sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Jenny Jenny
O nome
dela é Jenny Taylor, e o que eu vou contar é verdade. Jenny sempre
teve uma vida muito boa, seu pai, político de sua cidade, tinha
muito amigos influentes, logo, era um homem que ganhava muito
dinheiro. Ela sempre foi uma bonequinha, cabelos castanhos e
ondulados, pele clara e olhos azuis, o orgulho da mamãe, a
princesinha do papai.
Aquele ano tinha tudo para ser o
melhor, o pai da garota estava concorrendo à prefeito da cidade e ao
que indicavam as pesquisas que as chances dele ganhar eram muito
grandes. As pesquisas não se enganaram e logo, Jenny e sua família
subiram no patamar de poder mais alto da cidade, eram agora ricos e
importantes.
Dois meses mais tarde, Jenny
completaria 12 anos, sendo agora uma “mocinha” como diz a mamãe,
e para comemorar, seu pai decidiu leva-la para passar um feriado na
fazendo da família, para ensina-la a caçar. Os Taylor tinha
tradição na caçada, todos seus membros são acostumados à armas,
munições e troféus de caça, e a pequena Jenny, não seria
diferente. Na sexta feira, depois da escola, pai e filha estavam a
caminho da fazenda, para darem início as aulas de caça da nova
caçadora.
Assim que chegaram, a menina foi
correndo desfazer suas malas, pois tinha comprado muitas roupas de
caça, e queria poder ter tempo para escolher a melhor roupa para sua
primeira caçada. Enquanto arrumava suas coisas em seu quarto, o
senhor Taylor fazia umas ligações de celular.
- Papai,
essa roupa ficou boa em mim? - pergunta ela dando uma votlinha.
- Sim
querida, ficou muito linda em você. -respondeu, sem dar muita atenção.
Algumas horas mais tarde, Jenny ouviu
barulho de carros do lado de fora e correu para a janela, ver quem
era; não esperava que receberiam visitas. Desceu as escadas,
querendo saber quem eram as pessoas que chegavam.
- Quem
chegou?
- Só
uns amigos meus bem, eles querem caçar também.
Um homem alto de bigode entrou na casa
e fui cumprimentar o senhor Taylor. Jenny o olhou bem, tinha a
impressão de conhece-lo. Sim, conhecia, era o delegado da sua
cidade, não é a toa que era amigo do seu pai, o prefeito e o
delegado andam sempre juntos. Ela ignorou a presença do delegado ali, até que mais carros chegaram...logo ela estava sozinha com
cinco homens, sendo eles, seu pai, o delegado e mais três que ela
não conhecia...A pequena Jenny começou a sentir-se desconfortável
naquela casa.
Os
homens mais poderosos da cidade estavam ali na fazenda, e no meio
deles uma única garota sozinha...caçar? Que nada...os planos
daquele pai diabólico para seu filha não tinham nada a ver com
caçada, pelo menos, não para ela. Um a um, eles abusaram do corpo
da garota em seu quarto, enquanto seu pai filmava tudo...Ela chorou e
implorou para que parassem, mas não deu certo, seus gritos e suas
súplicas causam apenas risos dos homens. Seus olhinhos olhavam para
o pai, implorando por ajuda...mas ele apenas dizia “você está
ótima querida”. Após horas, a largaram caída no sofá, com sangue escorrendo entre as pernas e marcas de mordida por toda parte.
Primeiro ela pensou em pedir
ajuda...mas para quem? Para a polícia? Toda a lei e ordem da sua
cidade estava ali, abusando do seu corpo...tentou falar com a mãe,
mas esta sempre fingia que não ouvia ou que não entendia...ela não
tinha a quem recorrer...
Todo feriado lá se iam eles “caçar”,
sempre os mesmos amigos, sempre a mesma desculpa e sempre a mesma
frase “você está ótima querida”. A garota aguentou o quanto
podia, rezava todas as noites para isso parar...Três anos se
passaram nessa situação, Jenny agora tinha 15 anos. Morria de
tristeza e vergonha a cada aniversário...queria tanto ser uma garota
normal e não ter que passar por esse tipo de coisa...mas vai saber
quantas de suas amigas também se encontram numa situação assim?
Eu
estava sempre por perto...pressentia que algo iria acontecer. Certa
vez, eu me aproximei dela, enquanto ela olhava-se no espelho. Seu
rostinho triste e pensativo procurava desesperadamente por uma
solução para seu problema infernal. De vez em quando, enquanto eu a
observava, ela virava para trás, como quem procura por alguém, ou
algo...Será que ela esta sentindo minha presença? Se sim...isso não é bom, não
mesmo.
Na
noite que fez quinze anos, Jenny decidiu acabar com isso de uma vez
por todas. Todas as suas amigas falavam sobre beijar meninos e ela só conseguia pensar em como não ser abusada a cada feriado. Já chega, pensou.Trancou-se no banheiro e com uma lâmina de barbear
começou a se cortar nas veias dos pulsos. Viu seu sangue espirrar e
por um momento sentiu medo. Sua vida escapava de suas veias
lentamente...sentiu frio, sentiu fraqueza...tudo ficou escuro.
Eu
deveria estar do lado dela nessa hora, com minha mão em seu ombro, mas eu não estava, eu não
precisei.
Horas
mais tarde, Jenny acordou no hospital com os braços enfaixados,
tivera sido salva a tempo pela empregada da casa.
Eu a olhei bem nos olhos quando ela
acordou e notei que parecia feliz...feliz por estar viva, por algum
motivo, estava feliz por não ter morrido.
O ser humano foi feito
para viver, e não morrer. A morte é uma consequência, algo
natural, mas não um objetivo. Não importa o quanto se deseje a
morte, o corpo nunca quer morrer, ele não foi feito para isso...E
quando finalmente se alcança a morte, as pessoas percebem o quanto a
temem. Todos temem à morte, mas alguns mentem para si mesmos e para os outros.
Depois disso ela se recuperou e fugiu
de cidade. Cortou e pintou o cabelo, mudou de nome, arrumou um emprego numa casa
noturna e foi morar com um namorado. Nunca mais tentou se matar. Não
tente apressar as coisas Jenny, nós vamos nos ver um dia, no curso
natural das coisas. Como devem ser sempre.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Nolan
Era a
segunda vez que os pesadelos não o deixavam dormir. Primeiro, via-se
correndo em um lugar escuro, frio e úmido. Depois, sentia que mãos
o alcançavam e marcavam todo o seu corpo com unhas enormes que lhe
rasgavam a pele. Podia sentir que algo o estava estraçalhando tanto
por fora como por dentro.
Sua pele queimava e não havia como pedir ajuda, aliás, não havia
mais ninguém no sonho, a não ser ele e a criatura.
Pingando
suor, retirou sua camisa, engoliu três comprimidos e secou até a
última gota de um copo com água. Suas mãos ainda tremiam e a
respiração estava ofegante.
Já mais
calmo resolveu fazer algo que o mantivesse acordado pelas duas horas
que lhe faltavam para ir trabalhar. Ligou a televisão e se deparou
com um filme que o prenderia até que anoitecesse.
As oito
da noite Nolan está preparando mais uma dose do tranquilizante. Em
sua bandeja há duas seringas prontas para uso, alguns comprimidos e
copos com água. As paredes brancas da sala são substituídas por um
longo corredor amarelado no qual uma fileira de portas enumeradas se
estende. O lugar cheira a remédios e desinfetante. Ele está ali a
apenas dois meses e era responsável pelos pacientes do décimo
segundo andar. Antes de prosseguir pelo corredor ele apaga o cigarro
e coloca a caixa de fósforos no bolso da calça.
Sons de
grunhidos são emitidos por de trás de cada uma das portas.
O número
um, pintado com uma tinta escura, aparece sob a visão de Nolan. Ele
entra. Sua primeira paciente do dia, uma senhora, código 19B. Está
aqui a mais de sete anos, foi usada muitas vezes como critério
padrão de avaliação, pois pelo que ele sabia, ela foi uma das
primeiras em quem o tal tratamento surtiu algum efeito.
Nolan
encontra a senhora dormindo em sua maca, mas era hora dos
medicamentos, ela precisaria acordar. Chamou um pouco baixo, mas
vendo de que nada adiantava ele a tocou na pele amarelada do seu
braço. Ela grunhiu e se mexeu alguns centímetros em sua maca, não
muito, pois faixas estava atadas em seus braços. Já com os
comprimidos preparados, ele os coloca na boca da mulher e ergue o
copo com água até os seus lábios.
E por
todas as portas Nolan entrou e saiu esvaziando sua bandeja. Restava
apenas um quarto, o 27. Existiam mais três quartos após o vinte e
sete, mas estavam vazios. Não se sabia exatamente o que havia
acontecido com os ocupantes dos quartos e comentários não eram
autorizados.
Ao passar
o cartão magnético a porta do quarto 27 não se abriu. Alguma coisa
barrava o deslocamento. Nolan tentou empurrar, mas o metal não se
moveu. Chamou outro enfermeiro. Os dois juntos arredaram a porta e ao
entrar perceberam que todas as coisas que havia no quarto estavam
formando uma espécie de barreira contra a porta metálica.
Ao
contrário dos outros quartos, este estava escuro, as lâmpadas
provavelmente estavam queimadas, pensou Nolan. Assim que seus olhos
se habituaram a penumbra, notou um homem encolhido no canto. Suas
roupas estavam rasgadas e a respiração entrecortada.
O outro
enfermeiro que acompanhava a cena se aproximou e chamou o senhor por
seu código. Nenhuma resposta. Resolve então se aproximar mais um
pouco e quando o faz, os dois ouvem uma espécie de grunhido agudo e
num instante seguinte um barulho ensurdecedor toma conta do lugar.
Nolam corre para buscar outros enfermeiros, mas assim que se move ele
vê um par de olhos amarelos brilhantes que o observa na escuridão.
Ele
começa a andar para trás, mas no momento seguinte a porta se fecha,
trancando-os dentro do quarto. Escuta um grito e som de ossos sendo
quebrados. Sente que algo quente espirrou em seu rosto. E depois de
algum tempo não escuta barulho algum. A porta então é destravada e
Nolan sai do quarto, ele corre e pensa em pedir ajuda.
Pelo
caminho ele percebe que outras portas estão entreabertas. Em algumas
delas, filetes de sangue escorrem e formam poças pelo corredor.
Assim que alcança a saída para a sala dos funcionários percebe que
já não havia mais ninguém ali, a não ser ele e aquilo que agora
estava solto pelo prédio de quatorze andares.
Os
elevadores não funcionavam. Faltava energia no prédio inteiro.
Nolan descia as escadas o mais depressa que conseguia enquanto ouvia
o barulho do impacto de diversos objetos nas paredes dos andares que
continham pacientes.
Não
havia percebido que estava segurando a seringa de tranquilizante e
assim que desceu outro degrau, suas pernas cambalearam fazendo-o
rolar por um pequeno lance de escadas até que suas costas bateram na
porta de saída para o andar. Sentiu uma fincada na perna, um líquido
viscoso escorreu em gotas por sua calça. A agulha havia entrado e
comprimido o êmbolo.
Não
notou diferença alguma durante certo tempo, mas com receio de que
não conseguisse sair do prédio antes que o efeito passasse, ele
decide continuar a descer as escadas. Após alguns degraus, Nolan
sente uma náusea muito forte, fosse o que fosse, o conteúdo daquela
seringa não era nenhum tranquilizante. Ele cai e escorrega batendo a
cabeça. Seu corpo empurra uma porta e agora ele está estendido no
que provavelmente era a entrada para um dos andares.
Ele não
consegue se erguer, pois algo está dentro de seu corpo e o faz ficar
imóvel por alguns minutos. Logo depois, uma dor aguda lhe corta o
peito e se espalha pelo resto do corpo. Assim que conseguiu se mexer,
Nolan se encolhe no chão frio e pegajoso, parecia haver algum tipo
de gosma espalhado pelo piso.
Arrastando-se
ele encontra um local para se apoiar. Percebe que se trata de uma
bancada, provavelmente a do laboratório do sétimo andar. Toca em
alguns frasco e isso faz com que vidros se espatifem no chão. Poucos
segundo se passaram até notar que a criatura havia escutado o
barulho, pois assim que conseguiu se concentrar, ele percebe algo se
movendo pela tubulação de ar.
A
criatura vinha rápido demais, pois o som estava ficando próximo.
Ele precisava continuar a descer ou acabaria morto como os outros.
Tateando pelas paredes e bancadas, Nolan encontra uma espécie de
portinha. Empurra e nota alguns furos que permitem a passagem de
feixes de luz.
Tenta
colocar sua cabeça e depois os ombros. Por ali seria possível
passar e provavelmente ir para fora do prédio.
Um ruído
chega ao teto do laboratório e Nolan sente que a tubulação está
tremendo. De repente ouve um estalido metálico e algo cede do teto
do lugar. Provavelmente a criatura já estava se preparando para
pular e ataca-lo.
Precisa
sair dali o mais depressa possível, mas poderia ser agarrado
enquanto tentasse se enfiar na passagem. Algo cai do teto e ele
escuta uma espécie de respiração seguida pelo cheiro da criatura.
Ela devia estar a uns três metros dele, mas mesmo assim dava para
ouvir seus grunhidos roucos e baixos.
Se
tentasse sair agora, a criatura o pegaria, mas não podia ficar
imóvel para sempre sem fazer ruídos. Sua chance dependia de parar
aquele monstro de vez.
Seu corpo
ainda queimava por dentro e cada vez mais era possível sentir o
efeito daquela substância. Não conseguia pensar direito, mas a
única ideia que teve tinha que dar certo. Sem fazer nenhum barulho,
ele arrasta a mão pela parede e logo encontra o que precisava.
Agindo
rápido ele pega uma caixinha no bolso da calça e quebra a mangueira
do gás. A criatura começa a se mover em sua direção. Nolan abre a
válvula e se ajoelha, enfia suas pernas na passagem. A criatura
corre na direção dele e pula. Nolan senti a respiração próxima
ao seu rosto e se encaixa dentro da passagem.
A garra
da criatura alcança parte do seu rosto e rasga sua pele. Mais do que
depressa, Nolan acende o fósforo e a última visão que tem é a de
uma mão enorme com garras afiadas. Se empurra mais para trás e joga
o palito. A criatura ainda tenta abrir o metal da passagem com as
garras, mas já era tarde. Nolan empurra seu corpo mais para dentro e
começa a cair pelo tubo.
Enquanto
cai, ele escuta o som de urros e explosões acima dele. Algumas
paredes se quebram com a explosão, isso faz o prédio começar a
desmoronar. Muito pó entra pelas narinas de Nolan ao sofrer um baque
contra o chão, fazendo-o perceber que está no incinerador no porão
do prédio, pois o cheiro de cinzas e plástico queimado é
inconfundível.
No meio
das cinzas ele se arrasta, mas antes que tente escapar, o prédio
rui. Ele não sabe quanto tempo passou até que finalmente conseguiu
sair do meio de alguns blocos. Por sorte o incinerador havia
suportado todo o peso das vigas metálicas. Se esquivou de alguns
escombros e conseguiu sair. Ao colocar a cabeça para fora ele viu
algumas viaturas pela rua. Um policial que o viu ajudou-o a sair.
Enquanto
estava deitado dentro de uma das viaturas, Nolan retira a agulha da
seringa quebrada em sua perna. Ao erguer a cabeça, vê um dos
polícias que havia lhe feito algumas perguntas conversando com
alguém dentro de um carro preto com vidros escuros. Lodo depois, o
policial o ajuda a sair da viatura e a porta do carro é aberta.
---
Luzes
fortes estão sobre seus olhos. As paredes brancas espalham a
claridade ainda mais. Seus olhos doem. Escuta a voz de alguém, uma
mulher. As luzes são apagadas e ele consegue abrir os olhos. Não se
lembra de como veio parar ali e nem o que aconteceu. Lembra-se do seu
nome, mas não sabe quem é.
Um objeto
plano e liso é posto na sua frente. Nele há a imagem de alguém ou
alguma coisa. Um ser que se parece com um homem, mas com a pele
amarelada e pálida, longas cinco marcas de cicatriz estendem-se por
seu rosto, a boca está torcida e rasgada e os olhos estão dourados.
Em seu corpo há várias marcas arroxeadas e os braços são cobertos
por ataduras que cobrem uma pele grossa. As mãos possuem garras e
são contorcidas. Antes de concluir a ideia de que era ele refletido
naquela imagem algo o acerta e seus olhos se fecham novamente.
A visão
do espaço onde a nova criatura agora se formava era assustadora. Em
seu leito ela está tranquilizada até que os homens continuem a
prepará-la. Na grade a frente da cama surge uma placa metálica e um
número. 06F, unidade de destruição.
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Serviço Público
- Eu posso, se eu quiser. – falou ele.
- Você sabe que não pode. – respondeu ela.
- Eu posso muito mais do que você pensa. Quer apostar?
- Seria interessante, mas eu não to a fim de levar bronca por
sua causa.
- Por isso você ainda faz o que faz e nunca sobe de posto.
Quanto tempo você trabalha pra ele?
- Uma eternidade! – responde ela, rindo.
Ela estava sentada em uma mureta, balançando os pés e ele estava
ao seu lado, apoiado na mureta com os cotovelos. Ambos estavam em
horário de descanso. Gostavam de alfinetar um ao outro, era seu
passatempo favorito, mesmo que às vezes, ele perdesse a paciência e
a ofendesse de verdade. Ele era alto, loiro e bonito, ela era baixa e
de cabelos pretos. Estavam descansando, olhando o movimento na rua.
- Você gosta mesmo desse trampo de bosta?
- Claro que sim. Paga bem e o horário de descanso é o bastante.
Ele solta um grunhido que mal chegou a se tornar uma palavra. Acende
um cigarro e dá uma tragada.
- Você se contenta muito facilmente, não tem ambição e sempre
abana o rabinho pro chefe, como um cachorrinho.
- E você sempre quer fazer tudo do seu jeito, se estrepa, fica de
mau humor... E depois eu tenho que agüentar o chefe brigando e o sua
cara de azedo.
- Eu sei das coisas, ok? – ele levanta a voz, demonstrando
irritação. – Pelo menos não sou uma baixinha submissa. Eu quero
subir! Fazer mais do que isso, porque sei que mereço.
- Você esquece que ele é quem manda e é ele quem decide quem sobe
e quem desce. O chefão dá as ordens e nós, os funcionários de
serviço público, obedecemos. A gente podia estar fazendo coisa
diferente, se você parasse com suas idéias malucas.
- A culpa não é minha se você é uma acomodada.
- Ah, e tenho culpa eu? Eu tenho culpa que você é um
desorganizado? O Gabriel falou que a sua papelada ta uma bagunça, e
que eu vou ter que arrumar tá?
- Detesto esse Gabriel... – uma longa baforada de cigarro – é
outro capacho do chefe, sempre babando o ovo.
- Ele conquistou a posição dele, e merece estar lá, não é como
você que só reclama.
- Mas é que esse serviço enche o saco! Lavar a roupa suja pra
depois mandar pra cima, limpinha... Fala ai, que merda de trabalho
hein?
- O meu é pior que o seu, não reclama. Sou eu que vou buscar a
roupa pra você lavar. Às vezes é tranqüilo, mas às vezes ta um
nojo! Não sei como esse povo consegue se tão imundo!
Ela estica os braços para o alto, toma ar e volta a falar:
- Por isso você tem que ficar na sua, estamos juntos nessa, subimos
ou descemos juntos, entendeu?
Ele ri com a mão na boca.
- Eu e você... Limpamos sujeira, mas ninguém gosta da gente, por
isso ficamos sempre por baixo. Sem falar que o povo adora falar mal
da gente. Toda vez que acontece uma merda lá em cima, adivinha em
quem eles põem a culpa?
- E eu? Quando eu chego, todo mundo faz silêncio e quando eu viro a
costas, eles cochicham coisas uns pros outros...
Ele olha para o relógio e faz cara feia. Apaga o cigarro na mureta
e olha para sua companheira.
- Cabo o descanso, hora de voltar pro trabalho.
Ela se levanta e apanha sua foice que estava apoiada na mureta.
- Nos vemos mais tarde... Bom serviço, Lú.
- Eu odeio quando você me chama assim!
E lá vão eles, para mais uma eternidade de trabalho.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Missão anjo da guarda: capitulo 6: Limpando a sujeira
Estávamos sentados
no parapeito da varanda mal cuidada do quarto dele, não dizíamos uma só palavra
pelo menos há uma hora. Às vezes trocávamos alguns olhares mão mantemos o
silencio. Não sei se ele sabia que havia
um demônio dentro dele, mão certamente não era o mais prudente a ser dito. “ Ei, garoto! Sabia que você só está vivo
porque um demônio prende sua alma” Não! Com certeza não era uma boa ideia.
Minha barriga
roncou.
Ele riu
–Acho que alguém
está com fome.
– Talvez. –
fiquei envergonhada.
– Eu conheço
uma lanchonete onde costumo comer. Bem , podemos ir lá, mas só se você pagar.
Eu ri.
– Bem,
espera um pouco aqui então. – me levantei e fui até meu quarto. Contei as notas
e vi que não teria dinheiro por mais muito tempo.
– Lucas! –
gritei o supremo dos anjos da guarda.
Um raio de
luz entrou pela janela e eu senti a sua presença.
– O que foi Isabela?
– ele disse nada animado. – Admito que achei que pediria por socorro em menos
tempo.
– Não estou
pedindo socorro, apesar de não terem me dito que havia um demônio na história. –
resmunguei furiosa.
– Ah, não julguei
essa parte importante. Apenas achei que merecesse uma missão a altura. – ele foi
sarcástico.
– Que seja! Estou
precisando de mais dinheiro. – fui direto ao assunto. – Logo a quantia que me
deixou vai acabar.
– Arrume um
emprego, como qualquer humano faz quando precisa de dinheiro.
– Você está
brincando comigo? – só poderia ser. Caramba, eu sou um anjo!
– Não. – ele manteve o tom sádico. – Se precisa de
dinheiro arrume um emprego. Você precisa se misturar aos humanos e não há forma
melhor.
Peguei a
minha bolsa e sai do quarto em fúria. Como ele poderia fazer aquilo comigo? Eu não
sou a droga de um humano! Sou um anjo. Um anjo!
– O que te
deixou tão furiosa? – perguntou Pedro segurando o riso.
– Nada,
vamos?
– Tá, vamos.
Ele saiu
andando e eu o segui. Caminhamos por uns cinco minutos até chegarmos a uma
lanchonete. Imagine um lugar esquisito com o letreiro caído e com poucos
clientes num lugar mal freqüentado, aquilo era ainda pior.
Quando entramos
os poucos fregueses que estavam lá me olharam da cabeça aos pés. Pedro se
sentou próximo ao balcão e eu me sentei ao seu lado.
– Quero um x
burger, com batatas e um copo de coca. E pode trazer o mesmo para gata. – ele pediu
para um cara barbudo, com a cara fechada e que perecia ser a única pessoa que
trabalhava no estabelecimento. Ele vestia um uniforme listrado coberto por uma
camada de gordura.
Dez minutos
depois ele voltou com o pedido. Pedro não fez cerimônia e deu logo uma bela
mordida no sanduíche. Peguei o meu e fiquei encarando por alguns segundos,
pingava uma gordura que provavelmente deveria ter sido usada e reutilizada uma
centena de vezes.
– Não me surpreenderia
se você morresse de AVC aos 30 anos. – disse baixinho.
– Para de
reclamar e come. – ele disse.
Dei uma
mordida naquilo e meu estomago revirou. De repente eu não sentia mais fome
alguma.
Olhei uma
placa atrás do cara onde estava escrito em uma caligrafia feia: Precisa-se de funcionários.
– Estão
precisando de alguém para trabalhar aqui? – perguntei ao apontar para placa.
– Sim, por
que, está interessada? – perguntou o homem ao me encarar.
– Bem... –
comecei a gaguejar.
– Está
contratada. – ele disse me jogando um avental engordurado.
Pedro riu.
– Acho que
não é apenas eu quem precisa de um emprego. – apontei para o Pedro.
– Não, pêra ai...
– ele levantou as mãos e tentou se esquivar.
– Não se esqueça
de que me deve 300 reais. – lembrei a ele.
– Droga! Preferia
continuar devendo ao agiota. – ele lamentou pegando um avental. – Me lembre de
ficar longe de você da ultima vez, só sabe me meter em encrencas. – resmungou.
– Podem
começar agora. – ele apontou para um cliente com a mão levantada.
– Deixa que
eu vou. – Pedro disse se levantando e colocando o avental.
– Para você,
garota, tem uma pilha de vasilhas esperando lá dentro.
Uma pilha de
vasilhas? Ele quis dizer uma cozinha inteira! Tive que segurar o vômito quando
vi a situação daquela cozinha. Não sabia se o pior foi o rato que correu para
debaixo do fogão ou as moscas que voavam sobre a pilha com vasilhas ate no
teto. Lucas, eu odeio você! Quis gritar.
Comecei a
lavar as vasilhas. Senti algo passando no meu pé, não quis olhar para baixo com
medo de ver o que era e querer sair correndo dali. O dono da lanchonete jogou
perto de mim um esfregão e uma balde. Era muita humilhação para um dia só!!! Um
anjo jogado em meio às imundices humanas, isso deveria ser proibido.
Horas depois
eu me escorei no chão cansada e coberta de gordura. Olhei para a cozinha finalmente
limpa.
– Ainda está
viva? – perguntou Pedro ao aparecer na porta.
– Isso é um
mistério. – respondi ainda cansada.
Ele riu.
– Acho que
já podemos dar o fora daqui. Ele já esta fechando a lanchonete.
– Quanto
tempo passei limpando aquilo? –perguntei enquanto caminhávamos lado a lado até
a saída.
– Umas seis
horas.
– Nossa! –
eclamei.
– Vejo vocês
amanha! – gritou o dono.
Fomos caminhando
até o prédio. Pedro não conseguia conter o riso ao olhar para mim, descabelada
e suja. Aquilo definitivamente era demais para mim.
– Amanhã eu
sirvo as mesas e você limpa a cozinha. – disse jogando o avental em cima dele.
Continua...
By Ashe
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Unknown
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Seja bom Jonny
Não
importa em que época do tempo você se encontre, sempre haverá
problemas humanos, sejam causados por eles ou não. Assassinatos,
suicídios, brigas, guerras, doenças... No ano de 2020 não é
diferente, quer dizer, não tanto. A tecnologia ajudou as pessoas a
melhorarem um pouco mais suas vidas, enquanto os líderes mundias
vestem uma máscara de paz, esperando pelo momento certo para atacar.
Não é culpa deles, não mesmo, afinal, que culpa tem o presidente
dos Estados Unidos se outros países menores se recusam a seguir suas
ordens? Nenhuma, absolutamente nenhuma.
Os problemas ainda afetam as pessoas de todas as maneiras de antes. Veja eu por exemplo; meus pais estão se prestes a se divorciar. Sei que isso pode te parecer bobo e infantil, mas me afeta de um modo terrível. De uns dias para cá fiquei ruim, adoeci. O médico disse que não encontrava nada de errado, no entanto eu me sinto cada vez mais fraco e desanimado. Não saí mais de casa e acabei perdendo o contato com meus amigos.
Os problemas ainda afetam as pessoas de todas as maneiras de antes. Veja eu por exemplo; meus pais estão se prestes a se divorciar. Sei que isso pode te parecer bobo e infantil, mas me afeta de um modo terrível. De uns dias para cá fiquei ruim, adoeci. O médico disse que não encontrava nada de errado, no entanto eu me sinto cada vez mais fraco e desanimado. Não saí mais de casa e acabei perdendo o contato com meus amigos.
Eles me ligavam às vezes, mas aos poucos foram parando
de ligar. Não, eles não desistiram de mim, eu quem desistiu deles
primeiro.
Quando tenho ânimo para alguma coisa,
gosto de ler. Peguei raiva da televisão e do vídeo game; seu
conteúdo apenas mostra uma realidade que eu sei que não existe,
possibilidades que não estão ao meu alcance.
Eu
tinha uma namorada também, Pâmela. Ela era linda e muito gentil.
Terminamos. Na verdade eu não sei quem terminou com quem, mas não
estamos mais juntos. Quando minha depressão começou a me derrubar
ela sempre estava aqui comigo, tentando me animar. Eu a via tentar de
tudo e quase se desesperar perante minha situação. Ela sentia-se
muito triste por não conseguir me ajudar em nada. Um dia me ligou,
dizendo que era uma inútil, que não podia fazer nada por mim.
Discutimos um pouco e desligamos... Ela não me ligou mais e pelo que
conheço dela, deve ter esperado eu ligar, mas não liguei. Ela
merece mais do que um deprimido que não reconhece o esforço dela.
Numa noite como muitas outras, meus
pais começaram a brigar feio. Eu não posso exigir que eles se deem
bem, mas também não sou obrigado e ficar aqui ouvindo isso. Fugi.
Abri a janela do meu quarto e pulei para fora, correndo para a rua.
Eu não sabia pra onde eu iria, nem o que faria, só quis correr pra
longe sem me importar com quando voltar.
Quando dei por mim, estava perto do porto da cidade. Sorri olhando os navios parados, queria vê-los mais de perto. Adentrei com cuidado, teria problemas se fosse pego ali a esta hora... Mas por que a preocupação? Não tem nada pra mim em casa.
Andei pelo lugar, olhando o navio enorme que estava na minha frente. Tinha muita vontade de entrar nele para que me levasse embora daqui. Foi quando eu ouvi um barulho; virei-me assustado, para ver de onde vinha.
Quando dei por mim, estava perto do porto da cidade. Sorri olhando os navios parados, queria vê-los mais de perto. Adentrei com cuidado, teria problemas se fosse pego ali a esta hora... Mas por que a preocupação? Não tem nada pra mim em casa.
Andei pelo lugar, olhando o navio enorme que estava na minha frente. Tinha muita vontade de entrar nele para que me levasse embora daqui. Foi quando eu ouvi um barulho; virei-me assustado, para ver de onde vinha.
Num canto escuro, vi o que parecia ser
uma pessoa, sentada no chão e encolhida. Tentei falar com ele, mas
não respondeu, então me aproximei. Quando estava perto, vi que ele
se levantou, me olhando assustado. Era um garoto, acho que da minha
idade e um pouco mais baixo que eu. “O que faz aqui”, perguntei a
ele.
- Você veio para me levar de volta? - ele perguntou, ignorando a minha pergunta.
Levar pra onde? Pensei. Ele tava
fugindo de alguém?
- Não
eu não vou te levar pra lugar nenhum, só vim ver os navios.
Ele
pareceu um tanto aliviado. Aproximei-me mais.
- Você
vive nessa cidade? - ele tornou a falar, recuando um passo.
- Sim.
Isso é um saco, detesto isso aqui, tenho vontade de pegar um navio
e sumir, ou quem sabe afundar no mar.
- Não
diga isso! Você tem uma vida, não pode largar tudo assim.
- Muito
engraçado ouvir isso de um garoto que está escondido, fugindo de
alguém.
Foi
assim que eu o conheci. Seu nome era E522 ,era um protótipo de androide de guerra
feito pelo governo, pelo menos foi o que ele disse. Fora construído
por uma empresa de armas para ser vendido para o exercito. A
aparência de criança era para facilitar infiltrações e não
levantar suspeitas, mas ele não queria ser uma arma, por isso fugiu.
Fiquei de boca aberta ouvindo sua história. Era fantástico demais
para eu acreditar; eu o olhava e não parecia ser um androide. Tinha
cabelo, pele e olhos iguais ao de gente. No ano 2020 possuímos
alguns androides empregados, mas todos eles possuem aparência óbvia
de máquina. Claro que eu pedi para ele me provar, e ele fez.
Levantou os cabelos e me mostrou uns buracos como de tomadas que
existem na sua nuca. Disse-me que eram para conectar a máquinas de
guerra.
Só
que não faz sentido; uma máquina que tem sentimentos? E pior, está
renunciando o que está em seu programa? Era estranho, mas admito que
estava gostando dessa bizarrice. Decidi aceitar a história, só pra
manter a conversa.
Sentamos-nos para olhar os navios,
enquanto ele continuava falando. Uma hora ele parou de falar e quis
saber de mim. Meu nome, quem eu era, onde morava e por que estava ali
a uma hora dessas. Contei-lhe tudo e ele ouviu em silêncio,
sorrindo.
- Que
legal João – ele me disse – você tem uma família e amigos!
- Eu
tinha. Tô perdendo tudo.
- Então
faça algo. Se as coisas não estão dando certo, você não deve
desistir delas, só tentar fazer de outro jeito.
- É.
Valeu, Vou lembrar disso.
Perguntei-lhe para onde pretendia ir e
ele não falou nada por um tempo. O silêncio tomou conta de nós
enquanto olhávamos as embarcações.
- Ei
João – ele me chamou timidamente
- Me
chame de Jonny. Meus amigos me chamavam assim.
- Ok,
Jonny. Você por um acaso não teria um pouco de plutônio aí com
você, teria?
- Olha
robôzinho, se eu tivesse plutônio aqui no meu bolso, estaria sem
perna, ou pior.
- Eu
imaginei – ele sorriu pra mim - Não se encontra isso para
vender por ai não é?
Balancei a cabeça negativamente sem
entender o que se passava, foi então que ele respondeu a pergunta
que eu fiz a cinco minutos atrás: Disse que não iria para lugar
nenhum depois dali. Plutônio era a sua fonte de energia, era o que
o mantinha funcionando. Como não tinha mais nenhum, logo estaria
completamente desligado. Disse-me também que ainda tinha 3 horas de
energia sobrando.
Plutônio? Então esse cara é
nuclear? Pensei espantado.
- Eu
só lamento não poder ver mais do mundo, queria muito poder ver
mais do que este porto. Queria poder viajar ter amigos, ter um
apelido, assim como você. Mas não posso, nem que tivesse plutônio
eu poderia, sou só uma máquina.
- Não tem como arrumar-te uma outra fonte de energia?
- Você
sabe onde e quando vai cair um raio? - ele pergunta rindo.
- Claro
que não, Por quê?
- Preciso
de algo que possa gerar uma reação nuclear de 1,21 gigawatz de
energia. Pode ser plutônio, ou pode ser um raio.
É... Realmente não dá para eu fazer
nada por ele. Fiquei triste, muito triste. Ele me olhou e pediu para
que eu não ficasse assim, que ele não era uma pessoa de verdade.
- Preocupe-se
com as pessoas de verdade Jonny, ame-as.
Fiquei com ele até o amanhecer. Logo
que o sol começou a raiar, notei que ele estava quase parando de
funcionar, era como um brinquedo quando a pilha ta fraca.
- Logo
eu vou Jonny, queria te pedir uma coisa. Poderia jogar meu corpo no
mar? Eu não posso ser encontrado. Preciso afundar e me tornar
esquecido.
- Eu
não vou esquecer de você.
- Obrigado!
Obrigado mesmo. Você fez valer a pena ter sido construído.
Tomei-o nos braços e caminhei para
perto da água. Era incrível o quanto ele era leve, imaginei que
seria muito mais pesado. Olhei seu rosto, e seus olhos estavam quase
se fechando, quando ele me disse uma ultima coisa:
- Jonny,
seja bom.
Os
olhos fecharam, o corpo ficou mole. Os 1,21 gigawatz acabaram, e ele
se foi. Sacudi seu corpo por um tempo, esperando que fosse apenas uma
piada, mas não era. Ele não acordou.
Como prometido, joguei-o na água do
mar e fiquei olhando seu corpo sumir na escuridão da água.
Voltei para casa, pensando no robô.
Ele estava certo; eu sou um ser vivo eu preciso dos outros e eles de
mim. Sinto-me um completo idiota; um robô sai do nada e me ensina a
viver, me mostra que a vida pode ter algo bom. Vou mudar meu jeito de
pensar: não vou me esconder dos meus problemas. Vou tentar fazer
tudo de um modo diferente.
Ele
foi um robô, mas conseguiu me mostrar o valor da vida humana. Se
ele,um robô, uma máquina de guerra, aprendeu o valor da vida humana, talvez nós também possamos aprender.
by Kennenterça-feira, 7 de janeiro de 2014
Missao anjo da guarda: capitulo 5: Um corpo... Duas almas
Pedro entrou
em um beco e eu fui atrás. Ele parecia uma besta feroz, andando sem rumo.
De repente
ele parou... e desferiu um soco contra uma caçamba de lixo, fazendo com que a
mesma se deformasse com o impacto.
– Eu
disse... – começou a sussurrar ao se
voltar para mim. – Fica longe de mim!!! – rosnou
Seus olhos
estavam completamente negros, era impossível ver algo ali. E ele não tinha aura,
nenhuma aura, aquilo era impossível!
Uma fumaça
negra começou a surgir a sua volta e isso fez com que eu desse um passo para
trás. Aquilo não poderia estar acontecendo, eu só tinha que cuidar de um humano
inferior, certo? Parecia que não.
– Eu sei
quem você é... – a voz dele era grossa e assustadora. Definitivamente não parecia
pertencer ao mesmo cara. – An...jo...
Meus olhos
se esbugalharam de susto. Como? Como ele sabia que eu era um anjo? A não ser
que ele não fosse um simples humano.
– O que você
é? – perguntei em meio a um berro. – Como sabe o que eu sou?
Umas manchas
escuras foram surgindo no rosto dele como se fossem tatuagens. Seja lá o que
ele fosse realmente não era humano. Se aquela missão era uma piada estava
começando a ficar de muito mau gosto.
Ele torceu o
pescoço de um jeito estranho e mostrou a língua para mim.
– Com medo,
anjo? – ele riu alto.
– Eu não
tenho medo de um humano. Vocês são como baratas. – tentei parecer ameaçadora.
– Eu não sou
humano. – ele abriu a boca mostrando presas que antes não estavam ali. Grandes
asas negras surgiram nas suas costas.
Eu saltei
para trás e minhas asas se abriram pro reflexo.
– Demônio! –
conclui perplexa.
–
Exato! Como demorou a perceber. – ele
foi sarcástico.
– Pedro? –
sussurrei confusa
Voei na
direção dele e acertei seu rosto com um soco, um clarão de luz explodiu o beco.
Fosse lá quem fosse aquele demônio, certamente não era a pessoa a qual eu
deveria proteger.
Ele se ergueu
do chão em meio à poeira e massageou o rosto queimado. Sacudiu suas roupas e
agiu como se nada tivesse acontecido. Ainda exibia o mesmo sorriso sarcástico
nos lábios.
– Acha mesmo
que tenho medo de você? – ele riu. – Não passa de um simples anjo da guarda.
Fechei os
meus olhos e uni as mãos. Eu poderia até ser um simples anjo da guarda mas não
era assim tão fraca. Uma esfera de luz surgiu na minha mão e me impulsionei
novamente voando na direção dele.
– Se eu
fosse você não faria isso. – o demônio advertiu. – Se me machucar também o
machuca. Somos duas almas em um mesmo corpo. Não pode fazer nada comigo sem
fazer a ele também.
Parei com a
esfera a alguns centímetros do rosto dele.
Ele fechou
os olhos e abriu alguns instantes depois eles estavam castanhos e a marcas ou
as asas nãos estavam mais lá.
Recolhi as
asas e a esfera de luz imediatamente.
– O que
aconteceu? – Pedro perguntou, piscando os olhos, confuso.
– Nada, você
saiu com raiva e eu vim atrás. – murmurei. Certamente ele não conhecia o ser
sombrio que habitava o seu corpo.
– Parece que
toda vez que eu fico com raiva não lembro o que acontece em seguida. – ele
balançava a cabeça, perdido. – Droga! Eu tenho que conseguir o dinheiro daquele
cara. – respirou fundo. – Mas não sei como...
– De quanto
precisa? – perguntei ao me aproximar dele.
–300 reais.
– disse ao arrumar a postura do seu corpo.
– Talvez eu
possa ajudar você. Desde que me prometa ficar longe de encrenca.
– Valeu, mas
não preciso da esmola de ninguém. – ele virou as costas e saiu andando.
Repensei se
não deveria ter matado aquele humano idiota junto com o demônio que há dentro
dele quando tive a chance.
– Volta
aqui! Prefere apanhar de um monte de brutamontes a aceitar a minha ajuda? –
humano idiota!
– Pensando
bem, você não vai poder me bater mesmo... – ele repensou se virando para mim
novamente. – Mas já vou logo avisando que não sei quando vou pode te pagar.
– Tudo bem.
– assenti. Sabia que ele não iria me pagar mesmo, contudo, no fim das contas
era para salvar o pescoço dele que eu estava ali.
Voltamos
para o buraco onde ele morava e eu peguei o dinheiro para ele.
Não conseguia parar de pensar no que havia acontecido, no
que existia em alguma parte dele, no demônio que ocupava seu copo. Como
destruir alguém sem poder matá-lo? Percebi que ser anjo da guarda talvez fosse
muito mais complicado do que eu imagina.
Continua...
By Ashe
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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Hunted hunter - capítulo 7 : Bloody Tears
Cap2
Cap3
Cap4
Cap5
Cap6
- Cadê
ela?
- Eu
não... sei...
Gabriel
apertava o homem pelo pescoço. Em seu rosto, trazia uma expressão
de ódio e frieza e em seus punhos, sangue humano.
***
Assolado
por um mau pressentimento de que Sônia poderia estar em perigo,
caçador voltou ao vilarejo Ravenest, logo após a morte de Laura.
Suas
suspeitas estavam certas; logo que chegou, notou que as pessoas
pareciam assustadas com a presença dele. Em seguida, passaram a
ignora-lo, como se nunca o tivessem visto antes. Tentou conversar e
fazer perguntas, mas ninguém lhe dava atenção, e o pior, não
havia sinal de Sônia em parte alguma.
Irritado,
ele começou a procurar por sí, quando então, dentro do estábulo
achou a cruz de prata dela, caída no chão, com uma pequena mancha
de sangue. Foi nesse momento, que dois valentões, dois dos mais
altos e fortes moradores de Ravenest entraram, para dar um fim àquele
visitante enxerido...
***
Um
dos homens estava caído no chão, com os olhos roxos e alguns dentes
quebrados, o outro, estava com Gabe sobre ele.Tinha uma garrafa
quebrada enfiada na coxa esquerda, que jorrava sangue.
Soltou
o pescoço dele, lhe dando uns segundos para recuperar o ar. A cruz
de Sônia, caída no chão, lhe dava a certeza de que algo péssimo
tinha acontecido, e aquele ataque a ele, justificava sua suspeita;
aquelas pessoas sabiam exatamente onde ela estava, e quem a tinha
levado.
Sônia
Renard, 24 anos. Acompanhava Gabriel como caçadora de vampiros desde
que ele iniciou sua missão sagrada. Ele nunca esperou que os dois
tivessem uma vida longa e feliz, mas não esperava que seriam traídos
por humanos que juraram proteger.
A
fúria dele era quase incontrolável. Apesar da raiva que sentia,
manteve uma postura calma. Seus olhos estavam injetado de sangue, mas
sua voz soava calma. Ele iria matar aqueles dois e todos naquele
vilarejo se não lhe dessem o que pedia. Sônia era sua humanidade,
seu lado bom. Sem ela por perto, só sobrava rancor.
Pisou
na ferida do homem, fazendo a garrafa quebrar, forçando os cacos a
lhe penetrarem mais fundo na carne.
O
homem gritou de dor.
Os
outros moradores do vilarejo estava reunidos do lado de fora do
estábulo. Alguns com enxadas e forcados nas mãos. Quando ouviram o
grito, a maioria deles estremeceu; aqueles dois eram os maiores e
mais fortes deles.
- Assassino!
- gritou uma senhora, com uma pedra na mão.
Os
demais se apressaram para calar a boca dela, mas ela resistiu:
- É
meu filho que lá dentro com aquele animal!
Do
lado de fora estava um reboliço; alguns concordavam com ela, mas
outros não queriam piorar as coisas. A discussão aumentou, alguns
homens estavam pensando em entrar e ver o que estava acontecendo, mas
então, sem que ninguém esperasse, a porta do estábulo abriu-se.
Gabriel
a empurrou com o pé. Na mão direita trazia seu chicote, aquele que
noite passada tinha estraçalhado os zumbis como se fossem papel. Na
mão esquerda, a cruz de Sônia, com a adaga armada. Atrás dele,
dentro do estábulo, puderam ver os dois fortões, terrivelmente
espancados.
- Eles
estão vivos. - disse ele. - Mas ainda não me disseram onde está
Sônia.
Apertou
com firmeza a cruz na mão e os encarou.
Alguns
homens avançaram uns passos, dando a entender que pretendiam
ataca-lo. Gabe sorriu maldosamente quando fizeram isso e disse:
- Antes
de me atacarem em um numero tão grande, certifiquem-se que vocês
tem espaço para tantos túmulos assim, naquele seu cemitério.
O
sorriso demoníaco dele, somado ao sangue que estava espalhado por seu
rosto, mais aquela ameaça de chacina eminente, fizeram os aldeões
vacilarem.
- Se
não me disseram onde está Sônia, eu vou matar todos vocês. Vou
me certificar que desta vez, Ravenest seja de fato, uma cidade cheia
de mortos.
A
segunda ameaça fez com quem uns sentissem raiva, mas a maioria
estava visivelmente apavorada. Ele continuou:
- Vou
perguntar pela ultima vez. Onde está Sônia? - Ela foi levada daqui.
Era
a voz de um homem idoso, vinda de trás do grupo que o cercava,
parecia ser o líder ou chefe deles. A multidão abriu espaço para
que o velho pudesse ser visto.
- Onde
está ela agora? Quem a levou?
- Se
você puder se acalmar, eu lhe contarei tudo que sabemos, mas por
favor, fique calmo.
- Prossiga.
- A
umas semanas atrás, nossa vila recebeu uma visitante estranha. Uma
moça de capuz preto que passou por nós e foi até nosso
cemitério. A partir de então, os mortos começaram a levantar do
túmulo, como você mesmo viu.
Os
aldeões pareciam apreensivos, mas nada diziam. O velho continuou:
- Mas,
a alguns dias antes de voces chegarem, ela voltou a aparecer.
Idenficou-se como uma vampira e que estava atrás de dois
caçadores: um homem de cabelos compridos e um chicote e uma
sacerdotiza. Nos disse que vocês estavam a caminho dessa cidade e
que matariam todos os zumbis e depois, iriam se separar. Quando
isso acontecesse, era para prendermos a mulher que ela viria para
pega-la e depois disso, estariamos livres dela para sempre.
- Vocês
entregaram Sônia para uma vampira? - gritou ele – depois de tudo
que fizemos por vocês?
- Estávamos sobre ameaça! Os vampiros controlam toda essa região! Somos
escravos deles a vida toda.
- Aquele
vampiros estão todos mortos! Essa garota, quem quer que seja, é a
ultima deles! Para onde ela a levou?
- Ela
nos disse onde estaria indo, até deixou um mapa de onde te
esperaria, caso quisesse ir atrás dela.
- E
porque diabos não me deram essa porra desse mapa na hora que eu
cheguei?
- Nós
não... achamos que...
- Que
não precisavam mais se meter em coisas de vampiros e que aqueles
dois caipiras de roça seria mais do que o bastante para me
silenciar?
- Bem...é...
- Me
dá o mapa.
O
caçador se aproximou do velho.
- Me dê o mapa e eu vou embora, nunca mais vão me ver ou qualquer vampiro.
O
velho senhor fez um gesto para uma jovem e ela lhe entregou um pedaço
de papel dobrado.
- Aqui
está, ela está esperando em uma casa marcada aqui.
Gabe
arrancou o papel das mãos dele; abriu-o e analisou: teria que pegar
o caminho de volta à Crecent e depois seguir a noroeste. Havia um
circulo vermelho na base de uma montanha.
Fechou
o mapa e voltou-se para o estábulo.
- Vou
pegar um cavalo.
Houveram
protestos, mas o líder do vilarejo mandou que todos ficassem quietos:
- Deixem
ele pegar um dos cavalos. Devemos isso a ele. Nós entregamos a
amiga dele à vampira.
Antes
de entrar e escolher um dos cavalos, Gabriel esfregou a mão nas
roupas de um dos homens que estava com uma enxada na mão.
- Ei!
Que isso? O que você limpou em mim?
O
caçador foi até a porta. Parou, olhou para trás e respondeu:
- Minha
fé na humanidade.
Respondeu
secamente.
Chutou
as portas e segundos depois, saiu galopando rapidamente, deixando
aquele vilarejo maldito para trás.
Montanha
Baljhet... já ouvira falar mas nunca teve motivos para ir até lá.
O caminho não era difícil, mas o lugar não era exatamente perto.
Forçou o velho cavalo de tração que encontrou, o máximo que
pôde. Sua mente estava muito confusa; não parava de pensar em
Sônia, e em quem poderia tê-la capturado. As palavras do Conde
ainda ecoavam em sua cabeça: “ havia mais alguém”. Sabia que era
uma garota vampira... Seria alguma sobrevivente do ataque insano de
Laura aos vampiros de Olney? Mas se fosse o caso, porque pegaria
Sônia?
Não
parou a viagem nem para comer; devorou as rações ainda cavalgando,
porém, pobre animal estava no limite da sua força. Não era culpa
dele; os seres humanos são fracos e como todos os seres fracos, agem
por medo. Uma pessoa normal teria enlouquecido... Laura jogou com ele
a vida toda porque queria ser morta por suas mãos. E o conde... ele
estava envolvido nisso, mas também estava sendo manipulado. Quem
quer que espera naquela montanha, é a peça solta que resolve tudo.
Ao
entardecer, Gabriel foi obrigado a soltar o cavalo, que estava para
morrer, não tinha opção se não seguir a pé. Implorava
mentalmente o tempo todo para que sua parceira estivesse bem... O
pesar em seu peito era muito grande; suas ultimas palavras para ela
foram agressivas. Partiu sentindo raiva dela.
- Só
mais dessa vez, aguente por favor...
***
O
sol se escondia ao longe, quando chegou até o pé da montanha
Baljhet. Como imaginava, havia um casarão lá. Sem medo, correu até
ele, derrubando a porta com o pé.
O
interior era ricamente decorado, como todo lorde vampiro gosta;
cortinas grossas nas janelas, carpete ao chão, quadros lindos e caros
pelas paredes... e uma escadaria para o andar de cima.
- Oh
Gabriel... - chamou uma voz feminina, do andar de cima – Gabriel,
finalmente chegou! Aqueles caipiras tentaram ocultar o mapa de você
por muito tempo?
A
voz dela ecoava bem alto, como se estivesse na sala.
- Suba
as escadas. Sua amiga está aqui!
Subiu.
Lógico
que ele esperava por uma armadilha, mas ele estava preparado; seus
reflexos estavam a mil e nada o surpreenderia.
Logo
que chegou ao topo da escada, um homem veio pelo corredor e lhe
atacou com um machado. Gabe jogou o corpo para trás e o ataque
acertou o corrimão da escada, deixando o machado preso.
O
homem em questão era negro e tinha quase 2 metros de altura. Corpo
sólido de músculo.
O
caçador aproveitou a deixa para acertar um soco no rosto do sujeito,
mas ele não parecia ter sentido muito. Com muita força, ele
arrancou o machado que estava preso e o brandiu com violência.
Gabriel evitou o ataque abaixando-se. Porém, desta vez o homem
desferiu uma joelhada nele, acertou-o no queixo. O impacto jogou Gabe
para trás; ele caiu no chão e rolou.
Sentiu
os dentes baterem com força, enchendo a boca com gosto de sangue.
Mal tinha se recuperado da pancada e se viu sendo obrigado a rolar
mais uma vez: estava deitado no chão e o gigante estava tentando
parti-lo ao meio com o machado. Rolou para esquivar, levantando-se
habilmente com uma cambalhota. Tão logo ficou de pé, sacou o
chicote e acertou o rosto do sujeito, com um movimento de arco.
O
talho aberto no rosto dele o fez gritar de dor. Aproveitando o
balanço do chicote, Gabriel girou o corpo todo, num salto de 360
graus, acertando o mesmo lado do rosto, mas desta vez com uma força
muito maior. O estalo foi alto e o grito do gigante, ainda maior. Seu
sangue tingiu a parede branca atrás dele.
Aproveitou-se
do atordoamento causado pelo chicote para arrancar-lhe o machado das
mãos e antes que pudesse reagir, acertou-o no peito com a arma. O
machado cravou nas costelas do negro. Ele soltou um ultimo gemido de
dor, antes de cair morto.
Havia
uma porta à sua frente. Estava entreaberta.
- Bravo!
Bravo Gabriel!
Aquela
voz, vinha daquela porta. Empurrou-a com a mão esquerda...
Era
uma sala de jantar. Os pratos estavam postos, mas comida alguma
estava servida. Na ultima cadeira, da ponta oposta a ele, estava uma
moça: Estava vestida com vestido branco e preto, com babados, estilo gótico. Seus cabelos eram ruivos e curtos e os olhos, verdes e
penetrantes.
Ele
arregalou os olhos. Não queria acreditar no que estava vendo, era...
- Glória!?
- Sim!
Sou eu! Quem diria hein? Sou uma vampira agora!
- Mas...
- Porque?
É isso que quer saber? Vingança!
A
garota atirou a taça de sangue que tinha nas mãos, estilhaçando
ela na parede.
- Vingança
porque?
- Ainda
pergunta? Você me humilhou, me rejeitou! Eu lhe ofereci amor
sincero, uma vida boa, e o que você fez? Dispensou tudo! Me chamou
de criança e se juntou com aquelazinha... Sônia Renard!
- Cadê
a Sônia?
- Aquela
sem graça? Bem ali.
Glória
apontou para um canto. Lá estava Sônia. Algemada na parede. Suas
roupas estavam rasgadas, haviam machucado em seu rosto e sangue em
suas pernas.
- Sônia!
- gritou – O que fez com ela?
Glória
riu.
- Ela
é tão chaaata! Não gritou em momento algum, nem quando meu
guarda-costas... aquele morto ali fora... a estuprou.
Sentiu
como se uma faca tivesse rasgado suas entranhas. Seu queixo caiu.
Lágrimas vieram aos seus olhos.
- Acho
que aquela coisa de castidade já era não é? - riu mais uma vez,
com a mão na boca.
O
caçador baixou a cabeça. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto.
- Essa
garota irritante... não gritou, não implorou.. isso me deu muita
raiva. Olhe para ela! - gritou, ficando de pé. - Isso é culpa sua
Gabriel! Você e essa sua sede de vingança! Você fez isso a ela!
Deu
a volta na mesa, indo para mais perto dele.
- Não
vai dizer nada? Você está tão destruído assim? Juro que pensei
que iria gritar e chorar... vocês dois, hunf! São dois chatos!
Mas quer saber de algo realmente legal? - ela riu como uma
criancinha – Sônia é a minha primeira cria... não é demais?
Rangeu
os dentes. Não sentia vida na sua parceira. Pelo contrário, ela
emanava o cheiro de túmulo que todo vampiro tinha.
Violaram
seu corpo e a transformaram em vampira. Glória tirou tudo dela, sua
vida e sua castidade...a raiva explodia nele, mas continuava sem
ação. Sentia-se destruído.
- Oh
Gabriel... e agora meu amado? Você mata vampiros não é? Sônia é
uma! E ai campeão da justiça? Vai mata-la tambem? Vai matar a nós
duas? Eu e Laura manipulamos tudo, desde o inicio, quando eu a
conheci num baile. Eu estava bebada e contei a ela de você e então
ela propós um jogo, onde no final, a Sônia seria minha e você
seria dela...mas a idiota se deixou matar...mas pelo menos ela me
deu a vida eterna, como prometido.
- Porque...
porque a Sônia? Seu problema era comigo.
- Hun.
Porque ela era sua querida parceira. Eu queria fazer dela o seu
maior inimigo, e te forçar a mata-la. Você está com raiva não
está? Vai me atacar agora e vai matar a nós duas não vai? Pois
saiba que eu sei tu...
Um
golpe rápido e brutal do chicote acertou o pescoço da vampira,
enquanto ela falava e se gabava. Surpresa, ela não conseguiu reagir
quando o caçador a puxou com força, fazendo-a voar até ele. Com
toda fúria e brutalidade que seu ser conhecia, Gabriel acertou um
soco no estomago da pequena vampira, com a cruz de prata em punho.
Num
segundo ela estava se gabando do quão forte era como vampira e no
segundo seguinte, estava debruçada sobre ele, com uma cruz enterrada
no dentro de seu corpo.
O
rombo na barriga fazia Glória sangrava todo o sangue que tinha
sugado de Sônia. O choque havia paralisado seu corpo. Ela gemeu,
olhando para ele, surpresa.
- Ga..briel...?
Ele
abriu os olhos lentamente, olhou-a nos olhos:
- CRUX
DIVINA!
Assim
como Sônia tinha feito contra Vladimir, Gabriel invocou a crux
divina. Uma explosão de luz branca cobriu toda sala, explosão esta
que se originou dentro do corpo de Glória.
Quando
o clarão passou, a pequena lady vampira estava caída a 3 metros
dele. Todo seu corpo estava queimado e suas entranhas expostas, com o
rombo em sua barriga. Ela gemia alto, sentindo uma dor indescritível.
- Eu
não... deveria estar sentindo tanta dor... eu sou uma lady
vampira!
Gabe
aproximou-se dela, a passos lentos, olhando-a.
- Gabriel!
Estou com medo! Por favor... me perdoe.
Ele
mexeu no bolso e tirou uma moeda de cobre. Colocou a moeda na boca
dela.
- Entregue
isso ao barqueiro, no mundo dos mortos. Adeus.
Ela
arregalou os olhos, implorando por perdão. A porta da adaga que saía
do cabo da cruz perfurou seu coração podre.
Glória
era só um montinho de cinzas no chão.
Fechou
os olhos e respirou fundo. Ainda não era hora de descansar. Ainda
havia mais um vampiro.
- Gabriel...
A
sacerdotisa o chamou, sua voz estava trêmula e carregada de dor.
Ele
foi até ela, cheio de pesar no coração.
- Ah
Sônia... o que fizeram com você?
Soltou-a
das correntes. Não havia mais vida em seu corpo. Não bastando isso,
seu corpo tinha sido violado. Tudo isso por causa dele, para
atingi-lo. Tudo isso porque ele se recusou a se casar com uma maluca,
a alguns anos atrás.
- Me
pegaram desta vez, parceiro. - respondeu ela, tentando ficar de pé.
- E
agora? - perguntou ele, escorando o corpo dela ao seu. - o que
acontece agora?
- Você
sabe o que acontece agora Gabe.
- Não!
Isso não! Não me peça isso!
- Olhe
pra mim! Olha o que sobrou de mim! Eu não posso mais viver. Me
tiraram tudo. Tudo, menos você.
Tocou
carinhosamente o rosto do amigo.
- Não
me negue isso – continuou ela – não permita que eu viva dessa
forma.
Secou
as lágrimas que lhe escorriam e concordou com a cabeça. Ela era uma
vampira,a ultima vampira da região, e precisava ser destruída.
- Me
leve para fora. Quero ser morta pelo sol, pelas mãos e Deus. Por
favor.
Sem
muitas opções, ele a levou para fora. Ainda era noite. Teriam que
esperar o amanhecer.
Sônia
ajoelhou-se para orar e ele ficou ao lado dela, sem dizer uma
palavra.
A
tantas da manhã, depois de terminar suas orações, a sacerdotisa
olhou para eu amigo e sorriu:
- Você
conseguiu usar a Crux divina. Fiquei impressionada. Eu levei muito
tempo para conseguir usa-la. - Aprendi com a melhor.
Os
dois riram. O sol, ameaçava nascer. Sônia sentiu seus últimos
momentos.
- Gabriel.
Antes de te conhecer, eu não temia nada. Eu vivia para servir a
Deus e estava pronta para morrer por meu dever. Todo dia podia ser
meu ultimo, e eu aceitava isso numa boa. Mas desde que fui escalada
para ser sua parceira, eu passei a ter medo de tudo. Eu temia a
perda, temia a morte.. Percebi que meu maior temor na verdade, era
de me apegar. Você me trouxe uma dor que eu nunca quis. Uma dor
que eu nunca pedi. Uma dor que aumentava a cada dia que eu passava
com você. Sou muito grata por tudo que passamos juntos...obrigada
Gabriel. Eu amo você.
Os
raios de sol tocaram a pele alva dela.
Fechou
os olhos e deixou que Deus a levasse. O sol a queimou gentilmente,
transformando-a numa estátua de cinzas. Uma estátua que ainda
sorria.
Ele
não conseguia conter suas lágrimas. Tocou a amiga no rosto pela
ultima vez, fazendo-a se desmanchar completamente...
O
dia estava começando. Pegou a cruz, levantou-se, respirou fundo e se
pós a caminhar. De volta para casa. Missão cumprida.
Na
estrada, ele viu um homem de capuz negro, sorrindo para ele. Brincava
com uma moeda de cobre entre os dedos finos esqueléticos...
***
Dias
depois, ele estava na catedral de Roma. Reportou à seus superiores o
sucesso da missão. Os padres fizeram uma missa pela alma da
sacerdotisa morta.
Os
dias e as noites voavam. Nada mais tinha sentido para ele. Estava sem
ela pela primeira vez em muito tempo. Quase não saia do quarto.
Quase não comia.
Até
que, uma noite...
Deitado
em sua cama, olhando para o teto, levou um susto quando um vento
repentino soprou, escancarando a janela. Um som, como se fosse um
suspiro soou pelo quarto. O vidro da janela ficou embaçado.
Levantou-se,
olhando para a janela.
Uma
mensagem começou a se escrever sozinha no vidro embaçado, como se
dedinhos invisíveis estivessem escrevendo:
JUNTOS
PARA
SEMPRE
S.R.
Um
sorriso lhe veio aos lábios, seguido por uma gargalhada. Sentia
claramente a presença dela.
- Senti
sua falta.
Mais
uma vez, ele ouviu aquele suspiro. Era o jeito dela de se comunicar.
***
Do
lado de fora da catedral, um homem de vestes pretas atirava uma moeda
de cobre para cima com os dedos. Ele sorriu, deu as costas e foi-se
embora, sumindo nas sombras.
FIM.
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