terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sem volta



Então, você veio...- ela estava de costas, respirava devagar, mas se mantinha fixa.
Andou como um tigre que espreita sua presa... mas aquela corça com certeza não seria surpreendida. Logo os grandes olhos o encaravam.
Sua pele tão suave, delicada, poderia senti-la, tocar de todas as formas possíveis. Bastava esticar a mão e se entregar as delícias daquela criatura celestial.
Porém, os dedos não obtiveram sucesso. 

O que era aquilo? ... o que significava? Não a permitiria se afastar daquele modo.
Ah, mas ele sabia o que era... oposto ao que possam imaginar, caros leitores, aquele comportamento não significava a pura inconstância no cumprimento da palavra. Ao contrário, essa retração predizia em si o comportamento típico da inocência que ainda habitava dentro da caça.
Com os sentidos muito receptivos, ele ousava desafiar a barreira de pureza imposta pelo próprio alvo. Entretanto, se ela já estava ali, por que não brincar um pouquinho de gato e rato? Só para ver como seria e ai sim ultrapassar seus instintos, abrir-lhe as perspectivas, para que no fim ela sucumbisse e se entregasse por completo.

Pensa que eu não sei? ... pensa mesmo que eu não reconheço o que você deseja? ‘- a cada passo que ele dava era um que ela recuava.
Avançou mais rápido e ela caiu. Ele riu. Os olhos dela expressavam medo... mas por dentro, ele reconhecia haver algo mais. E saberia explorar aquele algo a mais, ao ponto de arrancá-lo de seu íntimo.

Sentada e se arrastando pelo chão, ela tentava escapar... até que soube ser impossível fugir.
Um sorriso diabólico brotou dos lábios dele ... ela já estava assustada o suficiente para lhe ser negado o autocontrole.
Hora da segunda etapa. Instigar e provocar.
Prendeu o olhar da jovem no seu. Intensificar a gloria e a luxuria daquele corpo era prioridade no momento. Sua voz saiu em um sussurro ardente.
Você, bela dama, veio até mim... eu te darei a noite mais cálida dos teus sonhos.... ora, não se acanhe... pois a ambição em si, não é censurável.’

Talvez o menear de cabeça da jovem fosse um reflexo inconsciente, ou talvez ela estivesse se permitindo as provocações daquela voz embriagante a qual estava sujeita.
Hoje, minha bela dama, o seu impulso mais profundo, o seu desejo até agora contido em silêncio irá aflorar ... e eu serei um humilde servo do teu prazer.’
Ajoelhou a sua frente e esticou os dedos por sobre o maxilar. Uma leve retração no início. Mas logo seus olhares estavam conectados e pode-se dizer que nenhum dos dois sabia exatamente a quanto tempo permaneceram em tal posição.

Levantavam devagar aproveitando a aproximação para negarem, por completo, a necessária existência segura de uma distância. As respirações, ofegantes, podem ser sentidas em ambas as peles. As palavras eram palpadas e capturadas em cada movimento dos lábios que percorriam gentilmente a curvatura do pescoço.
Eu a trouxe até aqui para deixar nossas paixões se fundirem, deixar sua mente atordoada e deliciada ao mesmo tempo ... mas agora, está aqui por sua vontade, sem intenções, a escolha foi sua.’

Os lábios ainda percorriam a pele até o colo. A cabeça pendia e era segurada por apenas uma mão. O coração acelerado e o torço preso pelo outro braço.
Essa, meus caros, era a cena perfeita da quase entrega, o ponto tênue, no qual se pode decidir atravessar para o caminho da loucura ou deixar a razão investir seu potencial. É difícil dizer qual dos dois caminhos se escolhe numa hora dessas, pois ambos são completamente distintos e levam a situações totalmente opostas. As palavras ainda são importantes nesse caso. Igual ou tão mais importante do que as ações.

A boca se aproximou novamente da orelha, era palpável a aura de emoções, além do próprio arrepio que percorreu o corpo da jovem. Corpos unidos e as palavras. Palavras certas, assim esperava.
Paremos de fingir, deixemos a vontade tomar conta, descobrimos juntos até onde os nossos “se” e “quando” podem realmente nos levar... não resista, abandone o pensamento, permita-se sonhar e ver o fogo que nos inundará, pois a sedução e o desejo encontram-se a milímetros de nós...’
Uma boca finalmente já estava a pouca distância da outra. Os olhos a sua frente permaneciam fechados...

E esse é o momento crucial, o ápice da entrega. Por ele sabemos se estamos dispostos ou não a arriscar. O mínimo movimento do outro a procura da outra boca estabelece a montanha russa da entrega. Entrega total e imprudente.
O rosto liso e macio se virou procurando os lábios quentes que a esperavam. Até que a boca foi tomada. Sugada e presa o máximo de tempo possível. Esse era o ponto; o ponto a partir do qual não há mais volta.

Dedos fortes que prendiam o seu corpo tão delicado ao encontro do porte altivo. E as línguas se cruzavam e se entrelaçavam em uma só. Ondas de ardor foram retiradas daqueles seres. Mãos que desciam pelo decote deixavam expostos os mais belos seios e curvas que se possa sonhar.
Os dois. Unidos em perfeita harmonia e elevados aos seus limites. A maximização do prazer e do erotismo, as chamas que dominavam o próprio ambiente, as carícias intensas e os sons emitidos por dois amantes que encontraram a perfeição um no outro. 

O estremo, a glória, o brilho. 
Ofegantes, músculos exaustos, mas mentes prontas para repetirem quantas vezes mais conseguissem, até que seus corpos já não suportassem mais ou que definhassem por exaustão, porque dentro deles a saciedade estava longe de ser alcançada.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O livro dos mortos



Era madrugada, a estrada estava vazia, a única luz disponível era o farol do carro. Selene e o namorado voltavam de uma festa a alguns quilômetros de sua casa em uma região afastada da cidade. Ambos jovens, por volta dos vinte e poucos anos, embriagados e irresponsáveis, características típicas da idade.
David dirigia o carro com uma das mãos no volante e outra deslizando pela coxa da garota. Ela sugeriu que fosse melhor parar o carro, mas foi ignorada. Decidiu não insistir.
Em uma reta ele se virou por um instante para beijá-la e quando voltou sua atenção para a estrada viu um grande clarão e ouviu uma buzina...
Selene acordou suando frio, coração batendo a mil e respiração ofegante.
Fitou o quarto escuro e correu para acender a luz. Diante do espelho observou sua imagem, usava uma blusa branca e uma calcinha da mesma cor, na sua coxa direita ainda estavam às cicatrizes que a lembravam de ter ficado presa nas ferragens durante o acidente. Acidente o qual só havia sobrevivido por um milagre, mas o namorado não teve a mesma sorte.
Abriu a janela e viu que o sol não tardaria a surgir no horizonte.  Foi até o banheiro escovou os dentes e trocou de roupa.
Quando passou pela cozinha sua mãe que já se levantara e preparava o café a chamou:
– Aonde vai tão cedo?
– Correr um pouco. – disse no automático, batendo a porta atrás de si.
Ela certamente não era a mesma depois do acidente. Todos diziam
que logo o trauma passaria e ela voltaria a agir como antes... mas isso não aconteceu.
As palavras seguir em frente foram ditas demais, não que tivesse adiantado.
No fim das contas naquele dia fazia um ano desde o terrível acidente
e os pesadelos se tornavam cada vez mais freqüentes e reais. Era como viver varias
vezes a mesma cena, varias vezes o mesmo inferno...
Selene balançou a cabeça para espantar os pensamentos. Aumentou
o som nos fones de ouvido e passou a correr mais rápido. Quando se deu conta já
estava diante dos portões do cemitério.  Era como se algo a sugasse lá para dentro.
A última vez que estive ali fora justamente no enterro do namorado.  Nunca teve coragem de voltar, sempre teve muito medo de ambientes como aquele. No entanto, havia uma força
que a puxava para dentro junto com uma voz que parecia sussurrar o nome dela em
sua mente.
Então... Selene entrou. Arrepiada da cabeça aos pés, mas entrou.
Às portas de ferro rangeram ao serem abertas. O ambiente fúnebre a deixava aterrorizada. 
Caminhou por entre as lápides negras a pouca luz do amanhecer. Parou diante de um túmulo feito de mármore, afastou uma coroa de flores já seca e observou a foto. Nela David sorria abraçado ao cachorro.
Ela deitou-se sobre o túmulo. Pensava em como seria se ele ainda estivesse ali, tinham tantos planos...
Selene...Ela ouviu seu nome e se sentou assustada.
Um arrepio varreu o seu corpo. Olhou para os lados, mas não viu ninguém.
Selene...O sussurro continuou.
Seu primeiro desejo foi sair correndo dali. Aparentemente aquela era a atitude mais sensata, contudo ela não o fez. Sentia-se congelada.
Colocou-se de pé e olhou mais uma vez para os lados. Não havia mais ninguém vivo ali...
Selene... A voz que parecia chamá-la vinha de uma cripta a poucos metros do túmulo do seu namorado. A sua curiosidade fez com que desse alguns passos na direção da voz, porém ela vacilou... seu subconsciente a mandava sair dali, contudo era impossível obedecê-lo.
Quando se deu conta estava ouvindo o barulho da porta da cripta ao ser aberta.
Arrependeu-se de estar ali, deveria dar meia volta e ir para casa. Contudo não o fez, deu mais um passo para dentro da cripta e a porta  se fechou... Selene se voltou para trás com o susto e correu para a porta tentando abri-la, esmurrou repetidas vezes, no entanto não conseguiu fazer com que ela se abrisse. Levou as mãos ao pescoço ao sentir-se asfixiada. Céus! Como aquele lugar era abafado.
Escorreu pela porta e caiu sentada. Estava paralisada de medo. Trancada dentro de uma cripta no cemitério.
Olhou para o tumulo de mármore e viu um livro de capa preta sobre ele. A curiosidade fez com que ela se levantasse e pegasse o livro. Ele era pesado e cheio de poeira. Quando o tirou do lugar a porta misteriosamente abriu. O primeiro instinto dela foi pegá-lo e sair correndo dali.
Chegou em casa bufando. Com o livro de baixo do braço passou correndo pela mãe e foi para o quarto. Jogou-se sobre a cama. Pensou no que havia feito e arrepiou-se só de lembrar. Jamais colocaria os pés naquele lugar de novo. Definitivamente não era território para os vivos...
Acabou pegando no sono...
Quando acordou já era fim de tarde. Sentia-se faminta. Então desceu para comer alguma coisa. Estava sozinha em casa, provavelmente sua mãe deveria ter ido ao mercado ou a casa de uma amiga. Abriu a geladeira colocou o resto do almoço no prato e esquentou no microondas.
Quando voltou para o quarto viu o livro caído ao lado da cama e decidiu abri-lo. Não fazia ideia do conteúdo.  As primeiras páginas estavam repletas de assinaturas... viu a do namorado e quase caiu para trás soltando o livro. Aquilo não era possível... virou mais páginas, todas em branco. Nas ultimas páginas do livro havia algo escrito além de assinaturas.

Aquele que é dono do livro é dono dos mortos. Cabe a ele decidir quem descansa ou anda em meio aos vivos. Mas a alma dos vivos uma vez que abandona o corpo é incapaz de retornar.

Balela! Ela fechou o livro. Aquilo tudo não passava de uma pegadinha de mal gosto de alguém. Selene não era o tipo de pessoa que acreditava nessas coisas. Não sabia por que havia pegado aquele maldito livro, mas estava tão assustada...
Acabou por lagar o livro de lado e ir assistir qualquer coisa que passava na TV. Deveria ter sido ela a morrer naquele acidente, pelo menos não estaria naquela situação, pensou consigo mesma... Só queria ele de volta.
Por fim, acabou pegando no sono novamente.
...
Um ratinho corria sobre o tumulo e se assustou ao perceber que algo se movimentava lá em baixo, saiu correndo as pressas. A tampa de mármore do tumulo saiu do lugar.
...
Selene acordou no meio da noite com o seu celular tocando. Não reconheceu o número, mas atendeu assim mesmo.
– Lene... – ouviu uma voz familiar do outro lado da linha. Não era possível.
– David? – murmurou sem acreditar.
– Lene... – ele resmungou novamente.
– Onde você está, David?
– Ce-ce- mi- té- rio.
Um arrepio percorreu o seu corpo. Só poderia estar tendo um pesadelo, se beliscou.
– Lene... – ouviu a voz dele novamente.
– Eu estou indo para ai. – ela disse sem pensar. Pegou sua jaqueta e foi correndo na direção do cemitério.
Algo no seu intimo a dizia para voltar para casa, mas a vontade de ver seu namorado era maior do que qualquer coisa. Ele significa tudo para ela, e sem tê-lo sentia-se perdida.
Uma neblina densa cobria o chão do cemitério. Quando Selene abriu o portão ele soltou um rangido agudo que fez com que os pássaros em uma árvore próxima voassem.
Ela deu alguns passos, receosa, para dentro do cemitério. Viu um telefone publico de onde provavelmente recebera a chamada. Andou mais um pouco com os braços abraçando o próprio corpo. Por um breve momento imaginou que estivesse louca, era bem provável, foi então que o viu...
Havia um rapaz sentado de costas sobre um tumulo, a névoa tornava a sua aparência disforme, era difícil identificar seus traços.
Correu na direção dele, parando alguns metros antes de alcançá-lo. A aquela distancia já era possível vê-lo bem. Suas roupas estavam rasgadas e sujas de terra, havia alguns machucados profundos nas suas costas, onde a carne tinha um tom escuro.
– David? – Selene sussurrou.
O seu chamado fez com que o rapaz se voltasse para ela. A jovem levou a mão à boca para conter o grito de horror ao olhar para o rosto que costumava ser a coisa mais bela do mundo. Os olhos azuis não estavam mais lá, deixando a mostra a musculatura e o nervo, as bochechas estavam fundas e uma parte da pele do rosto havia sido devorada, deixando a mostra o maxilar.
Foi a coisa mais horrível que viu em toda vida.
– Lene... – ele sussurrou como um mantra, e começou a caminhar na direção dela.
– David, é você? – ela perguntou assustada.
– Lene...
A garota deu um passo para trás e então começou a correr.
– Lene...
Não deveria ter ido lá, não deveria estar ali, aquele não era o David. Seus pensamentos eram puro caos. Acabou por tropeçar em um galho e ir ao chão. Foi o bastante para que David a alcançasse
– David, não! – ela berrou contra o mostro que a arrastava.
Mas ele não estava ali. Era só um corpo sem vida... sem alma.
...
O livro havia voltado misteriosamente para a cripta, em uma das páginas antes branca surgiu o nome da jovem.
...
Garota é encontrada morta, com profundas dilacerações pelo corpo, próximo ao tudo do namorado.
Foi a manchete que estampou os jornais na manhã seguinte.

By Ashe

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Hunted Hunter - capitulo 2: Vampire Killer


         Já passavam das dez da noite. A floresta estava quase toda mergulhada em trevas, a não ser pela luz da lua e por um lampião, que iluminava o caminho. Uma moça, de talvez 15 ou 16 anos caminhava cuidadosamente pela floresta, tomando muto cuidado com seus passos. Ela sabia que não era seguro; todos a avisaram para não sair. Um vampiro estava sequestrando todas as moças da região, mas ainda assim, ela insistia em procurar pela irmã desaparecia na floresta.           Logicamente, tal tolice chegou aos ouvidos do vampiro da região.

       Alguem a espreitava; por entre arvores e arbustos, ela ouvia os sons do movimento de alguém ou alguma coisa. Parou e mirou a luz do seu lampião na direção do barulho, mas nada viu.

A moça estava vestida elegantemente; um vestido volumoso, branco e um chapéu de passeio, também branco. Aquela forma branca andava pela mata a noite, com um lampião... Deveria ser muito idiota ou muito corajosa.

Ele estava de olho nela. Uma mulher trajando tais roupas, só poderia ser a senhorita O´hara. A segunda filha dos O´hara, a que ele ainda não havia pego. Scarlet. Aproximou-se por trás dela, silenciosamente.

    • Senhorita O´hara, mas que felicidade te encontrar aqui a esta hora!

A garota levou um susto; deu um pulo, deixando corpo todo ereto. O lampião tremia em suas mãos. Ela sentia o homem chegar mais perto.

    • Sei que procura por sua irmãzinha. Sei onde ela está, e posso te levar até ela...

Quando ele estava bem perto, a garota virou-se bruscamente em sua direção lhe acertando um soco no rosto. O homem cai, gemendo; era uma menina mas batia feito um martelo!

    • O que...? quem é...

Ao remover o chapéu da cabeça, a suposta senhorita Scarlet, mostrou-se na verdade ser um homem. Um rapaz de cabelos longos, cicatriz no olho e um sorriso maligno.

    • Você não é a Scarlet O´hara!
    • Descobriu isso sozinho? A senhorita O´hara me contratou para encontrar a irmãzinha dela. Me diga onde ela está.
    • Não! Eu nunca vou trair o mestre!

Aquele à sua frente não era m vampiro, mas um lacaio, um humano que vendeu a alma para os vampiros.

Gabriel ergueu o homem pelo colarinho e o jogou contra uma arvore.

    • Vou te dar uma chance apenas, meu amigo. Diga onde seu mestre se esconde, e eu te deixo ir. Meu propósito é matar vampiros,e não humanos... por piores que sejam.
    • Você não entende! Ele me controla! Se eu o trair ele me mata!
    • Resposta errada.

Um soco violento no rosto e o lacaio caiu desmaiado.

    • Oh, Gabriel... - disse Sônia, saindo de trás de uma arvore.
    • Você viu, eu tentei perguntar numa boa, ele não quis responder. Eu vou ter que arrancar a resposta dele....



***

Acordou. Lembrava de estar seguindo a senhorita O´hara a pedido do seu mestre e então... A cabeça doía muito. Ainda estava escuro. Ao lado dele havia uma fogueira.

    • Acorda. Vamos, acorda!

Sentiu um chute nas costas e foi só então, que o lacaio percebeu que estava pendurado em uma arvore, de cabeça para baixo.

    • Onde eu... ei! Me solta!

Seus pés estava amarrados a um galho de arvore. Ouviu a voz do caçador à suas costas. Tentou se balançar para se soltar, mas não adiantou muito.

    • Escute verme. Eu preciso saber onde está seu mestre e as meninas que você sequestrou, e você vai me dizer. - Gabriel tirou do fogo um pedaço de ferro com a ponta incandescente. - tá vendo isso?
    • O que vai fazer com isso??

    • Vou queimar a carne branca e fragil das suas costas, até você resolver cooperar.
    • Nã não! Por favor não!
    • Não se preocupe, não vai arder. - Disse enquanto sentava-se atrás do homem, com o ferro na mão. - Sabe, é muito, muito quente, queima rapido demais. Vai destruir suas células e tudo que você vai sentir, é frio. Depois vem o cheiro de carne queimada e ai sim, vai doer... A ciência é engraçada, não acha?



Ele gritava e implorava para ele parar, mas o caçador não queria. O ferro queimava e derretia a carne das costas do homem, e ele pulava, tentando se soltar. O cheiro de carne queimada cobria todo o local. Era tanta dor que ele sentia que iria desmaiar ou mesmo morrer.

    • Eu sei que dói. Só você pode fazer essa dor passar. Onde se esconde o seu mestre?
    • Puta que pariu! Eu digo! Eu digo, mas para com isso por favor! Pára!

Gabriel desceu a corda. As costas do homem estavam quase totalmente queimadas; ele sentia muita dor.

    • A minha amiga Sônia preparou umas ervas para seus queimaduras, vão te fazer melhorar rápido. Mas claro, somente se nos ajudar.
    • Eu ajudo! Não é muito longe daqui, eu te levo lá! É uma passagem secreta em um alçapão, destro de um toco de arvore.

Sem que o caçador pedisse, a sacerdotisa aplicou as ervas nas costas do pobre homem.

    • Você tem sorte dela estar por aqui. Sônia é pura bondade. Ela é meu lado bom, eu diria.
    • Isso faz de você o meu lado ruim, Gabriel? - perguntou ela.

Depois de passar as ervas, ela enfaixou as feridas, cuidadosamente.

    • Isso vai ajudar a conter a dor. Agora, por favor, mostre-nos o local que seu mestre reside, pois eu não posso garantir que vou curar os próximos ferimentos que Gabriel pretende lhe infligir.

Foi a ameaça mais doce e gentil que ele ouviu na vida. Engoliu seco ao pensar no que mais aquele louco poderia lhe fazer, mas, principalmente, teve medo da sacerdotisa, era como se o sorriso pacifico dela e sua voz macia escondesse uma mente insana e vingativa.

    • Tá, olha, não é muito longe daqui, eu levo vocês lá, mas não vou entrar!
    • Está bem, eu não espero que entre.

O vestido de Scarlet estava no chão. Sônia o pegou.

    • Esqueceu seu vestido, senhorita O´hara. - riu.
    • Muito engraçadinha. Larga isso aí, temos trabalho a fazer.



Como prometido, o homem os levou até um toco de arvore com um alçapão escondido. Ele disse que seu mestre Vladimir estava escondido ali.

    • Agora suma daqui. Arruma uma vida normal.
    • Eu aviso caçador. Não vai gostar do que vai encontrar ai embaixo!
    • Quanto menos eu gostar, pior pro mestre Vlad. Suma.

Ele se pôs a correr.

    • Pronta? - pergunto à Sônia.

A moça vestiu o capuz e pegou sua cruz de prata da bolsa. Fez um sinal positivo com a cabeça.

Desceram as escadas. Um corredor de pedra, revelava que o lugar era maior do que esperavam. Ao longe, viam pequenas luzes como velas, mas a escuridão era quase total. Sônia juntou a cruz no peito e tocou o ombro do seu parceiro:

     -
Dei benedictionem a me Tenebrae 
 


Os olhos da mulher tornaram-se totalmente brancos, e a escuridão tornou-se tão clara quanto a luz do dia, para ela. Enquanto tocasse Gabriel, ele também poderia ver no escuro.

    • A morte está por toda parte, posso sentir. - falou ela.



Mesmo apreensiva, Sônia foi à frente, com sua cruz na mão direita. Mais adiante no corredor, eles notaram uma parede à esquerda que era diferentes das outras, era feita de grossas barras de metal. Uma cela de prisão. Aproximaram-se com cautela para não serem agarrados por o que quer que esteja ali dentro.

Dentro da cela, eles viram uma pessoa pequena. Uma garotinha; devia ter no máximo 12 anos. Estava sentada no chão com o corpo ereto. O cheiro de morte emanava dela. Seus cabelos eram loiros e estavam bagunçados. Ela estava de olhos abertos.

    • Servos do mestre? - disse ela mirando os olhos dois que atravessavam à sua frente.

A menina era uma casca vazia, sem alma. Sônia sentiu a tensão crescer em Gabriel.

    • Tão pequena...

Crianças transformadas em vampiros, apenas por piada, isso era algo que ele não conseguia suportar, mas tinha que manter a mente focada no trabalho. Deixaria ela por enquanto, depois que matassem o tal Vladimir, cuidariam dela.

***



Sentado a um trono confortável, em uma sala finamente decorada, iluminada por velas e lampiões, estava um homem alto, loiro de cabelos compridos. Vestia-se de vermelho e estava de pernas cruzadas com uma taça de sangue em uma das mãos. Aos seus pés estava uma menina de 13 ou 14 anos, sem roupas, presa no pescoço por uma corrente. A menina beija os pés do homem e se insinuava para ele. A pele dela é branca como leite, e os olhos tinham uma leve coloração vermelha.

Sobre a mesa, um corpo de um jovem rapaz, aberto no pescoço até um umbigo; seu sangue fresco ainda escorria.

    • Ouvi dizer que sua irmã está te procurando, minha querida. O meu servo foi recebe-la por nós.
    • Vai transforma-la em sua escrava também, mestre?
    • O que você acha? Quer ter ela por aqui?
    • Quero servir ao senhor com minha irmã. Somos as mais bonitas moças de toda Crescent.
    • Eu sei, por isso eu dispensei todas as outras. Escuto passos. Deve ser o inútil do meu servo.



Uma moça coberta por um capuz cinza entra no aposento. Ela estava com as maos juntas, na frente do peito. Por algum motivo, a presença dela incomodava o vampiro.

    • Quem é você? Scarlet? - perguntou ele. - Cade o idiota do Jollo?
    • Scarlet? Minha irmã? - a pequena vampira ficou de pé; queria ir ate ela, mas a corrente não deixava.
    • Ela não é sua irmã, minha querida. - ficou de pé. - Quem é você?
    • Viemos pela garota – disse uma voz áspera.

Alguem surge por de trás da mulher de capuz. Seu rosto era muito mal encarado. Uma cicatriz atravessava seu olho direito. Vestia-se todo em couro, com botas de cano longo. Em suas mãos, um chicote preto, enrolado.

O vampiro arregalou os olhos, mas manteve a pose de mau.

    • Chegaram tarde, a pequena Melissa O´hara já é uma das minhas. A mais linda.

Melissa se ajoelhou em frente ao cadáver na mesa, e lambeu o sangue que escorria.

Gabriel sentiu todos seus músculos se contraírem com a raiva.

Vladimir, notando a raiva do rapaz, aproveitou a chance para provoca-lo ainda mais:

    • Tudo bem, a sua amiga parece ser saborosa o bastante, ela vai servir por hoje. - passou a língua entre os dentes.

Mais rápido do que se esperava, o rapaz brandiu o chicote, fazendo-o estalar no rosto do vampiro.

Urrou de dor,cobrindo a ferida com a mão. Aquele chicote queimava como fogo, era uma dor que arma nenhum jamais tivera lhe causado.

    • Esse chicote... já ouvi falar, é um vampire killer!
    • Eu sou Gabriel, e este é o dia do seu julgamento!

O vampiro e sua cria armam suas garras.

Sônia pega sua cruz de prata e junta-se ao seu parceiro caçador.



CONTINUA...

(link do capitulo 1: Bloodlines http://kenneneashespace.blogspot.com.br/2013/10/hunted-hunter-capitulo-1-bloodlines.html )

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Fetiche: final




Tomou-a nos braços. Seu olhar iluminado pelo fogo que a consumia por dentro. Conhecia bem aquele olhar, mas ao contrário do que desejava, ele seria gentil, cuidadoso e com sorte não decepcionaria um ser tão angelical.
Prender os lábios pequenos e macios entre os seus. Sentir as mãos delicadas explorar seu corpo.
Seu corpo correspondia aos toques sensíveis. Tão linda, jovem, delicada e ao seu alcance.
Pararam por um segundo. Não queria ter pressa. Ela o encarou para depois dizer algo que o surpreendeu.

_Não sei se o que direi vai lhe parecer mal ou estranho, mas prezo muito que me ouça e compreenda minha situação.

Tornar-se confidente daquela que a pouco estava em seus braços. Não acreditava que fosse por mal entendidos, afinal Julie já estava a par de suas aflições e sabia exatamente que ele havia perdido a esposa há anos. Mas ouviria a garota, pois mal nisso não haveria de ter.

_Desejo muito o que está prestes a acontecer, mas... procure entender... tenho alguns...
_Alguns...?
_Preciso que faça algo... por mim.
Apoiou o rosto delicado em suas mãos. O que ele não faria por uma criatura tão meiga.
_O que quiser, mon petit... o que quiser...

Era lindo ver aquele sorriso se abrir. Mas a visão que teve em seguida foi fantástica. Julie era dona de um corpo fascinante. Pequeno, mas fascinante. O Dior caído aos seus pés, o brilho em seus olhos, tudo nela o lembrava de seres encantados criados apenas para satisfazer as vontades dos deuses.
Não havia notado ainda, mas a pequena segurava algo atrás de si. Tentou focar o que seria e teve uma bela surpresa quando descobriu. Olhou o objeto e depois os olhos trêmulos do ser a sua frente.
Sabia que sua sobrancelha estava erguida, pois logo ouviu a voz do seu doce anjo, que na verdade era um anjo um tanto estranho agora.

_Albert... eu entendo, se você... se você não quiser... eu entendo...
_Não... quer dizer... eu... se você quiser eu...
_Por favor, não se sinta na obrigação...
Estava sem jeito, precisa confessar. Aquilo era estranho. Julie. Uma garota doce. Delicada. Pedindo para usar uma coleira.
_Eu... eu não me sinto obrigado... a nada... só pensei que...
Os olhos dela se afastaram. Pousaram no chão. Estava se encolhendo. Depois daquilo era difícil acreditar, mas ela parecia envergonhada.
_Julie...
_Não. Não fala nada... Você é bom, Albert. Um homem bom. Preciso te explicar...
_Explicar? Mas do que está falando?... se quer usar isso enquanto...
_Não é isso, Albert... não é apenas isso...
_Então, o que é?! Estou confuso...
_Sente-se...
_Não me mande sentar em minha própria casa.
_Desculpe.

Ela andava e falava de uma maneira que eu não havia reparado antes. O que estava tentando me dizer? Devia dar uma chance? Devia ouvir o que havia de tão terrível para tanto mistério?

_Pois bem... explique-se.

Ela não se virava e iniciou. Contou a história mais esdrúxula que uma ser humano normal poderia escutar. Terminado, ela permaneceu de costas. Não arriscaria dizer algo, pois realmente não entendia muito bem a história e realmente não sabia quem estava mais a minha frente naquele exato instante.

_Por favor, diga alguma coisa... pelo amor de deus, fala alguma coisa!

Não pretendia ser mal educado ou sarcástico, mas meu interior estava implorando por algo rude e grosseiro.

_Dizer o que?! Não sei nem com quem falo agora! Respondo para qual das duas?! Heim?! Julie ou Chloé?!
_Não... você entendeu errado... eu...
_Quer mesmo que eu acredite nisso?! Ou faz parte dessa história maluca que acabou de inventar?! Olha, se você apenas tivesse me dito que gosta de usar seus brinquedinhos e parasse de inventar histórias, mas é impossível acreditar! Você mente!
_Não! É verdade!... Albert. Por favor, olha pra mim... olha...
_Eu não sei se devo, afinal quem eu encontraria ai?! Qual das duas está representando agora?!
_Não estou representando! Não é assim que funciona!
_E era para funcionar?! Você me engana, diz que é uma pessoa, quando na verdade é outra... me diz: Julie é seu nome de verdade? Aquele senhor é seu avô? Você mora mesmo naquela rua?
_Claro que sim... bem... não moro naquela rua, meu avô mora lá, mas o que isso tem a ver...
_O que isso tem a ver?! O que tem a ver?!... você é muito sínica mesmo. Claro... Engane o Albert. Mostre como é superior. Faça-o acreditar na historinha da carochinha e depois... e depois... me diz, o que vem depois? Vai me fazer assinar um cheque? Quer o número da minha conta no exterior? Ou melhor, quer ser minha herdeira... Claro! Por que assim receberia em dobro, não é?!... Não, na verdade não me diz o que vem depois... estou muito nervoso. É, nervoso. Irado. Com muita raiva. Tenho vontade de te esmagar, mas não faria isso... ao contrário eu te torturaria se fosse possível, mas você deve ser a maior tortura para si mesma!
_Por favor, para! Para! Eu não quero ouvir! Você é cruel! É mau! Egoísta! Acabo de te contar uma parte de mim e olha o que me faz! Acabo de te falar que possuo problemas, que penso ter dupla personalidade e olha o que me fala! Qual é o seu problema?! Você acha que pode fazer tudo só porque é rico?! Ou é retardado mesmo?!
_Abaixe a voz para falar comigo, garota!- minha voz já estava saindo entre os dentes. Não queria mais ouvir. Foi quando vi. Ela estava abaixada e nessa posição colocou aquela coisa no pescoço.
Virou-se. Definitivamente já não era mais a mesma. Havia mudado. Os olhos enegreceram, a expressão tornou-se lasciva e estava se aproximando de forma perigosa. Tentou tocar-me, mas desviei.
_Oh. Albert... eu sei o que você quer... venha, Albert. Venha...

Desviar do seu caminho era difícil. A voz era outra e eu já estava contra a parede. A consciência pesou. Queria realmente ter aquele corpo, mas não seria ela. Ou seria?
Encurralado. Os dedos tocaram meu corpo. Eram tão quentes. Ela era quente. Encostou os lábios em meu pescoço e iniciou pequenos chupões na área. Estava delirando. Não podia. Não era sensato. Prendi seus pulsos e a pressionei contra a parede. Oh, o que estava fazendo?
Continuava a me encarar daquele modo. Perdi a razão. Suguei os lábios. Eram bons, mas não os mesmos. Tudo era diferente, até o cheiro. 

_Julie eu...
Pousou os dedos na minha boca. Soube que não era mais Julie. Eu a havia perdido. Aquela era Chloé. E sabia me tentar passando sua perna entre as minhas. Tomei-a. Agarrei seus cabelos e comecei a marcá-la. Apesar da força e do ódio que eu ainda sentia, ela não parecia ter raiva. Ao contrario eu poderia dizer que o que via era prazer. Puro e simples prazer.
Prazer esse que apenas aumentou quando já estávamos unidos. Aumentava o ritmo e me satisfazia ouvindo os sussurros e gemidos. Mordia cada centímetro daquele corpo. Eu a faria minha, minha e de mais ninguém. Seus olhos reviraram ao chegar no ápice. Senti-me completamente preso dentro dela. Estávamos ofegantes. Finalmente havia terminado.


***
Observava o mar, quando sentiu mãos que se entrelaçavam em sua cintura. Foi virada de frente e agarrada pelos cabelos. Cabelos que agora já eram definitivamente curtos e escuros. A boca foi sugada como apenas ele sabia fazer. Parou para tomar fôlego, mas decidiu não continuar.

_Pensei que não viesse.
Aquele sorriso. Lindo como sempre.
_Bobinha... é claro que viria... afinal, após a audácia de uma certa femme fatale em se revelar aquela noite, eu não poderia recusar.
Era isso o que ela queria ouvir. Agarrou seus cabelos e o encarou.
_Agora estamos a sós... eles se foram... completamente... Julie e Albert já não existem mais.
_Eu gostaria que não me chamasse mais assim.
_E como gostaria de ser chamado, nobre senhor?
_Acho que aquele modo como me chamou a meses atrás seria suficiente.
Sorriu com a malícia dele.
_Deus? Semi deus?
Percebeu os lábios de prontidão para darem uma afirmativa, mas antes que ele o fizesse, ela selou suas bocas. E agora poderiam realmente viver, sem interrupções.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A travessia



Brazil, março de 2087
A terra tem se tornou um ambiente hostil. Desde o descongelo das geleiras que ocasionaram a queda da temperatura oceânica deu-se inicio a uma nova era glacial. Mais de um terço da população mundial havia morrido. Nada mais era como antes. A Nova Ordem era a organização que controlava o mundo agora, não havia mais países, nem leis, todos estavam subordinados a ela.
Embora possuísse a hegemonia mundial, a organização tinha uma grande pedra no sapato, nós, a Tribuna, um grupo de resistência que estava ganhando cada vez mais força. Essa se instalou no subsolo da cidade de São Paulo, com as mudanças climáticas a grande parte da população que vivia ali ou morreu ou fugiu, com isso o metrô acabou sendo desativado deixando um emaranhado de túneis os quais se equiparavam a um labirinto.
Meu nome é Noah Locke e sou o que chamam de o atravessador, meu trabalho é guiar os adeptos a causa até o esconderijo da tribuna. Conheço aqueles caminhos como ninguém.
Uma semana atrás, Derek, o líder da tribuna veio até a mim e me deu a seguinte missão: Eu teria que trazer Eveline sã e salva aqui para baixo. Tarefa simples, ou pelo menos era o que eu imaginava.
Olhei no relógio já era quase três da tarde, o horário combinado. Eu não sabia explicar por que, mas algo fazia com que eu tremesse. Observei as pessoas que passavam na rua, das poucas, raras olhavam o homem parado ao lado de um telefone publico em frente à rodoviária, nenhuma delas se preocupava comigo; a sua vida já a sua vida já lhe exigia o bastante para perder tempo com esse tipo de coisa.
15: 28 Ela estava atrasada. Comecei a ficar preocupado. A ordem perseguia muitos membros da tribuna, não era seguro para nós desfilarmos por ai. Mas Eveline não era um simples membro, ela estava infiltrada na cúpula da ordem e fora descoberta. Sabia demais, seria caçada até o inferno por eles. Ela precisava chegar logo à tribuna, caso contrário estaria com seus dias contados, se é que ainda lhe sobrariam dias.
Olhei os guardas que passaram por mim e fingi estar ao telefone. Havia homens a trabalho da nova ordem em cada esquina, não era tarefa fácil passar despercebido por eles.
Um ônibus se aproximou, rezei para que ela estivesse lá. Aos poucos os passageiros foram descendo, um policial verificava documento por documento. Até que desceu uma mulher, envolta por um pesado sobretudo branco, olhos azuis e longos cabelos cacheados loiros. O policial aproximou o leitor de retina, para verificar a identidade da mulher.
– Está limpa, pode ir. – disse o policial ao ver uma luz verde piscar no painel.
A mulher fingiu um sorriso e pegou a sua pequena bagagem. Caminhou lentamente em minha direção e desabotoou o primeiro botão do sobretudo deixando aparecer um broxe pregado a blusa com o símbolo da Tribuna. Era ela!
Abri um leve sorriso. Até então estava sendo bem simples.
– Noah? – ela perguntou baixinho.
Assenti com a cabeça.
– Precisamos sair daqui. – ela disse.
Estava certa, precisávamos. Peguei a sua mala e fiz menção em caminhar na direção de um beco, mas antes que eu desse um passo sequer um dos policiais começou a correr em nossa direção.
– Droga! – ela exclamou.
Olhei confuso.
– Vamos! – ela só faltou berrar.
Peguei a mala e sai correndo atrás dela.
– É ela, peguem-na! – ouvi um dos policiais gritar. – Viva ou morta, para a Ordem só importa a cabeça.
Um tiro passou raspando pelo meu ombro e acertou um poste a minha frente. Ela abriu as pressas um compartimento da bolsa e tirou uma caixa de chumbo, onde havia duas armas dentro. Jogou uma para mim enquanto continuávamos correndo.
– Sabe usar essas coisas? – perguntou ao se escorar atrás de um muro.
– Tecnicamente sim. – respondi. Havia recebido alguns treinamentos na Tribuna, mas a minha praia eram os trens. – Precisamos chegar até a estação.
Os policias estavam cada vez mais perto. Eveline atirava contra eles o que impedia a sua rápida aproximação. Ela conseguiu balear um na perna e esse caiu ao chão.
– Não vai demorar muito até que avisem aos outros. – ela advertiu.
– Para lá – apontei para um carro estacionado, onde uma mulher guardava as suas compras.
Corremos na direção do automóvel e entramos as pressas, a mulher espantada viu a porta do veiculo bater. Liguei a chave e dirigi na direção do cruzamento, ao longe um helicóptero vinha em nossa direção.
– Vou morrer. – a ouvi sussurrar suando frio ao meu lado.
– Não se depender de mim. – garanti a ela. Eu estava ali justamente para isso, levá-la em segurança até a Tribuna.
O helicóptero começou a atirar em nossa direção, o vidro de trás do carro se estilhaçou e nos abaixamos para nos proteger dos cacos.
Segurei firme no volante e pisei no acelerador fazendo ziguezague pelas avenidas a fim de despistar o helicóptero, ou que ele se chocasse com algum dos edifícios. Tentativa fracassada, ou eu nos tirava dali ou morreríamos em poucos minutos.
Ela apertou o meu joelho assustada, a mulher durona de poucos minutos se desvaneceu perante a morte iminente. Olhei para ela por um breve milésimo de segundo e tentei sorrir.
– Foi tolice minha achar que sairia ilesa de tudo isso. – ela pensou consigo mesma.
– Eu vou tirá-la daqui. – prometi mais uma vez. – Há um túnel há alguns quilômetros daqui, nele há uma passagem para os túneis do metrô. Tudo o que precisamos é chegar até lá. Conheço aquele lugar como ninguém. Estará segura lá.
Ela olhou para mim e assentiu, mas o seu sentimento de segurança foi embora segundos depois quando eu fui forçado a fazer uma manobra arriscada com o carro para fugir de alguns tiros.
Senti o meu braço queimar com uma dor lacerante. Respirei fundo para não urrar de dor.
– Você está bem? – ela me perguntou.
– Sim – menti.
– Não! Você está sangrando.
– Eu vou ficar bem. – insisti.
Meus reflexos começaram a vacilar um pouco. Droga! Estávamos quase lá.
Entrei com o carro para dentro do túnel, sai às pressas. Entrei por um buraco apertado e ela me seguiu. Caímos em um túnel ainda mais escuro. Acendi a minha lanterna e procurei por uma locomotiva que costumava deixar por ali. Entrei dentro dela, acionei alguns botões os faróis acenderam iluminado o túnel.
A locomotiva começou a se mover e eu me senti um pouco tonto. Eveline percebeu.
– Você não está bem. – ela disse preocupada, pressionado o meu ferimento.
– Não, se preocupe, vou ficar bem. – garanti a ela. Mas eu já não tinha mais tanta certeza assim.
– Vamos demorar muito?
– Não muito, quando se sabe aonde quer ir.
Ela falava qualquer bobagem apenas para me manter acordado. Se eu desmaiasse ali, certamente morreria ela nunca iria encontrar o caminho para Tribuna em meio aquele labirinto de trilhos.
Estacionei próximo a uma grande porta e saltei da locomotiva. Senti tudo a minha volta começar a rodar. E me esforcei para chegar ao leitor de retina antes de tudo ao meu redor ficasse escuro.
– Seja bem vindo, Noah. – a ultima coisa que ouvi foi uma voz mecânica.
...
– Ele vai ficar bem? – ouvi a vez de Eveline ao longe.
– Vai sim. Só perdeu muito sangue, mas vai ficar bem. – ouvi uma voz masculina.
Abri os olhos.
Um par de olhos castanhos me fitava profundamente. Olhei para a mulher sentada ao lado da minha cama na enfermaria. Cabelos curtos, negros, escorridos... mas?
– Prefere loiras? – ela brincou, praticamente lendo os meus pensamentos. – Eu precisava de um bom disfarce para passar pela policia. – disse passando a mão pelos cabelos.
Ela me encarou. Por alguns segundos não dissemos nada.
– Fiquei preocupada com você, achei que... bem... – ela gaguejou.
– Sou duro na queda. – brinquei.
– Você conseguiu, Noah. Você me trouxe para cá, sã e salva. Obrigada. – ela sorriu.
Eu não soube o que dizer, apenas sorri de volta.
By Ashe.