terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Missao anjo da guarda: capitulo 4: Olhos negros



Eu acordei com um raio de sol que entrava por uma fresta da parede e batia diretamente nos meus olhos. Espreguicei e coloquei-me de pé. Precisava encontrar seja lá quem fosse o meu protegido e já havia perdido tempo demais.

Assim que abri a porta o morador do apartamento em frente saiu no mesmo instante. Nossos olhares se cruzaram por um breve instante e encarei aqueles obscuros olhos castanhos.

Era ele, não sabia explicar por que nem mesmo como. Mas eu tinha certeza, era ele!

– O que está olhando, garota? – Ele rosnou para mim.

–Quem é você?– indaguei.

– Eu que te pergunto, quem é você?– Ele me encarou.

– Isabela. Agora quem é você?

– Pedro. – Ele respondeu em um tom seco ao notar que eu ainda o observava. Ele era alto, tinha o cabelo curto e intensamente preto, tinha a pele bronzeada e deveria ter 18 ou 19 anos.


– Olha, eu tenho que ir – Disse me dando às costas.

– Ei, espera!– Gritei por impulso segurando o seu braço. Não acreditava que tinha feito aquilo, tocar um humano me dava nojo.

Ouvi um chiar e comecei a sentir um cheiro de carne queimada.

Ele puxou o braço de volta as pressas.

– Tire suas mãos de mim!– Ele rosnou como um bicho feroz. Seus olhos haviam mudado, estavam totalmente negros e assustadores.

Eu me afastei por impulso. Não era possível, um humano não reagiria assim ao toque de um anjo. Só se... Não, não podia ser...

Ele colocou o skate de baixo do braço e saiu andando. Comecei a andar atrás dele.

– Escuta aqui, não sei quem você é ou o que quer, mas fica longe de mim. – Ele disse ao se voltar para mim, seus olhos já haviam voltado ao normal.

–Aonde você vai?

–Para a escola.

– Vou com você.

Ele socou a parede ao meu lado, fazendo com que essa se deformasse. A força dele era muito superior a de um humano normal.

Só agora eu havia notado ele não tinha aura. Mas aquilo não era possível!

– É surda, garota?! Eu falei para ficar longe de mim.

– E eu disse que vou com você.

– Você por acaso trabalha pros tiras? Se trabalha eu estou limpo, okay? Estou longe das drogas à um ano, tá legal. Minha condicional acabou a um mês.

Nossa, que maravilha eu tinha que proteger o senhor encrenca. Por que não simplesmente o deixavam morrer e poupavam o trabalho? Os humanos eram tão inferiores ainda mais um como aquele.

– Não sou tira. – Respondi.

– Então o que quer comigo?

– Ir para a escola tbm.– Disse de imediato.

Ele me encarou nem um pouco convencido.

– Garota estranha. – Sussurrou. – Tá bem, mas fica longe de mim.

Ele saiu andando. O segui.

Ainda não podia acreditar que estava ali, deveria estar no céu, com os outros anjos da morte e não naquele lugar fétido protegendo um humano metido a encrenqueiro.

Caminhamos alguns minutos até um lugar com muros altos e completamente pichados e onde adolescentes se aglomeravam perto do portão.

– Oi, Pedro– sussurram algumas garotas para ele. Idiotas!

– Olha só quem resolveu aparecer. – Ouvi alguém dizer atrás de nós.

Virei-me e vi um cara mal encarado cercado por um bando. Ele parecia ter mais que vinte anos e exibia uma cicatriz que atravessava o lado direito da sua face.

– Imagino que já tenha o meu dinheiro.

– Ainda não, mas... – Pedro gaguejou.

– Como assim não tem o meu dinheiro?! Tá me achando com cara de palhaço é?

–Não, claro que não. Vou dar um jeito de conseguir seu dinheiro cara, mas só preciso de mais tempo.

– Não sou relógio para te dar tempo, sacou?– O garoto estava enfurecido. –Deem uma lição nele!– Ordenou aos seus capangas.

Os caras avançaram na direção de Pedro. E um deles desferiu um soco contra o rosto do meu protegido fazendo com que esse caísse ao chão. Pedro se levantou massageando o rosto. Seus olhos estavam completamente negros novamente.


– Eu disse que ia conseguir o dinheiro! – Ele rosnou como um cão, feroz.

Entrei entre ele e os homens que avançavam.

– Fiquem longe dele! – Ordenei.

O líder do bando começou a rir.

– Olha isso, Pedro precisa de uma garota para defender ele.

Esse comentário deixou Pedro ainda mais furioso. Ele me encarou com os olhos ainda negros.

– Eu disse para ficar longe de mim– sua voz tinha um tom áspero assustador.

– Estou tentando ajudar você!

– Eu não preciso da sua ajuda!

Graças à coragem da sua namoradinha você tem até amanhã para me trazer o dinheiro ou vai levar mais do que um soco. – O homem ainda estava rindo de deboche.

Pedro me olhou pela última vez e saiu andando. Eu o segui. Não acreditava o que estava fazendo.



Continua...

by Ashe

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Destrutivo



Morte. Palavra familiar.
Redenção. Palavra desconhecida.
As sirenes do outro lado do vidro são audíveis. Preciso me mover, preciso sair daqui, mas como?Pergunto-me. Como deixar o palco da encenação?
Viver dos momentos ludibriadores que permanecem ao meu redor? Jamais!
Entregar-me? Não é uma opção!
Sinto minha mandíbula se contrair, meus dentes comprimidos pela força aplicada. Corpos diferentes; constituem par de ação e reação...
Ainda assimilo o breve pensamento que tive antes de me comprometer: O quê está pensando?!Eles vão te pegar! – Não!! (jurei para mim mesmo) Nunca! Sou o melhor no que faço!
É real. Sou mesmo o melhor no que faço. Indiscutível.
Um ano atrás, um maníaco assume o posto de líder. Fecho meus olhos e penso na ira que me domina quando penso em tudo o que ele fez. Retomo os passos que fiz até alcançar o meu objetivo.
Estou na rua. Luzes cintilantes, neons para ser exato. Noite alta, vasta multidão, muita música, mulheres, homens, outras espécies...
Pelos cantos, os desvalidos, os cansados, crianças, idosos, pessoas que passaram a ser ignoradas, acusadas e torturadas por serem julgadas como impróprias para habitarem no meio da sociedade. O homem que consumia o próprio homem. Ao menos seria essa a lógica se eu ainda julgasse como humanos as criaturas manipuláveis e cruéis que gostavam da carniça dos que um dia foram os seus iguais.
As vozes altas e baderneiras, os odores fortes, o gosto intragável daquela multidão. Carniça! Odeio isso... pessoas nojentas e que se mostram superiores, quando na verdade são piores do que os próprios excrementos.
Loucos. Depravados. Mentes sórdidas e pútridas que desejam se unir ao asco de sua existência, ou ao menos levar consigo um maior número de adeptos desse estilo.
Como podem fazer tal coisa? Como podem cogitar o verdadeiro prazer como um ato imprudente e repugnante do que julgam ser a alegria? Aversão já não é mais o senso correto pelo qual entregaria tais espécimes... Talvez ‘filhos do mundo’... os verdadeiros (ódio interno... posso senti-lo).
‘Filhos do mundo’, mistura tola e irracional pela qual definem todos aos quais não pertencem ao seu segmento. Com se pudessem de fato prever todos aqueles cuja mente e bolso são confiáveis o suficiente para estarem no meio desses vadios imundos.
Ha,ha... sarcasmo... como diriam: tenham fé meus fiéis, pois afinal, quem pode prever as atrocidades as quais estamos sujeitos por culpa dos filhos do mundo...
O discurso político é evidente, mas isso é assunto para outro instante. Respondendo: EU posso prever, EU sei o que esperar, como e quando esperar, SOU capacitado... Responsável pela justiça - não o julgamento, pois eles se autocondenam- tolos e imbecis acham que podem escapar, mas não, nunca podem!
E hoje era a vez do grande desastre para o chefe deles. Aquele cuja mente se prediz capacitada para o auto controle e dominação das massas. Sua figura tão calma e serena esconde de todos a maior infecção jamais vista por aqueles que o cercam, ou ao menos aqueles que se deixam dominar por ele. Esta noite ele conhecerá a verdadeira justiça divina.
Os aposentos dele eram luxuosos. Luxuosos demais para alguém que vivia se dizendo santo e humilde servo. Humildade nunca foi palavra para aquele ser. Humilhação será a palavra ideal.
Devido as ideias repulsivas daquela mente, hoje a sociedade se encontrava em organização destrutiva. Os assim chamados “mais fortes” agora possuíam poderes diretos sobre qualquer um que considerassem mais fracos ou descartáveis para o mundo.
Era horrendo! Pessoas cometendo atrocidades contra as outras por se acharem nesse direito. E eu percebi que elas nunca iriam parar se o líder não fosse deposto.
Meu ódio por eles era intenso, a minha boca secava cada vez que minha mente recordava o motivo maior que me levou até aquele lugar. Receber o corpo do meu filho. O corpo inerte e frio, um garoto de quinze anos, fuzilado. Um menino esperto, inteligente, que possuía uma vida inteira pela frente.
Meu filho. Morto. Um mês depois eu recebo o disparate de um pedido de desculpas enviado pelo correio. Diziam que meu filho havia sido confundido com um dos ‘filhos do mundo’. O ódio cresceu, a vontade de vingança surgiu. Mas ódio e vingança acumulados me fizeram criar forças, fizeram cada passo se tornar único e cego até atingir o objetivo.
E hoje eu estava ali, naquele lugar. O alarme já havia sido soado, mas eu não desistiria. Eu o encontraria e depois mostraria sua cabeça despregada de seu corpo para todos que ali estivessem.
Levantei-me e comecei a andar pelo local. Era uma fortaleza enorme, mas meus instintos já estavam treinados e meu ódio crescia cada vez que sentia estar chegando perto. Eu o mataria e deixaria o sangue escorrer pelos meus dedos.
Atravessei todos os corredores e alcancei uma porta enorme. Sem pensar duas vezes saquei a arma que carregava e entrei no local. A minha frente havia um monitor, uma espécie de tela gigante e apenas uma cadeira. Assentado nessa cadeira havia alguém. Ele.
Apontei a arma em sua direção.
_Vire-se...bem devagar... quero olhar nos seus olhos enquanto eu o faço pagar por tudo isso.
A cadeira foi virada e o rosto familiar apareceu. Era idêntico aos dos inúmeros programas e cartazes distribuídos por todos os locais. O homem velho e grisalho.
_Assassino...
Meu dedo já estava no gatilho. Minha mente já estava preparada. Mas não precisei puxar o gatilho para ouvir o barulho da bala. Foi então que notei. Atrás de mim havia mais alguém. Esse alguém havia acabado de matar o homem a minha frente.
Não me virei rápido, mas quando o fiz, meus olhos não acreditaram naquilo que estavam vendo. O garoto sorria enquanto abaixava a própria arma lentamente. Depois me encarou e eu gelei com aquela expressão.
_Olá... papai.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A travessia parte II



Não deixe de ler a Parte I





Deslizei a minha mão sobre a sua nuca e puxei o seu cabelo curto trazendo o seu rosto para mais perto do meu. A pouco mais de três meses ela era uma completa estranha que eu havia arriscado a vida para trazer em segurança até a Tribuna e agora estávamos lá, em meio a um beijo quente. Desde o primeiro instante em que a vi senti algo especial por ela, e seria só questão de tempo para que algo acontecesse entre nós.
Empurrei-a contra a parede e comecei a dar leves mordidas e beijos no seu pescoço. Eveline se arrepiou e enterrou os dedos no meu cabelo. Deslizei as mãos pelo contorno do seu corpo até seus seios. Ela suspirou e intensificou o beijo. Nossas línguas dançavam em perfeita sincronia.
Retirei a sua blusa e joguei ao chão. Ela fez o mesmo com minha camiseta. Soltei o seu sutiã e o retirei. Meus lábios percorreram um caminho pelo seu pescoço ate a região entre os seus seios.
Eveline me puxou para a cama e deitei sobre ela. Encarei-a e vi sorrir. Como eu adorava aquele sorriso! Retirei as roupas que ainda nos cobriam e a puxei, sentando-a no meu colo. Minhas mãos percorriam o seu copo, enquanto ela subia e descia em mim.
– No... Noah... – ela gemia o meu nome.
Chegamos ao clímax juntos e ela caiu sobre o meu peito. Sua respiração era ofegante.
Com ela deitada sobre mim, acariciei eu cabelo e dei vários beijos carinhosos até pegarmos no sono...
Acordei no meio da noite com o telefone tocando. O barulho acabou acordando-a também.
– Alô. – eu resmunguei ao atender o telefone.
– Noah, finalmente conseguimos decifrar o que a Eveline nos trouxe. Precisamos de vocês aqui. – disse o responsável pelo nosso setor de inteligência.
– Estamos indo. – avisei antes de desligar o telefone.
Eveline e eu nos vestimos e fomos até a sala de reuniões onde os mais importantes membros da tribuna estavam. Quando passamos pela porta todos os olhos se voltaram para nós. Eu não gostava muito de todos aqueles holofotes, não passava de um atravessador e gostava disso, mas depois que Eveline chegou parece que tudo havia mudado.
 – Que bom que finalmente chegaram.  – disse Aron a nós. Ele era um homem alto de cabelos grisalhos e vestia um terno de giz. Aron era o presidente da tribuna, o fundador da resistência.
– Como não temos tempo para rodeios vou direto ao que interessa. – disse Yan. Ele não dirigia a inteligência da tribuna ao acaso. Era o nosso maior cérebro.  – Analisando os dados que Eveline trouxe para nós descobri que a Nova ordem encontrou um meio de restaurar o clima antigo da terra...
Um murmúrio alto começou a ecoar por toda a sala. Os membros da tribuna estavam incrédulos sobre o que acabaram de ouvir.
– Isso é impossível! – exclamou alguém.
– Não com a tecnologia e a fonte de energia necessária para sustentar o sistema. – um holograma surgiu na mesa do centro. Todos os olhares se voltaram para ele cuja imagem mostrava uma caverna repleta de cristais. – A ordem descobriu nesses cristais uma energia ainda mais forte do que a radioativa. Energia suficiente para manter em pequenas aéreas um clima semelhante ao da terra no século passado...
Os murmúrios ecoaram pela sala novamente, as pessoas não acreditavam naquela possibilidade.
– Então a Ordem está tentando fazer uma coisa boa em restaurar o antigo clima? – me atrevi a perguntar.
– Não. – Yan foi enfático. – Vindo da Ordem nada é para o bem do povo. Eles planejam vender essa tecnologia a quem possa pagar por ela...
As pessoas voltaram a discutir. Olhei para Eveline e ela não parecia nem um pouco chocada, conhecia bem a Ordem para não esperar menos.
– Eu preciso de um desses cristais para tentar replicar o projeto deles. – Yan continuou dizendo.
– Eu vou! – anunciou Luke de um canto da sala, nem ao menos esperou que o chefe de inteligência terminasse a sua fala.
– Maravilha! – Yan sorriu. Luke me parecia um bom candidato a missão, era um dos melhores homens da segurança. – Não é nada muito complexo... – começou a explicar. – É mais uma missão de reconhecimento. A caverna fica em uma das montanhas dos Andes, então enfrentará temperaturas muito mais baixas do que as que estamos acostumados. Graças ao trabalho de Eveline temos todas as coordenadas do local, portanto preciso apenas de um cristal e mais fotos do local.
– Vai ser fácil! – Luke contou vitória.
Eveline olhou para mim com uma expressão séria estampada em seus olhos castanhos. Ela estava preocupada e eu também. Nada era tão simples quando se tratava da Nova Ordem.
Luke recebeu as ultimas instruções e partiu em viagem. Durante a breve despedida não consegui tirar de mim a péssima sensação que sentia. Um mês depois as noticias chegaram e não eram nada animadoras. Luke havia sido assassinado, e antes de morrer, deixou uma mensagem, não para a tribuna, mas para mim, ninguém na tribuna conhecia aquele método de agir tão bem quanto eu.
– Eu vou até a caverna. – anunciei em uma das reuniões.
– Não! É perigoso demais. – Eveline tentou me impedir. – Você é só um atravessador.
– Noah está certo. – Aron concordou comigo. – Está na hora de você resolver isso. – disse ao se virar para mim.
Concordei com um aceno de cabeça e fui arrumar as minhas malas Eveline veio atrás.
– Isso é loucura, Noah. Você não pode ir lá, tem um assassino da Nova ordem naquela caverna – ela segurou meu braço para que eu parasse e olhasse para ela.
– É por isso mesmo que eu vou. – não disse mais nada e fui para o meu quarto. Joguei algumas roupas numa mala e abri um cofre atrás do meu guarda-roupa onde peguei algumas armas.
Quando me virei dei de cara com Eveline parada atrás de mim, com uma bolsa pendurada no ombro.
– O que é isso? – perguntei.
– Não acha que eu vou te deixar ir sozinho, acha?
Abri a boca para protestar contra a atitude insana dela. Porem antes que qualquer palavra saísse da minha boca ela me calou com os lábios.
– Nada de mas.
Embora eu não pudesse deixá-la ir, não consegui obrigá-la a ficar. Eveline era bem persuasiva quando queria.
Viajamos de carro até Mendonza na argentina. Por mais que os transportes aéreos fossem mais rápidos e
eficientes esses eram mais controlados pela Ordem e burlá-los era mais difícil. O lugar estava praticamente deserto, eram poucos os que se arriscavam a viver em temperaturas inferiores a -20 ° c.
A viagem de carro, não foi mais complicada do que a escalada até a caverna. Receber as coordenadas era fácil, o complicado mesmo era escalar até lá. Olhei para Eveline subindo ao meu lado e dei-lhe um rápido beijo, tocando seus lábios gelados de frio. Preferia que ela tivesse ficado segura na tribuna, ela era uma espiã e não uma exploradora.
Quando finalmente chegamos à entrada da caverna Eveline sorriu, impressionada com a beleza daquele lugar. Os cristais refletiam a pouca luz do sol para dentro da caverna criando um efeito único e maravilhoso.
– Finalmente você apareceu! Achei que mandaria mais dos soldadinhos da tribuna para que eu me divertisse. – Eveline e eu nos viramos no sentido da voz.
Os olhos dela se arregalaram de surpresa quando viu o homem há alguns metros de nós. Ele vestia roupas grossas pretas e tinha uma espada junto ao corpo, contudo o que provavelmente a assustou foi o fato dele ter o mesmo rosto que eu.
– Não contou há ela sobre mim? – ele perguntou em meio a uma risada sarcástica.
– Esse é o Hoan. – murmurei – meu irmão...


Continua...

By Ashe

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Hunted hunter - Capitulo 5: Cross Fear



Não esqueça de conferir os capitulo anteriores:

cap.1- http://kenneneashespace.blogspot.com.br/2013/10/hunted-hunter-capitulo-1-bloodlines.html

cap.2- http://kenneneashespace.blogspot.com.br/2013/11/hunted-hunter-capitulo-2-vampire-killer.html

cap.3- http://kenneneashespace.blogspot.com.br/2013/11/hunted-hunter-capitulo-3-dance-in.html

cap.4- http://kenneneashespace.blogspot.com.br/2013/11/hunted-hunter-capitulo-4-crystal.html


   
  
  
   Em algum lugar...
   - Você estava certo. Ele está mesmo vindo para cá.
    Uma mulher mascarada em um longo vestido roxo, olhava por uma janela, encarando a chuva do lado de fora. Falava com um senhor à suas costas, um cavalheiro de cabelos e barba brancas. O senhor sorriu para ela:
   - Eu te dou o que você quer, e você me dá o que eu quero.
   A mulher sorriu por baixo da mascara e assentiu com a cabeça.
   Uma mocinha de vestido dourado e cabelos vermelhos se aproximou do senhor e lhe tocou os ombros.
   - Está na hora - disse ela - temos trabalho a fazer.
   O cavalheiro consente e deixa a sala com a moça de dourado. A mascarada toca o vidro da janela e suspira:
   - Gabriel...


                                                                              ***

  " Nada pior que uma chuva para atrapalhar a viagem de duas pessoas que viajam a pé!"
   Gabriel repetiu essa frase varias vezes, resmungando por terem sido pegos por uma chuva inconveniente no meio da sua viagem. Sônia suspirava cada vez que ele repetia aquela frase, preferia que ele ficasse quieto, mas... Gabriel tem que ser Gabriel...
   - Poderia ficar mais calmo por favor? - pediu ela - tem uma aldeia logo ali.
   Sônia apontou para uma placa entre umas arvores que indicava um caminho na mata. Ao se aproximarem, puderam ler  placa:" Ravenest". Mais abaixou, pintado de tinta vermelha, uma frase: "Entre por conta e risco!"
   - Parece que é bem o nosso tipo de lugar. - disse Gabriel, sorrindo de canto. - Um fosso fodido e possivelmente assombrado.
   - Não faça graça! essas pessoas podem estar precisando de ajuda!
   - Ok. Vamos dar uma olhada, até porque não parece que temos muita opção, precisamos de um lugar pra passar a noite e recarregar.
   A dupla tomou o caminho para Ravenest, acelerando o passo; a chuva estava fazendo escurecer mais depressa.
   Sairam da floresta onde estavam e correram por um caminho de barro molhado até encontrarem um vilarejo. Várias casinhas com telhado de palha, coberto por escuridão. Nenhuma luz de nenhuma das janelas.
   - Abandonada? - perguntou Sônia.
   - Não, tem alguém ali.
   Entre as casinhas, havia um homem parado, na chuva. Estava escuro, mas era possível vê-lo ali, quase imóvel.
   - Ei. Ei você! - chamou ele, se aproximando.
   O homem no entanto não se moveu. Sônia empunhou sua cruz, estava com um pressentimento terrível. Seguiu de perto seu parceiro, que adentrava a vila.
   As casas estavam todas fechadas, não era como se estivessem sido abandonadas... tinha algo muito estranho ali.
   - Ei! eu falei com você! - Gabriel tocou o homem no ombro e o virou para si.
   O homem rosnou para ele. Seu rosto era cadavérico, parcialmente comido. Suas roupas estavam sujas de barro. Suas mãos eram como o rosto; podres e corroídas. Os caçadores deram um pulo para trás, com o susto. O homem começou a andar na direção deles, arrastando uma das pernas.
   - Mas que diabos tá acontecendo aqui?
   A sacerdotisa ficou costa-a-costa com seu parceiro.
   - Gabe? acho que temos um probleminha aqui.

   Estavam cercados. À volta deles, dezenas de outros camponeses apodrecidos. Não apenas adultos, algumas crianças também. O caçador desenrolou o chicote.
   - Quanta miséria - lamentou ela - Em nome de Deus, eu não posso permitir que essas pessoas sofram dessa forma.
   O chicote cortou o ar, abrindo um talho incandescente no peito do zumbi que se aproximava.
   - Vamos dar descanso a eles.
   Sônia apontou para frente sua cruz e orou:
   - Fugata daemones et spiritus nequam
   Os camponeses zumbis recuaram com a luz divina que emanava do corpo da sacerdotisa. Eles pareciam sentir medo da presença dela. 
   Se separaram; cada um com seu estilo;Gabriel espancava e rasgava os zumbis com brutalidade, e Sônia usava a presença de Deus para livra-los daquela dor pós morte.
   - Auferte! 
   Ela apontava a cruz e os zumbis naquela direção desmanchavam como lama. Quando o ultimo deles foi destruído, os dois se reencontraram no centro da vila, onde havia um poço.
   - Acho que esses foram os últimos. Você está bem? - perguntou ele, enrolando o chicote.
   - Estou bem, mas ainda tem algo que em incomoda.
   - A mim também. Esse lugar não parece abandonado. Esse poço está em ótimas condições, e eu vi umas plantações ali atrás... E esses casas...
   Ele deu um passo em direção a uma das casas e gritou:
   - Saiam daí!
   - Gabriel! seja mais delicado!
   - Nós sabemos que vocês estão escondidos aí!
   - Nós nos livramos de todos os monstros, não precisam mais ter medo!
   Alguém abriu uma fresta na janela...


                                                                  ***

   O vilarejo de Ravenest e seus habitantes tinham uma vida dupla: de dia, eles trabalhavam e cuidavam do crescimento da vila, eram felizes. De noite, todos se trancavam em suas casas, pois os mortos, seus mortos, levantavam do túmulo e assombravam as ruas. No começo, eles não entendiam o que acontecia e muitos foram mortos pelos ataques surpresas dos mortos. Foi então que descobriram que se ficassem trancados em casa sem fazer barulho, os mortos passariam a noite nas ruas e voltariam aos túmulos, ao amanhecer, sem ferir ninguém.
   A chuva ainda caia do lado de fora. No centro da casa, uma fogueira os aquecia ao mesmo tempo que esquentava agua em uma chaleira. Gabriel e Sônia estavam enrolado em toalhas, sentados no chão, ouvindo as historias da família que os acolheu.
   - Sentimos muito por seus mortos - falou Gabe - mas acho que eles não voltam mais.
   - Mas o que poderia ter causado isso? - perguntou a Sacerdotisa
   O homem coçou a barba e os olhou:
   - Não sabemos com certeza mas... a umas semanas, uma moça apareceu por aqui. Estava toda coberta com um manto preto. Ela passou pela vila e foi em direção do nosso cemitério, e então...
   - Foi terrível! - falou a esposa do homem - ver nossos familiares e amigos que morreram, assombrando as ruas, arranhando as portas das nossas casas...
   - Depois que a chuva passar, nós vamos dar uma olhada nesse cemitério.
   Os aldeões tentaram argumentar que isso era loucura, mas a dupla de caçadores não demonstrava qualquer medo
   A chuva parou, tomaram chá e se aqueceram à fogueira. O homem não levou-os até ao cemitério, ele ainda tinha medo de sair de casa durante a noite, mas lhes indicou como chegar lá, não era muito longe; ficava numa pequena colina, à norte da vila.
   Abriram a porta e saíram da pequena casa. Na rua, os restos dos zumbis jaziam espalhados pelo chão. Sônia notou que conforme eles deixavam o lugar, vários olhinhos curiosos os olhavam por frestas de portas e janelas.
   Gabriel caminhava à frente com o chicote na mão, e logo atrás dele, Sônia carregava um lampião, iluminando um pouco o caminho. 
   Alguns minutos de caminhada depois, os dois estavam de frente a um portão de ferro enferrujado, que levava até uma pequena colina, onde ficava o cemitério. 
   Cautelosamente,  adentraram no lugar. Muitos túmulos estavam abertos e vazios, mas outros ainda continuavam fechados.
   - Eu sinto uma energia estranha vinda to túmulo ali do topo - disse Sônia com voz trêmula. - Necromancia...
   No tal túmulo que ela indicou, havia um símbolo estranho desenhado com sangue. Não era nada que Gabriel recordasse já ter visto, mas Sônia continuava afirmando que era trabalho de um necromante.
   - É necromancia fraca - disse ela - só para perturbar os mortos  os fazer andar por ai.
   - Então quem fez esse feitiço é fraco nas arte das trevas?
   - Ou só tá querendo brincar com o sentimentos das pessoas...
   - Você pode desfazer isso?
   - Claro, só vou precisar de um tempo.
   A sacerdotisa ajoelhou-se no chão e começou o ritual de purificação do símbolo,para remove-lo. Espalhou sal e agua benta por toda a marca, ao mesmo tempo em que orava. Gabe por sua vez, sentou-se em um dos túmulos, para descansar. Olhou o paisagem lá cima, era noite, mas mesmo assim, viu algo que o deixou intrigado.
  
- Fugata daemones et spiritus nequam!
    Uma fumaça negra subiu da marca no chão e ao longe, eles puderam ouvir uivos de dor, como se varias pessoas estivessem sofrendo.
  - Pronto. - disse ela, levantando-se - eles vão encontrar seu caminho agora. vão descansar.
   - Você é muito boa nisso.
   - Deus está comigo. Tudo que eu faço é porque ele me permite.
   - Amém. Ei, eu tava pensando... aquilo mais adiante, parece um moinho, não parece?
   Ela apertou os olhos por uns segundos e depois respondeu:
   - Sim, parece sim. Eu imaginei que estávamos perto de Olney, mas parece que estávamos mais perto do que pensávamos.
   - Então ali é o esconderijo daqueles vampiros. Vamos para lá agora mesmo!
   - Não vamos. - ela disse firmemente.
   - O que? vamos sim, é pra isso que viemos aqui!
   - Gabriel, essas pessoas precisam de nós agora. Temos que ajuda-las a limpar os corpos nas ruas, orar por eles e sepulta-los mais uma vez.
   - Nem pensar! já perdemos tempo demais. Desde que fomos contratados para encontrar aquela menina, a Ashlotte Ainslead, buscamos esse lugar. Eliminar os vampiros que se escondem alí é nosso objetivo! Vamos limpar os vampiros dessa parte da Europa.
   - É isso que você realmente quer? salvar pessoas? banir os vampiros? ou simplesmente saciar seu ódio, espancando e matando vampiros? Isso não vai trazer o seu irmão de volta!
   - Deixe Jonathan fora disso! - ele arfava de raiva.
   - Pense um pouco, não acha estranho o que ta acontecendo? TUDO que nos aconteceu nos últimos meses nos guiou ate aqui, até este ponto que por um acaso, fica bem de frente com o moinho de vento da colina Olney.
   - Então o que? ta dizendo que é algum tipo de armadilha?
   - Não! mas há a possibilidade! Não se atire ao perigo dessa forma!
   - Acho que daqui para frente nossos caminhos divergem. Eu tenho minhas escolhas e você tem as suas.
   - Eu não vou abandonar essas pessoas em um momento tão delicado.
   - Me desculpe, mas eu não sou um padrezinho, tenho coisas mais importantes pra resolver. 
   - Então meu trabalho não é tão importante quanto o seu, é isso que ta dizendo?
   - Entenda como quiser.
   Ele virou as costas e começou a descer o cemitério.
   Voltaram ao vilarejo. Ela estava muito contrariada, sentia um aperto forte no peito.
   - Não tem como te convencer a ficar? 
   Perguntou Sônia, vendo que ele estava mesmo de partida.
   - Não tem como eu te convencer a vir? - respondeu.
   - Meus deveres estão aqui.
   - Os meus, estão lá. Eu volto para te buscar.
   - Que Deus acompanhe você.
   Gabriel assentiu com a cabeça a partiu. Ainda estava escuro, mas ele sabia que o momento que ele esperou a vida toda, finalmente tinha chegado. Ainda estava com raiva de Sônia, mas não podia deixar de ficar feliz por ter certeza de que ela não iria se envolver com aquilo. Se Laura estava mesmo por trás disso... não vai ser bonito.
   A distancia entre os dois ficava cada vez maior e ela não conseguia deixar de olhar o parceiro se afastando, sumindo na escuridão. Queria estar com ele, mas precisavam dela aqui. Só lhe sobrava orar para que Deus o proteja.

Continua...

by kennen

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Missão anjo da guarda : Capitulo três: Beco sujo






Não demorei muito para encontrar o local descrevido pelo homem. Felizmente, ou não, o local era exatamente como nas descrições, um beco sujo, fedorento e sem saída se destacava decrepito e cheio de rachaduras.
Um rato, que mais parecia um gato de tão grande, correu a minha frente e foi se esconder num amontoado de lixo que estava na esquina. Baratas apontavam as suas antenas e corriam dos boieiros para a rua a fim de saborear os últimos vestígios do dia.
Perguntei-me como alguém teria coragem de morar em um lugar como aquele, onde os seres do esgoto é que reinavam. Certamente a vigilância sanitária não fazia muitas aparições por ali.
Caminhei até a entrada do prédio onde um homem estava sentado e tragava um cigarro. Ele possuía cabelos brancos e a sua barriga saltava para fora da camisa com os botões estourados. Tive nojo ao olhar para ele, nem sei quem fedia mais, se era aquele homem ou o lixo amontoado na rua.
– Olá, gostosa! – ele sorriu para mim exibindo um conjunto de dentes cariados e outros que nem estavam mais lá. – Quem é você? Por acaso Deus ouviu as minhas preces e mandou uma mulher bonita para me satisfazer. – ele me lançou um sorriso malicioso.
Eca! Eu senti só de imaginar aquelas mãos imundas em uma criatura celestial como eu.
– Eu gostaria de um quarto. – murmurei logo me arrependendo do que havia dito.
– Pode ir para o meu se quiser. – ele piscou para mim.
– Nem se fosse a minha única opção. – respondi de imediato.
O homem fechou a cara, provavelmente nada satisfeito com a minha resposta. Mas por mim pouco importava, tudo o que eu queria era acabar logo com aquela palhaçada e voltar a dimensão celestial.
– Papai do céu não gosta de quem distrata as pessoas, sabia? – disse o homem ao levantar-se com muito esforço da cadeira. Provavelmente aquela enorme e cabeluda barriga deveria pesar uma tonelada.
– Pode acreditar, eu o conheço melhor do que você. – murmurei. – Vai me arrumar um quarto ou não?
– Espera ai garota! – disse o homem ao levantar as mãos. – as coisas não são bem assim não. Ter um quarto eu ate tenho, mas recebo adiantado e são 150 por mês. – disse ao estender uma das mãos viradas para cima.
– 150 por esse brejo. – murmurei surpresa com o valor. – Só pode estar de brincadeira.
– É pegar ou largar. – disse o homem. – Eu duvido muito que encontre algo melhor do que isso por ai.
Tirei o dinheiro da bolsa e o coloquei sobre a mão imunda do sujeito. Ele olhou para mim e sorri grato.
– Segundo andar, quarto 28. – disse o homem ao pegar uma chave atrás do balcão mandar para mim. – recebo sempre adiantado. – berrou assim que eu dei as costas. – e qualquer problema que tiver com o quarto, bem... é problema seu. Mas sinta-se a vontade se quiser visitar a suíte presidencial.
– Ótimo! – pensei alto. – Eu me viro sozinha.
As portas dos quartos tinham números garrafais pregados nelas. Procurei pelo número 28. Quando coloquei a chave na fechadura, tive medo que essa caísse na minha mão. Assim que abri a porta e acendi a luz, uma barata correu para debaixo da cama.
Só poderia ser um pesadelo, do qual eu estava desesperada para acordar. Deveria ser proibido colocar um anjo em um chiqueiro como aquele.
Eu me sentia imunda, infectada com aquela sujeira toda. Precisava de um banho, mas só de olhar para aquele banheiro eu desisti.
Joguei a sacola de roupas sobre uma cômoda caindo aos pedaços e sentei-me sobre a cama que rangeu por mal suportar o meu peso. O céu estava escuro lá fora e a chuva não tardou a cair.
As pedras de gelo se chocavam contra o telhado mal feito e batiam contra a janela de vidro, pela qual entrava a pouca luz externa. No verão eram comuns chuvas como aquelas, mas sua intensidade não era um bom sinal.
Abria as minhas asas e as fechei em torno do meu corpo. As penas de um tom branco encardido me irritavam, mas pelo menos serviam para me lembrar de que eu ainda era um anjo, mesmo que a minha colocação não fosse mais a mesma.
Acariciei as penas, enquanto respirava fundo. Quando será que aquele terrível pesadelo iria acabar?
– Belas asas. – disse uma voz familiar.
Ergui meus olhos e encarei um anjo parado de pé a poucos metros de mim. Ele era alto e os seus músculos se destacavam sob a túnica, seus cabelos eram cor de cobre e os olhos verdes. As asas intensamente negras o tornavam inconfundível.
– Aron. – exclamei surpresa ao vê-lo. – O que faz aqui?
Ele sorriu e caminhou na minha direção. Exibindo as suas asas como quem queria me afetar. Mas eu não me importei ou consegui fingir bem.
– Fiquei sabendo que o criador a puniu e agora é uma mortal. – ele murmurou me encarando profundamente. – eu só quis ver com os meus próprios olhos.
– Ver com os próprios olhos ou me humilhar?
– Bem, quem se importa? – ele deu de ombros
– Para a sua informação ainda sou um anjo. – disse ao abrir bem as minhas asas para que ele pudesse vê-las.
Aron riu.
– Guarda costas de humanos. – murmurou balançado a cabeça em sinal de negação.
– Sim. – respondi. – E o que você tem haver com isso?
– Nada. – ele respondeu em um tom sarcástico. – Felizmente eu não tenho nada haver com isso. – ele soltou uma gargalhada. – A mais bela dentre os anjos da morte, agora não passa de uma simples babá de mortais.
Fiquei em silencio. No fundo minhas entranhas fervilhavam, mas de nada adiantaria brigar com ele.
– Feliz agora? – voltei a encará-lo. – Já se divertiu o bastante e eu gostaria de dormir.
– Você me surpreende. – ele murmurou.
– Sério? – disse em um tom sarcástico.
– Não vou sair do seu pé, sabia?
Balancei a cabeça positivamente.
– Infelizmente sim.
– Então, boa sorte para você. – ele me disse em um tom irônico – Todos estão torcendo por você.
– Imagino.
– Sinta-se a vontade para me procurar quando precisar de ajuda.
– Não vou precisar. – garanti a ele.
– É você quem sabe. – disse ele antes de desaparecer em um feche de luz.
Era só o que me faltava ser motivo de chacota entre os anjos da minha ex-casta. Como se já não fosse o bastante passar por tudo aquilo, pensei olhando o ambiente ao meu redor. No fundo eu sabia que por pior que tudo aquilo me parecesse eu não deveria ir contra os planos do criador, ele, somente ele, sabia o que era melhor a todos. Deveria pensar no propósito de tudo aquilo.
Porem eu não era obrigada a viver naquele chiqueiro. Ah, mas não mesmo! Levantei-me da cama fazendo com que a barata corresse para debaixo dela novamente. As pedrinhas de granizo ainda batiam contra a janela causando um barulho irritante.
Bem, como o homem horrendo dono daquele lugar havia dito, o que acontecesse com o quarto era problema meu. Então haveria problemas se eu fizesse algumas mudanças naquele lugar.  Era proibido dizer que eu era um anjo, não havia nada conta a utilização dos meus poderes, e como eu ainda era um anjo...
Fechei meus olhos e me concentrei. Uma explosão de luz irradiou do meu corpo. O cheiro de ar limpo me preencheu com uma sensação de bem estar. Agora aquele lugar estava no mínimo descente.
Caminhei na direção do banheiro. Já que eu deveria cumprir aquela missão depois de um banho o meu primeiro passo seria encontrar aquele a quem cabia a minha proteção.


continua...

by Ashe

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mais além


O que era aquilo? Onde eu estava? Mas o que...
Um clarão passou por meus olhos. A cabeça doeu. A mão foi à testa.
Sinto-me tonta como se o mundo estivesse girando ao meu redor.
Parei. Esfreguei os olhos e tentei focar algo a minha volta. Muito cedo ainda, a visão era fosca e muito luminosa. Pisquei diversas vezes. Mantive os olhos abertos até captar as imagens ao meu redor.
Estava na rua, disso eu sabia. Havia uma chuva fina que encharcava o meu corpo e grudavam as minhas roupas. Não me lembrava de tê-las vestido. Olhei para baixo e percebi que não usava nada mais do que uma camisola. Estava descalça.
Demorei a notar o lugar onde estava. Levei um susto.
Mas que lugar era aquele? Eu estava no meio da cidade e pessoas corriam a minha volta tentando se proteger da chuva que caia. Todos estava aflitos segurando seus casacos e tentando se esconder dentro das lojas.
Não sabia o que estava havendo, pois ninguém parecia me notar. Todos apenas passavam por mim. Precisava pedir ajuda, afinal como eu fui parar ali?
Uma senhora idosa estava caminhando com seus passinhos vagarosos. Fui atrás dela. Ela não parecia se importar com a chuva como os outros que ali estavam. Alcancei-a e toquei em seu ombro macio.
Iria perguntar se ela sabia o que estava havendo ou se sabia como eu havia chegado ali. E de repente eu escuto a voz da mulher. Era uma voz suave e rouca, mas o engraçado foi ela não ter se virado para falar, por isso não pude ver se os seus lábios se moviam.
Só sei que eu escutei:” não se preocupe minha filha, nós estamos indo para onde todos vão.”
A senhora continuou o seu caminho antes que pudesse impedi-la ou lhe fazer mais perguntas. Fiquei observando. Num instante todos a minha volta já estavam longe e eu sozinha.
Minha cabeça e meu corpo estavam anestesiados por causa do frio. A sensação era estranha e boa ao mesmo tempo, pois ao menos assim não havia dor. Faltava descobrir o que havia acontecido.
Comecei a me mover, as pernas estavam pesadas, era como se para andar eu tivesse que arrastar um caminhão junto. Olhei a minha volta e nenhuma alma boa para ajudar.
Foi ai que avistei um contorno em meio a chuva. Era alguém que trajava capa e um chapéu, ambos escuros. Estava com as costas apoiadas numa parede, uma das pernas escorando o corpo, braços cruzados, o topo da cabeça encostado na parede e o chapéu cobrindo o rosto.
Aproximei no meu ritmo lento. Não parecia ter me notado também. Engano meu. Ao chegar perto, ele retirou o chapéu do rosto, mas o colocou muito rápido, assim não pude ver a face por completo, apenas da ponta do nariz para baixo. Continuava com a cabeça abaixada e não olhava em minha direção. Talvez não tivesse mesmo me notado.
Acenei. Estava perto dele, mas não muito. Queria falar, pedir ajuda, informação, ou qualquer outra coisa. Porém, antes que eu pudesse dizer algo a figura se moveu e virou o rosto para mim.
Naquele momento eu gelei, sentia como se meu corpo estivesse sendo puxado ou algo do tipo. Tive medo. Queria sair dali. Era como se ele estivesse controlando cada parte de mim.
Quis gritar, a voz não saiu. Para minha surpresa acho que ele ouviu algo, pois sua voz soou em meus ouvidos. Era um som grave, marcante, nada que eu já houvesse escutado antes.
“Ainda terá um tempo, mas não muito. Não se acostume, pois farei a gentileza de deixa-la por enquanto. Reúna suas forças e saia daqui, vá em busca das suas respostas. Tente encontra-las se for capaz.”
Com uma risada ele desapareceu pela entrada do beco ao seu lado. Novamente me vi sozinha. Ele havia dito respostas. Será que eu cheguei a dizer aquilo alto? Por que ele e aquela velha foram os únicos que falaram comigo?
Eram tantas perguntas. Virei as costas e reiniciei a caminhada. As pernas parecia um pouco mais leves, mas as questões ainda atormentavam. Para começo de conversa eu não sabia como eu havia ido parar ali, outro ponto era o motivo para ter ido até aquele lugar e de onde eu havia saído. Porém a questão que mais me assombrava era: quem exatamente eu era?
Ótimo! Não sei nem quem eu sou, quanto mais de onde vim!
Estava literalmente perdida. E se eu fosse uma louca? Uma procurada perigosa? Talvez tivesse cometido crimes... mas quem saberia me responder?
Olhei para os lados, a chuva ainda não havia parado. A sorte era que a camisola não estava translucida apesar de estar colada. Não sabia nem se aquilo era uma camisola mesmo. Como eu podia me lembrar de coisas assim e me esquecer de quem eu era?
Avistei um lojinha, um homem que vinha correndo com um jornal sobre a cabeça entrou no lugar, aproveitei para segui-lo e adentrar o ambiente. Do lado de dentro, um balcão e amontoados de livros em todos os cantos. O homem passou a percorrer as estantes e verificar os livros, parecia concentrado no que fazia. Como antes, ninguém me notava. Não havia balconista. O sino da porta se moveu, nenhum som. Outra pessoa entrou. Um homem de jaqueta escura e boné. Estava molhado e água que escorria de suas roupas molhava o carpete do chão.
Olhei ao meu redor. A minha volta o carpete estava seco, o que era estranho já que eu estava tão encharcada quanto ele. Segui os rastros do chão e nenhum dos molhados indicavam as marcas dos meus pés. Assustei com um livro que caiu e virei em sua direção. Abaixei para pega-lo, mas minha mão deve ter deslizado sobre a capa. Quando fui tentar outra vez eu vi botas negras e levantei bem rápido.
“Ora, ora, parece que ainda não foi atrás de suas respostas. Vamos. Não tem o dia todo. Procure. Observe. Talvez precise de um choque de consciência.”
Estava paralisada no lugar. Como ele havia entrado ali? Ainda não havia visto o seu rosto e no momento em que avancei para puxar aquele maldito chapéu de cowboy ele se esquivou. Foi então que algo as minhas costas me fez ficar alerta. Vi os lábios do homem de boné se mexer, mas não podia ouvi-lo. Ele sacou uma arma e rendeu o homem do jornal e uma balconista que eu não sabia quando havia chegado.
Estava ali parada observando tudo. Ele não me via e eu estava tão próxima quanto os outros dois reféns. Daquela distância era impossível não ter me notado. Percebi uma reação precipitada da moça e um disparo, o homem do jornal cambaleou e o som do tiro não ecoou em meus ouvidos. De repente outro clarão. Uma dor me invadiu. Olhei para baixo e vi que estava sangrando. Será que eu havia levado aquele tiro?
Não. O homem do jornal estava caído no chão, ele havia sido acertado e não eu. Mas então por que eu estava sangrando? Toquei o ferimento e percebi que não podia senti-lo.
Olhei para frente e vi o cara de jaqueta sair correndo da loja. A mulher estava tremendo e correu para perto do homem caído. Depois de algum tempo eu notei que o rosto dele estava mudando e havia momentos em que ele parecia me ver, pois apertava bem os olhos como se pudesse me enxergar.
A moça correu e pegou o telefone. Mais uma vez eu apenas vi os lábios se moverem e nenhum som. Ela correu de novo para perto do homem. Foi então que notei um brilho. Uma luz às minhas costas. Olhei para o lado, percebi que a capa, bem como o chapéu estavam jogados. Virei rápido e notei a mesma figura de antes, mas agora podia ver seus olhos. Dois lindo olhos dourados, um homem envolto em luz e contornos que lembravam asas enegrecidas.
Senti algo estranho se mover em mim. Quis tocar o rosto dele, mas não pude. Ele apontou para o homem caído as minhas costas e fez gestos para me virar. Ainda não conseguia entender o motivo daquilo.
E sua voz soou em minha mente, mas agora era mais grave e parecia acompanhada por outras mil vozes. Ele disse:
“Veja. Agora, lembre-se!”
Como se um flash estivesse atravessado o meu cérebro eu senti o corpo pesar, senti a dor me invadir, mas pude finalmente abrir os olhos e quando o fiz, lembrei.
Aquele homem, o do jornal, estava morrendo e eu sabia porque, mas não podia acreditar. Corri até ele, tentei toca-lo.
“Ainda não pode toca-lo. Ele ainda não está morto.”
Lágrimas inundaram o meu rosto, senti uma angustia tão forte em mim, agora eu entendia o que precisava lembrar. Eu o conhecia, conhecia aquele homem e agora ele estava morrendo.
Pousei a mão a centímetros do rosto dele, mas meus dedos não chegavam em sua pele. Eu o amava, amava muito. Sabia que havíamos nos amado como pessoas e apesar de parecer tudo tão distante, o meu amor ainda era imenso. Ele estava de olhos fechados e eu chorava ajoelhada ao seu lado.
“Não pudemos evitar que isso ocorresse. Ele escolheu assim quando você deixou o seu corpo. E é por causa disso que eu não a levei embora assim que você atravessou. Ele a amou muito e foi esse amor que não a permitiu se afastar deste mundo. Mas se você estiver longe, ele poderá esquecer com o tempo.”
Minhas lágrimas caiam e meu peito doía ao lembrar da vida que havíamos tido juntos. De repente senti que o corpo dele estava se entregando. Não! Não podia! Ele tinha que viver! Não podia ser assim, então eu gritei, o som finalmente pode sair dos meus lábios e algo aconteceu.
Eu o vi abrir os olhos e foca-los diretamente em mim. Uma pequena lágrima escorreu. Ele havia me visto. Sorri de emoção. Meu amor pôde me ver. Eu te amo... reproduzi com os lábios e ele fez o mesmo. Ainda não podia tocá-lo, o que demonstrava que ele estava vivo.
Não queria que ele morresse, não podia. Eu o amava muito para vê-lo morto. Virei-me para o ser às minhas costas e o encarei. Implorei para que o deixasse viver. Ele acenou com a cabeça e pude ouvir sua voz celestial:
“Ele irá viver se assim o desejar, mas não poderá se lembrar de nada. Não temos permissão para deixá-los lembrar. Você também não poderá continuar aqui se quiser tê-lo vivo, pois assim ele poderá seguir em frente.”
Meus olhos estavam encharcados, mas meu amor era muito grande. Desejava que ele vivesse. Então escolhi.
Minutos depois, percebi os paramédicos entrarem no local e levarem o corpo dele para dentro da ambulância. Estava do lado de fora enquanto observava o carro se afastar com as luzes piscando e o barulho que as sirenes provavelmente estavam fazendo.
Viva meu amor, seja feliz.
Senti o leve toque dos dedos luminosos em meu ombro. Em meu corpo uma corrente de energia começou a atravessar e fui puxada pelo ser que me envolveu em seus braços enquanto minhas ultimas lágrimas caiam dos meus olhos.

 by Katarina

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Missão anjo da guarda : Capitulo dois: Perdida





Cai come se fosse um cometa, explodindo o chão. Uma cratera foi aberta aos meus pés. O beco em que eu cai estava aparentemente vazio, até que um mendigo se revirou em um amontoado de caixas de papelão e me encarou com um ar surpreso. Compartilhei de sua surpresa, porque humano algum era capaz de me ver, só... só se este estivesse a beira da morte.
Balancei as minhas longas asas, tirando o pó de asfalto das penas. Então eu via a cor delas, um branco sujo, amarelado. Lembrei-me de quem eu me tornara agora, não era mais um anjo da morte, não passava de uma simples guarda costas de mortais.
O mendigo caminhou de joelhos em minha direção, quase ao ponto de tocar as minhas vestes. Ele me encarou perplexo. Tive certeza de que ele era capaz de me ver. Os humanos só me viam quando estavam prestes a abraçar a morte, mas agora as coisas pareciam diferentes.
– Ah, meu senhor, obrigado. – o mendigo se aproximou mais de mim sendo capas de tocar as minhas vestes. Dei alguns passos para trás, a fim de me afastar, humano algum tocava um anjo.
Ouvi um bater de asas vindo de trás de mim, a poeira do chão levantava com o movimento das penas. Virei o meu rosto para ver quem era o outro anjo e dei de cara com o brilho da aura de Azarel.
– O que faz aqui, Izabella. – perguntou-me o anjo.
– Eu não sei, mestre. – murmurei. – Eu não sei.
– Tem uma missão e deve cumpri-la. – disse ele em um tom sério.
– Mas... – fui interrompida.
– Toda a missão é importante, Izabella, sendo elas como anjo da guarda ou como um anjo da morte. Não cabe a mim nem a você discordar dos planos do criador. – aconselhou-me. – Apenas faça o que lhe foi ordenado, siga o seu novo dever. Proteja o humano.
–Mas como vou fazer isso? Nem tenho ideia de qual humano eu devo proteger.
– Isso, minha querida, terá que descobrir sozinha. – ele respondeu caminhando em direção ao mendigo e pegando a alma dele nos braços, assim como eu tinha o costume de fazer. – Terá que reconhecer o humano quando estiver diante dele. – disse ao jogar uma bolsa ao meu lado. – Terá que viver entre os humanos agora e recolha as suas asas, os humanos agora podem vê-la.
Azarel desapareceu da mesma forma misteriosa que surgiu. Deixando-me sozinha com um corpo caído e sem vida há poucos metros. Eu não sabia para onde ir e nem a quem deveria proteger.
Recolhi as minhas asas, a minha auréola desapareceu. Ótimo!  Agora eu me assemelhava a uma humana, sem sal e sem graça. Peguei a bolsa que Azarel havia deixado e olhei dentro dela, lá havia dinheiro, alguns documentos e uma carta.
Olhei pelo corpo caído e imóvel do mendigo pela ultima vez. Humanos, criaturas decrepitas, meros mortais. Não conseguia entender como criaturas tão medíocres e inferiores mereciam algum tipo de proteção.
Caminhei em direção à saída do beco. As paredes feitas de tijolos vermelhos estavam repletas de rachaduras e pichações. Havia um cheiro horrível exalando do chão e algo me dizia que ainda não era o corpo do humano começando a feder, mas algo que já deveria estar morto há mais tempo.
A única saída do beco dava para uma rua movimentada, cheia de pessoas e carros. A vida medíocre dos humanos me dava tédio.
Enquanto eu caminhava pelo passeio uma mulher passou por mim correndo ao lado de um cachorro. O animal quando passou ao meu lado começou a latir, como se ele fosse capaz de perceber que havia algo de diferente comigo.
– Desculpe, moça. – disse a mulher.
Quando os olhos dela fitaram os meus a mulher deu um passo para trás. A presença angelical a fez tremer. Felizmente eu havia sido rebaixada, mas não deixara de ser um anjo. Ela sorriu, por um momento ela esqueceu da correria e do latido do seu animal. Isso é o que causava um anjo há aquelas pessoa que verdadeiramente podiam senti-lo, uma enorme paz interior. Infelizmente para os mortais, poucos eram aqueles que tinham o dom de sentir a presença dos anjos. Ignorei a mortal e continuei com a minha caminhada em busca de um mortal do qual nem fazia ideia.
Por onde quer que eu passasse os humanos olhavam para mim. Por mais que as minhas asas e a aureola estivessem escondidas eu ainda chamava muita atenção. A minha túnica não parecia ser uma vestimenta muito comum.
Abri novamente a bolsa e peguei a carta que estava lá dentro. Retirei-a para lê-la.

Querida, Izabella,
Como é a sua primeira missão como anjo da guarda é de praxe que se sinta despreparada. Cuidar de humanos não é uma tarefa fácil, ainda mais alguém como o seu protegido. Mas você é um anjo competente, acredito que conseguirá cumprir a sua missão sem demais dificuldades.
Contudo, existem coisas que você precisa saber para prosseguir com essa missão. Os humanos não tem certeza da existência de anjos, pelo menos não a maioria deles e o criador prefere que as coisas continuem assim. Portanto, terá que se misturar aos mortais, agir como se fosse um deles sem deixar que descubram quem você verdadeiramente é.
Você está no bairro onde mora o seu protegido, procure o edifício Clara Stela e se hospede lá. Haja como se fosse um deles e fique sempre próxima ao garoto.
Só voltarei a entrar em contado se algo der errado ou se você concluir a missão. Portanto, boa sorte.
Atenciosamente;
Lucas
Anjo da casta de tronos;
Patrono dos anjos da guarda.

Que maravilha! Misturar-me aos humanos, só poderiam estar brincando comigo. No fundo toda aquela palhaçada deveria ser uma grande brincadeira, que por sinal era de muito mau gosto. Esperava sinceramente que todo aquele teatro acabasse o mais cedo possível.
– Oi, gata! – resmungou um mortal ao passar por mim. – Roupas maneiras, de qual festa de Halloween você fugiu?
– Cala a boca, imbecil! – rosnei.
– Olha só, a gata é arisca! – ele murmurou ao descer da moto. – Por acaso está perdida? – perguntou em meio a um sorriso ao se aproximar ainda mais de mim. Humano repulsivo!
– Não, não estou. – respondi de maneira grosseira.
Ele riu.
– Não é o que parece.
– O que parece ou não, não é da sua conta. – resmunguei entre dentes.
– Oh, TPM!
– Por acaso você sabe onde fica o edifício Claro Stela? – fui tentada a perguntar. No fundo eu realmente estava um pouco perdida.
O homem riu alto, seus olhos castanhos brilharam. Ele estava brincando comigo, eu tinha certeza disso. Seu olhar malicioso e a sua aura tremulando em vermelho me disseram isso.
– O que uma princesa como você quer naquele brejo. Aquele não é lugar para você não, boneca. – disse o homem ainda em meio a gargalhadas.
– Não é você quem decide qual é o melhor lugar para mim. – rosnei.
– Ah, com certeza não sou eu. Porque do meu ponto de vista o melhor local para você seria a minha cama. – sua aura tremulou ainda mais maliciosa assim que os seus olhos percorreram o meu corpo.
– Como ousa ofender um anjo dessa forma?! – rosnei
– Oh, com certeza você é um anjo. – ele riu, tirando sarro da minha cara como se o que eu acabei de dizer não passasse de um simples comentário de alguém que possui o ego muito elevado.
– Eu realmente sou um anjo, seu idiota! – esbravejei.
Ele riu.
– Acho que você realmente fugiu do hospício, delicia. – disse em meio a uma gargalhada irritante. – Mas se você quiser ir passar a noite na minha casa eu não vou reclamar nem um pouco. – ele piscou para mim.
– Me diz logo onde fica o edifício! – eu já estava ficando nervosa. Humano insolente!
– Calma, doçura. O prédio fica a três ruas daqui em um beco escuro e sem saída. Mas estou falando sério se eu fosse você não iria lá não. Aquele não é lugar para uma mulher tão linda quanto você.
– Eu só te perguntei onde é o local e não a sua opinião a respeito.
– Oh! – ele resmungou cambaleando para trás como se tivesse levado um golpe. –  Vai lá então, gostosa. Só não diga depois que ninguém a avisou. E se aceitar pelo menos um conselho, arrume roupas decentes para você. – ele apontou para a minha túnica que já estava com a barra suja e para os meus pés descalços.  – Ninguém anda enrolado em um lençol por ai.
Comecei a andar em direção ao local indicado, mas o humano me impediu segurando-me pelo pulso. Livrei-me de suas mãos imundas em um rápido movimento.
– Como ousa tocar em mim. – rosnei.
O homem encarou-me perplexo, seus olhos mergulhados em uma profunda surpresa. Ninguém tocava em um anjo sem sentir o poder que emanava dele.
O homem afastou-se com passos cambaleantes.
– Quem é você?
– Não deveria ter me tocado – eu o adverti.
– Quem é você? – ele repetiu.
– Não é da sua conta. – murmurei ao encará-lo. – Vai esquecer aquilo que sentiu. Eu não passo de uma garota normal que você viu na rua.
– Você é apenas uma garota normal. – sussurrou ele como se fosse um zumbi.
Virei às costas e continuei caminhando. Porem, desta vez eu não fui interrompida, nem seria após ter hipnotizado o humano. Poucas eram as vezes que tínhamos permissão para fazer isso e uma delas era quando um humano estava perto demais de sentir o verdadeiro poder de um anjo.
Encarei a minha túnica que àquela altura já estava mais do que imunda por causa da sujeira daquele lugar. Mesmo que as minhas asas estivessem enterradas na carne e a minha auréola apagada os humanos a minha volta ainda me encaravam com olhares curiosos. O mortal estava certo, eu realmente precisava trocar de roupa.
Encontrei uma loja simples quando virei à esquina. Lá havia um único e simples trocador e as roupas estavam jogadas aos montes. A mulher que cochilava atrás do balcão provavelmente não se dava ao trabalho de organizá-las em araras.
Caminhei pela loja em busca de algo decente para vestir. No fundo nada parecia ser bom o suficiente para substituir a minha túnica, mas eu precisava vestir algo para me misturar aos mortais. Ainda mal acreditava naquela palhaçada toda. Ser punida, rebaixada a anjo da guarda, por que uma coisa horrível dessa iria acontecer logo comigo?
– O que quer garota? – perguntou a mulher ao despertar com os meus passos dentro da loja.
– Só estou procurando algumas roupas para mim.
– As pessoas dificilmente entram aqui. – murmurou a mulher ao passar as mãos pelo cabelo grisalho e espigado.
– Não é difícil perceber o porquê. – murmurei baixinho ao observar o local a minha volta.
Peguei as melhores camisetas que encontrei, mesmo que essas ainda se parecessem com trapos, algumas calças jeans surradas. Não conseguia entender como os mortais preferiam aquilo as majestosas túnicas usadas pelos anjos.
Usei o provador para trocar de roupa, guardei a mina túnica dentro da bolsa que me foi dada por Lucas. Peguei duas blusas de frio sobre uma montanha de roupas e caminhei na direção do balcão.
– Aqui o seu dinheiro. – disse ao pegar alguns trocados e jogar sobre o balcão. – Pode ficar com o
troco.
– Ah, obrigada. – disse a mulher ao recolher o dinheiro como se fosse a sua ultima esperança de vida.
Joguei os trapos em uma sacola e calcei os tênis que havia encontrado em uma prateleira tão desorganizada quanto o restante da loja. Sai caminhando da loja, agora vestindo os mesmos molambos usados pelos mortais.


continua...

By Ashe