir ajuda, afinal como eu fui parar ali?
Uma senhora idosa estava caminhando com seus passinhos vagarosos. Fui atrás dela. Ela não parecia se importar com a chuva como os outros que ali estavam. Alcancei-a e toquei em seu ombro macio.
Iria perguntar se ela sabia o que estava havendo ou se sabia como eu havia chegado ali. E de repente eu escuto a voz da mulher. Era uma voz suave e rouca, mas o engraçado foi ela não ter se virado para falar, por isso não pude ver se os seus lábios se moviam.
Só sei que eu escutei:” não se preocupe minha filha, nós estamos indo para onde todos vão.”
A senhora continuou o seu caminho antes que pudesse impedi-la ou lhe fazer mais perguntas. Fiquei observando. Num instante todos a minha volta já estavam longe e eu sozinha.
Minha cabeça e meu corpo estavam anestesiados por causa do frio. A sensação era estranha e boa ao mesmo tempo, pois ao menos assim não havia dor. Faltava descobrir o que havia acontecido.
Comecei a me mover, as pernas estavam pesadas, era como se para andar eu tivesse que arrastar um caminhão junto. Olhei a minha volta e nenhuma alma boa para ajudar.
Foi ai que avistei um contorno em meio a chuva. Era alguém que trajava capa e um chapéu, ambos escuros. Estava com as costas apoiadas numa parede, uma das pernas escorando o corpo, braços cruzados, o topo da cabeça encostado na parede e o chapéu cobrindo o rosto.
Aproximei no meu ritmo lento. Não parecia ter me notado também. Engano meu. Ao chegar perto, ele retirou o chapéu do rosto, mas o colocou muito rápido, assim não pude ver a face por completo, apenas da ponta do nariz para baixo. Continuava com a cabeça abaixada e não olhava em minha direção. Talvez não tivesse mesmo me notado.
Acenei. Estava perto dele, mas não muito. Queria falar, pedir ajuda, informação, ou qualquer outra coisa. Porém, antes que eu pudesse dizer algo a figura se moveu e virou o rosto para mim.
Naquele momento eu gelei, sentia como se meu corpo estivesse sendo puxado ou algo do tipo. Tive medo. Queria sair dali. Era como se ele estivesse controlando cada parte de mim.
Quis gritar, a voz não saiu. Para minha surpresa acho que ele ouviu algo, pois sua voz soou em meus ouvidos. Era um som grave, marcante, nada que eu já houvesse escutado antes.
“Ainda terá um tempo, mas não muito. Não se acostume, pois farei a gentileza de deixa-la por enquanto. Reúna suas forças e saia daqui, vá em busca das suas respostas. Tente encontra-las se for capaz.”
Com uma risada ele desapareceu pela entrada do beco ao seu lado. Novamente me vi sozinha. Ele havia dito respostas. Será que eu cheguei a dizer aquilo alto? Por que ele e aquela velha foram os únicos que falaram comigo?
Eram tantas perguntas. Virei as costas e reiniciei a caminhada. As pernas parecia um pouco mais leves, mas as questões ainda atormentavam. Para começo de conversa eu não sabia como eu havia ido parar ali, outro ponto era o motivo para ter ido até aquele lugar e de onde eu havia saído. Porém a questão que mais me assombrava era: quem exatamente eu era?
Ótimo! Não sei nem quem eu sou, quanto mais de onde vim!
Estava literalmente perdida. E se eu fosse uma louca? Uma procurada perigosa? Talvez tivesse cometido crimes... mas quem saberia me responder?
Olhei para os lados, a chuva ainda não havia parado. A sorte era que a camisola não estava translucida apesar de estar colada. Não sabia nem se aquilo era uma camisola mesmo. Como eu podia me lembrar de coisas assim e me esquecer de quem eu era?
Avistei um lojinha, um homem que vinha correndo com um jornal sobre a cabeça entrou no lugar, aproveitei para segui-lo e adentrar o ambiente. Do lado de dentro, um balcão e amontoados de livros em todos os cantos. O homem passou a percorrer as estantes e verificar os livros, parecia concentrado no que fazia. Como antes, ninguém me notava. Não havia balconista. O sino da porta se moveu, nenhum som. Outra pessoa entrou. Um homem de jaqueta escura e boné. Estava molhado e água que escorria de suas roupas molhava o carpete do chão.
Olhei ao meu redor. A minha volta o carpete estava seco, o que era estranho já que eu estava tão encharcada quanto ele. Segui os rastros do chão e nenhum dos molhados indicavam as marcas dos meus pés. Assustei com um livro que caiu e virei em sua direção. Abaixei para pega-lo, mas minha mão deve ter deslizado sobre a capa. Quando fui tentar outra vez eu vi botas negras e levantei bem rápido.
“Ora, ora, parece que ainda não foi atrás de suas respostas. Vamos. Não tem o dia todo. Procure. Observe. Talvez precise de um choque de consciência.”
Estava paralisada no lugar. Como ele havia entrado ali? Ainda não havia visto o seu rosto e no momento em que avancei para puxar aquele maldito chapéu de cowboy ele se esquivou. Foi então que algo as minhas costas me fez ficar alerta. Vi os lábios do homem de boné se mexer, mas não podia ouvi-lo. Ele sacou uma arma e rendeu o homem do jornal e uma balconista que eu não sabia quando havia chegado.
Estava ali parada observando tudo. Ele não me via e eu estava tão próxima quanto os outros dois reféns. Daquela distância era impossível não ter me notado. Percebi uma reação precipitada da moça e um disparo, o homem do jornal cambaleou e o som do tiro não ecoou em meus ouvidos. De repente outro clarão. Uma dor me invadiu. Olhei para baixo e vi que estava sangrando. Será que eu havia levado aquele tiro?
Não. O homem do jornal estava caído no chão, ele havia sido acertado e não eu. Mas então por que eu estava sangrando? Toquei o ferimento e percebi que não podia senti-lo.
Olhei para frente e vi o cara de jaqueta sair correndo da loja. A mulher estava tremendo e correu para perto do homem caído. Depois de algum tempo eu notei que o rosto dele estava mudando e havia momentos em que ele parecia me ver, pois apertava bem os olhos como se pudesse me enxergar.
A moça correu e pegou o telefone. Mais uma vez eu apenas vi os lábios se moverem e nenhum som. Ela correu de novo para perto do homem. Foi então que notei um brilho. Uma luz às minhas costas. Olhei para o lado, percebi que a capa, bem como o chapéu estavam jogados. Virei rápido e notei a mesma figura de antes, mas agora podia ver seus olhos. Dois lindo olhos dourados, um homem envolto em luz e contornos que lembravam asas enegrecidas.
Senti algo estranho se mover em mim. Quis tocar o rosto dele, mas não pude. Ele apontou para o homem caído as minhas costas e fez gestos para me virar. Ainda não conseguia entender o motivo daquilo.
E sua voz soou em minha mente, mas agora era mais grave e parecia acompanhada por outras mil vozes. Ele disse:
“Veja. Agora, lembre-se!”
Como se um flash estivesse atravessado o meu cérebro eu senti o corpo pesar, senti a dor me invadir, mas pude finalmente abrir os olhos e quando o fiz, lembrei.
Aquele homem, o do jornal, estava morrendo e eu sabia porque, mas não podia acreditar. Corri até ele, tentei toca-lo.
“Ainda não pode toca-lo. Ele ainda não está morto.”
Lágrimas inundaram o meu rosto, senti uma angustia tão forte em mim, agora eu entendia o que precisava lembrar. Eu o conhecia, conhecia aquele homem e agora ele estava morrendo.
Pousei a mão a centímetros do rosto dele, mas meus dedos não chegavam em sua pele. Eu o amava, amava muito. Sabia que havíamos nos amado como pessoas e apesar de parecer tudo tão distante, o meu amor ainda era imenso. Ele estava de olhos fechados e eu chorava ajoelhada ao seu lado.
“Não pudemos evitar que isso ocorresse. Ele escolheu assim quando você deixou o seu corpo. E é por causa disso que eu não a levei embora assim que você atravessou. Ele a amou muito e foi esse amor que não a permitiu se afastar deste mundo. Mas se você estiver longe, ele poderá esquecer com o tempo.”
Minhas lágrimas caiam e meu peito doía ao lembrar da vida que havíamos tido juntos. De repente senti que o corpo dele estava se entregando. Não! Não podia! Ele tinha que viver! Não podia ser assim, então eu gritei, o som finalmente pode sair dos meus lábios e algo aconteceu.
Eu o vi abrir os olhos e foca-los diretamente em mim. Uma pequena lágrima escorreu. Ele havia me visto. Sorri de emoção. Meu amor pôde me ver. Eu te amo... reproduzi com os lábios e ele fez o mesmo. Ainda não podia tocá-lo, o que demonstrava que ele estava vivo.
Não queria que ele morresse, não podia. Eu o amava muito para vê-lo morto. Virei-me para o ser às minhas costas e o encarei. Implorei para que o deixasse viver. Ele acenou com a cabeça e pude ouvir sua voz celestial:
“Ele irá viver se assim o desejar, mas não poderá se lembrar de nada. Não temos permissão para deixá-los lembrar. Você também não poderá continuar aqui se quiser tê-lo vivo, pois assim ele poderá seguir em frente.”
Meus olhos estavam encharcados, mas meu amor era muito grande. Desejava que ele vivesse. Então escolhi.
Minutos depois, percebi os paramédicos entrarem no local e levarem o corpo dele para dentro da ambulância. Estava do lado de fora enquanto observava o carro se afastar com as luzes piscando e o barulho que as sirenes provavelmente estavam fazendo.
Viva meu amor, seja feliz.
Senti o leve toque dos dedos luminosos em meu ombro. Em meu corpo uma corrente de energia começou a atravessar e fui puxada pelo ser que me envolveu em seus braços enquanto minhas ultimas lágrimas caiam dos meus olhos.

 by Katarina