sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Kaledrina



Ali está ela, caída, estática. Seu belo e delicado rosto dormia sereno. Sua maquiagem perfeita lhe cai muito bem, criando um rosto lindo e misterioso. O vestido dela é roxo e branco, cheio de babados, como aqueles usados pelas mais altas condessas da cidade... e aqui estou eu, exausto, com o coração disparado; arrastar o machado até aqui para acabar de vez com isso, não é coisa fácil. Eu sei que devo, mas não quero, não com ela... Caminho até seu corpo adormecido e lhe acaricio os cabelos cacheados. Aperto o machado na outra mão, estou suando muito...
Como foi que as coisas chegaram a isso?

Que me lembro já faz uns meses, não sei quantos, mas são muitos. Muitos meses desde que a encontrei. Eu estava no laboratório da StanCorp, trabalhando em um projeto próprio, algo para tentar impressionar meu pai, nada mais que o dono da empresa e um dos lordes mais ricos da Inglaterra. Sir Richard Stanford. Sou o filho mais novo dos Stanford, e minha existência é muito ensombrada pela presença do meu irmão Manfred. Ele é tudo que o papai sempre quis num filho, ele nunca deixou de dizer isso para nós dois, então, esse meu projeto era uma forma de mostrar a ele que eu também era capaz de algo... Engraçado como naquela época eu me importava com algo a mais além dela...
Ah sim, o flame pack! A grande idéia! Consistia de um cilindro de metal cheio de gás acetileno preso ás costas, ligado à uma manopla metálica por um cano de borracha. Um lança chamas mais fácil de carregar. Eu achei mesmo que se eu construísse um desses o meu pai repararia em mim, e ainda melhor: daria ordens para construção em massa do mesmo. Então, todas as noites para cá eu vinha, projetar e trabalhar nisso, como se mais nada importasse. Naquela época tudo que eu queria era mostrar que sei fazer algo.
E assim foram noites e noites a fio; soldando, cortando, martelando... Sabe, trabalhar com fogo nem sempre é seguro e as vezes eu me causava queimaduras, nada muito grave mas ainda assim, ferimentos indesejados. Uma dessas vezes, quando fui testar a manopla com lança-chamas, algo deu errado e ela explodiu na minha mão. Explodiu é um modo de dizer, ela começou a pegar fogo, mas por sorte, eu consegui tirar a tempo e os danos não foram muito grandes, o problema era que àquela hora da noite eu estava sozinho e tive que correr para enfermaria porque ninguém viria para me ajudar. Desci as escadas e corri pelo corredor longo do almoxarifado até a sala dos remédios, por que tinha que ser tão longe?
Tratei minha mão, usei aquela pomada pra pele queimada e a enfaixei como pude. Tive raiva de mim e dessa idéia idiota. Saí da enfermaria batendo a porta, mas sabia que logo que a dor passasse a raiva também passaria.
Foi então que ouvi.
Parecia um choro, era baixo, como um sussurro, como se alguém estivesse tentando esconder que estava chorando. “Quem ta ai?” gritei. Minha voz ecoou, mas não houve retorno. De fato o choro havia sumido. Com o lampião na mão e uma chave inglesa na outra, avancei pelo corredor. Percebi nesse momento que eu estava numa parte muito afastada do laboratório, uma parte que eu nunca tinha estado antes.
“Você está ai? Não vou te machucar!” disse, apesar de estar segurando uma pesada chave na outra mão. Não houve resposta. Caminhei até uma porta estranha; toda cinzenta e sem nenhuma indicação do que deveria ter lá dentro. Além disso, a porta estava entreaberta o que não é comum nesse lugar.
“Alô?” abri a porta lentamente, deixando a luz entrar. A verdade é que eu estava morrendo de medo. Aos poucos, abri toda a porta. Ergui o lampião para poder ver a sala toda: muitas caixas empilhadas, todas empoeiradas, pareciam que estavam ali há muito tempo. Esperei meus olhos se acostumarem com aquela iluminação, quando então, notei algo no escuro, era um pano preto cobrindo algo. Parecia uma pessoa sentada numa cadeira. Seria ela quem eu ouvi chorando?
“Ei você” chamei, me fazendo de valente. Nada. Não se mexia nem falava nada. Lentamente, aproximei-me mais e com a ponta da chave, ergui o pano... E foi quando eu a conheci. Estava sentada e amarrada na cadeira com a cabeça caída para frente. Os cabelos eram castanhos e cacheados e o vestido era bonito, mas antigo, roxo e branco.
Tentei falar com ela e esperei um tempo, olhando-a, mas não se mexia. Toquei-a no rosto e levantei sua cabeça; sua pele era fria. O rosto estava todo pintado como maquiagem. Os olhos estavam fechados. Percebi então, que era uma boneca.
Soltei as cordas dela. Porque teriam amarrado ela dessa forma? E quem será que a trouxe para cá? Seria coisa do meu pai? Tratei de iluminar o resto da sala, queria vê-la melhor. Era linda, quase parecia viva. Deduzi que tinha a minha altura. Por algum tempo fiquei parado admirando-a: o desenho do seu rosto, seus lábios pequenos e bonitos, seu corpo... Meus olhos corriam pelo corpo dela, estava de sapatos pretos e meias brancas e compridas. Toquei-a no rosto, não consegui identificar do que era feita aquela pele, era macia, quase como pele humana, mas tinha algo na textura que era diferente. Com meu dedo, mexi seus lábios e abri sua boca: era seca, mas possuía dentes fortes, talvez feitos de alguma liga metálica. Desci os olhos pelo pescoço dela e inevitavelmente olhei seus seios... Não eram grandes, mas eram perfeitos...
Estremeci. Senti um calor correr por todo meu corpo. Nunca tive uma mulher assim tão perto de mim. Nunca tive mulher alguma, na verdade. Não sou bonito, não tenho bom papo, não sei dançar e não sou popular... Isso deve explicar muito sobre mim, eu acho.
Antes que pudesse perceber, eu estava com minha mão nos seios dela, cabia todo na minha mão. Eram duros, mas, macios ao toque, como a pele. Meu coração estava acelerado: meu interesse pessoal era muito maior do que o interesse científico que eu deveria ter.
Pousei minha mão enfaixada a sua coxa por cima do vestido e a apertei; parecia muito real. Na verdade era tão real que eu tinha medo que ela ganhasse vida a qualquer momento. Gentilmente, se é que isso é possível, deslizei minha mão para baixo do vestido dela, apalpando o interior daquelas coxas macias e frias. Logicamente, minha mão subiu um pouco mais... Fiquei surpreso ao sentir que ela estava vestindo calcinha. Se bonecas pequenas vestem, porque as grandes não?
Aquele foi o momento mais erótico que tive em toda minha vida, eu estava elétrico e mais quente do que a fornalha de uma locomotiva, mas ao mesmo tempo sentia o coração pesar; ela estava ali parada sem poder se defender dos meus assédios. Era só uma boneca, mas eu me sentia um canalha. E eu não sou assim, nunca fui. Beijei-a.
Grudei meus lábios aos lábios de borracha dela, aliciando suas intimidades artificiais. Meu coração estava agitado como um motor à vapor, pela primeira vez eu senti êxtase completo. Meus beijos faziam a cabeça dela pender para trás, então usei a mão que estava em seus seios para segura-la pela nuca, igual àquelas historias de amor.
Com muito cuidado, enfiei a mão por trás de seus cabelos e a segurei para dar mais apoio ao meu beijo, quando então senti algo. Letras. Uma palavra gravada em sua nuca. Minha curiosidade foi muito grande, seria um nome? Uma data? Parei o beijo para olhar; afastei seus cachos castanhos e li uma palavra quase apagada: Kaledrina.
Seria seu nome? Pensei. Ou quem sabe o nome de uma antiga dona... Kaledrina. Um nome diferente. Deve ser estrangeiro. Diferente mais muito bonito, assim como ela.
“Vou chamá-la de Kale” disse a ela, como se ela fosse entender. “Você gosta?” sem resposta, claro.



CONTINUA...

by kennen

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A travessia parte III


Leia antes
Parte I
Parte II




Eveline deu um passo para trás ainda encarando o homem parado há alguns metros de nós. Ela olhava para o rosto dele ainda incrédula
– Não pode ser... – a ouvi murmurar.
– Eveline... – pronuncie seu nome baixinho. – É um assunto complicado.
Hoan riu.
– Olá, cunhada. – ele surgiu ao lado dela pegando-a de surpresa. – Obrigado por dar ao meu irmão um ponto fraco. – ele colocou uma adaga apontada contra o pescoço dela.
– Fique longe dela! – rosnei.
– Ou o que? – Hoan me desafiou.
Eveline suava frio com a adaga apontada contra a pele frágil do seu pescoço. Seus olhos estavam voltados para mim e clamavam por socorro.
Encarei o meu irmão, que exibia um sorriso sarcástico nos lábios. Eu sabia muito bem do que Hoan era capaz e temi pela vida da minha namorada. Porém, meu irmão também me conhecia bem.
– Eu disse para ficar longe dela! – falei ao surgir na frente dele e o atingir com um chute que o fez voar contra a parede da caverna e lançar a adaga longe.
Eveline me encarou com uma grande interrogação no rosto. Não acreditava no que eu havia feito. Mal fazia ela ideia do quão rápido eu era capaz de me mover.
Hoan começou a rir enquanto se punha de pé e limpava a poeira das vestes negras.
– Confesso: achei que você estivesse enferrujado. – ele ainda ria. – Faz quanto tempo desde a última vez que trinamos juntos, cinco anos? – seus olhos meu fitaram profundamente. – Cinco anos, época em que você ainda não era um traidor.
– Eu não sou um traidor! – gritei alto.                
– Ah não? – Ele perguntou sarcástico . – Até onde eu me lembrava esse era o nome que davam para aqueles que abandonavam a sua própria família para se juntar ao lado inimigo. Fico imaginando o quanto a mamãe estaria decepcionada se visse no quer você se tornou. Uma simples marionete dos nossos inimigos...
– Não fale da nossa mãe. – eu estava furioso. – Ela jamais aprovaria a Nova Ordem.
– Muito pelo contrário, ela se orgulharia de nós, por termos feito do mundo um lugar melhor...
– Cala a boca! – berrei acertando o meu irmão com um soco no rosto. Eu ha estava farto daquela ladainha do Hoan.
Ele foi arremessado mais uma vez contra a parede da caverna. Levantou massageando a bochecha atingida.
– Tudo bem, você quer resolver as coisas desse jeito para mim tudo bem. – Ele partiu para cima de mim me acertando com um golpe na boca do estômago e me fazendo voar.
– Noah! – Eveline berrou correndo na minha direção.
– Fica fora disso, traidora número dois. – advertiu Hoan. – Meu irmão e eu temos alguns assuntos pendentes.
Ela olhou para mim extremamente preocupada.
– Eu vou ficar bem. – prometi a ela ao me levantar.
Parti para cima do meu irmão que se defendeu do meu golpe. Ele deferiu um chute contra o meu peito, mas eu me esquivei.
Hoan sacou uma espada e lançou outra para mim.
– Como nos vemos tempos. – ele murmurou.
Rodei a espada na mão e me coloquei em uma posição confortável. Ele gritou e partiu para cima de mim novamente. O chocar das espadas produzia um barulho agudo quase ensurdecedor.
– Pelo visto você não perdeu a prática. – meu irmão provocou.
– Aprendi coisas novas. – ameacei.
Girei e deferi um golpe de espada contra ele, fazendo com que perdesse o equilíbrio e cabalasse para trás.  Ele aproveitou a deixa e se agachou me dando uma rasteira e fazendo com que eu caísse contra o chão. Eu me defendi como pode dos seus golpes de espada e rolando para o lado.
Seus olhos me encaram com ódio quando se preparou para me dar um golpe final. Meu coração disparou...
Mas... De repente ele tombou e caiu para o lado e eu pode ver Eveline parada atrás dele segurando uma pedra com uma das mãos.
– Precisamos amarrá-lo, antes que acorde. – ela foi logo dizendo.
Peguei umas cordas dentro da mochila e marrei o meu irmão, ainda desacordado, a uma pedra.
– Você tem muitas coisas para me explicar. – Eveline me fuzilou com o olhar.
– Eu sei. – disse de cabeça baixa. – Nem sei por onde começar.
– O inicio é sempre uma boa.
– Bem, Hoan e eu somos irmãos gêmeos como você percebeu. – comecei a dizer. – Desde pequenos fomos treinados para nos tornar assassinos da ordem. Nosso pai é o Klaus...
– O líder supremo da ordem?! – ela engoliu seco.
– Sim... – lamentei. – Nossa mãe morreu quando ainda éramos bem pequenos. Pouco depois do congelamento da terra, ela não concordava com a ideia de um governo ditatorial quando meu pai era apenas um membro da cúpula governante do mundo. Pouco depois que ela se foi meu pai assumiu o controle de tudo e transformou tudo no que vemos hoje... – dei uma breve pausa. - Eu era apenas um fantoche que cumpria ordens, assim como meu irmão. Mas quando me dei conta de quanto mal estava fazendo principalmente àqueles mais fracos eu abandonei a cúpula da Nova Ordem e me juntei à resistência, na luta contra o mau que a minha família causava...
Encarei Eveline, ela não disse nada. Estava chocada demais para fazê-lo, eu não esperava reação diferente.
– Precisamos sair daqui. E levar os cristais. – eu disse. – Antes que meu irmão acorde e traga uma exercito para cá. Termino essa historia em outro momento.
 Sacudi a poeira da minha roupa e caminhei para dentro da caverna.  Demos de cara com um ambiente quase indescritível, de beleza singular. Os cristais revestiam as paredes o chão e o teto, criando um jogo de luzes esplêndido.
– Uau! - Eveline exclamou. – Como é lindo.
Peguei uma bolsa e enchi a com aqueles cristais.
– Vamos dar o fora daqui. – disse a Eveline ao puxar-la pela mão.
– Mas e o seu irmão? – ela se voltou para ele, interrompendo a nossa saída.
– Ele sabe se virar sozinho. E eu que não quero estar por perto quando ele acordar...

Continua...

By Ashe

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Jenny Jenny

 

O nome dela é Jenny Taylor, e o que eu vou contar é verdade. Jenny sempre teve uma vida muito boa, seu pai, político de sua cidade, tinha muito amigos influentes, logo, era um homem que ganhava muito dinheiro. Ela sempre foi uma bonequinha, cabelos castanhos e ondulados, pele clara e olhos azuis, o orgulho da mamãe, a princesinha do papai.
Aquele ano tinha tudo para ser o melhor, o pai da garota estava concorrendo à prefeito da cidade e ao que indicavam as pesquisas que as chances dele ganhar eram muito grandes. As pesquisas não se enganaram e logo, Jenny e sua família subiram no patamar de poder mais alto da cidade, eram agora ricos e importantes.
Dois meses mais tarde, Jenny completaria 12 anos, sendo agora uma “mocinha” como diz a mamãe, e para comemorar, seu pai decidiu leva-la para passar um feriado na fazendo da família, para ensina-la a caçar. Os Taylor tinha tradição na caçada, todos seus membros são acostumados à armas, munições e troféus de caça, e a pequena Jenny, não seria diferente. Na sexta feira, depois da escola, pai e filha estavam a caminho da fazenda, para darem início as aulas de caça da nova caçadora.
Assim que chegaram, a menina foi correndo desfazer suas malas, pois tinha comprado muitas roupas de caça, e queria poder ter tempo para escolher a melhor roupa para sua primeira caçada. Enquanto arrumava suas coisas em seu quarto, o senhor Taylor fazia umas ligações de celular.

-  Papai, essa roupa ficou boa em mim? - pergunta ela dando uma votlinha. 
-  Sim querida, ficou muito linda em você. -respondeu, sem dar muita atenção.


Algumas horas mais tarde, Jenny ouviu barulho de carros do lado de fora e correu para a janela, ver quem era; não esperava que receberiam visitas. Desceu as escadas, querendo saber quem eram as pessoas que chegavam.

-  Quem chegou? 
-  Só uns amigos meus bem, eles querem caçar também.


Um homem alto de bigode entrou na casa e fui cumprimentar o senhor Taylor. Jenny o olhou bem, tinha a impressão de conhece-lo. Sim, conhecia, era o delegado da sua cidade, não é a toa que era amigo do seu pai, o prefeito e o delegado andam sempre juntos. Ela ignorou a presença do delegado ali, até que mais carros chegaram...logo ela estava sozinha com cinco homens, sendo eles, seu pai, o delegado e mais três que ela não conhecia...A pequena Jenny começou a sentir-se desconfortável naquela casa.
Os homens mais poderosos da cidade estavam ali na fazenda, e no meio deles uma única garota sozinha...caçar? Que nada...os planos daquele pai diabólico para seu filha não tinham nada a ver com caçada, pelo menos, não para ela. Um a um, eles abusaram do corpo da garota em seu quarto, enquanto seu pai filmava tudo...Ela chorou e implorou para que parassem, mas não deu certo, seus gritos e suas súplicas causam apenas risos dos homens. Seus olhinhos olhavam para o pai, implorando por ajuda...mas ele apenas dizia “você está ótima querida”. Após horas, a largaram caída no sofá, com sangue escorrendo entre as pernas e marcas de mordida por toda parte.
Primeiro ela pensou em pedir ajuda...mas para quem? Para a polícia? Toda a lei e ordem da sua cidade estava ali, abusando do seu corpo...tentou falar com a mãe, mas esta sempre fingia que não ouvia ou que não entendia...ela não tinha a quem recorrer...
Todo feriado lá se iam eles “caçar”, sempre os mesmos amigos, sempre a mesma desculpa e sempre a mesma frase “você está ótima querida”. A garota aguentou o quanto podia, rezava todas as noites para isso parar...Três anos se passaram nessa situação, Jenny agora tinha 15 anos. Morria de tristeza e vergonha a cada aniversário...queria tanto ser uma garota normal e não ter que passar por esse tipo de coisa...mas vai saber quantas de suas amigas também se encontram numa situação assim?
Eu estava sempre por perto...pressentia que algo iria acontecer. Certa vez, eu me aproximei dela, enquanto ela olhava-se no espelho. Seu rostinho triste e pensativo procurava desesperadamente por uma solução para seu problema infernal. De vez em quando, enquanto eu a observava, ela virava para trás, como quem procura por alguém, ou algo...Será que ela esta sentindo minha presença? Se sim...isso não é bom, não mesmo.
Na noite que fez quinze anos, Jenny decidiu acabar com isso de uma vez por todas. Todas as suas amigas falavam sobre beijar meninos e ela só conseguia pensar em como não ser abusada a cada feriado. Já chega, pensou.Trancou-se no banheiro e com uma lâmina de barbear começou a se cortar nas veias dos pulsos. Viu seu sangue espirrar e por um momento sentiu medo. Sua vida escapava de suas veias lentamente...sentiu frio, sentiu fraqueza...tudo ficou escuro.
Eu deveria estar do lado dela nessa hora, com minha mão em seu ombro, mas eu não estava, eu não precisei.
Horas mais tarde, Jenny acordou no hospital com os braços enfaixados, tivera sido salva a tempo pela empregada da casa.
 Eu a olhei bem nos olhos quando ela acordou e notei que parecia feliz...feliz por estar viva, por algum motivo, estava feliz por não ter morrido. 
O ser humano foi feito para viver, e não morrer. A morte é uma consequência, algo natural, mas não um objetivo. Não importa o quanto se deseje a morte, o corpo nunca quer morrer, ele não foi feito para isso...E quando finalmente se alcança a morte, as pessoas percebem o quanto a temem. Todos temem à morte, mas alguns mentem para si mesmos e para os outros.
Depois disso ela se recuperou e fugiu de cidade. Cortou e pintou o cabelo, mudou de nome, arrumou um emprego numa casa noturna e foi morar com um namorado. Nunca mais tentou se matar. Não tente apressar as coisas Jenny, nós vamos nos ver um dia, no curso natural das coisas. Como devem ser sempre. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Nolan



Era a segunda vez que os pesadelos não o deixavam dormir. Primeiro, via-se correndo em um lugar escuro, frio e úmido. Depois, sentia que mãos o alcançavam e marcavam todo o seu corpo com unhas enormes que lhe rasgavam a pele. Podia sentir que algo o estava estraçalhando tanto por fora como por dentro.
Sua pele queimava e não havia como pedir ajuda, aliás, não havia mais ninguém no sonho, a não ser ele e a criatura.
Pingando suor, retirou sua camisa, engoliu três comprimidos e secou até a última gota de um copo com água. Suas mãos ainda tremiam e a respiração estava ofegante.
Já mais calmo resolveu fazer algo que o mantivesse acordado pelas duas horas que lhe faltavam para ir trabalhar. Ligou a televisão e se deparou com um filme que o prenderia até que anoitecesse.
As oito da noite Nolan está preparando mais uma dose do tranquilizante. Em sua bandeja há duas seringas prontas para uso, alguns comprimidos e copos com água. As paredes brancas da sala são substituídas por um longo corredor amarelado no qual uma fileira de portas enumeradas se estende. O lugar cheira a remédios e desinfetante. Ele está ali a apenas dois meses e era responsável pelos pacientes do décimo segundo andar. Antes de prosseguir pelo corredor ele apaga o cigarro e coloca a caixa de fósforos no bolso da calça.
Sons de grunhidos são emitidos por de trás de cada uma das portas.
O número um, pintado com uma tinta escura, aparece sob a visão de Nolan. Ele entra. Sua primeira paciente do dia, uma senhora, código 19B. Está aqui a mais de sete anos, foi usada muitas vezes como critério padrão de avaliação, pois pelo que ele sabia, ela foi uma das primeiras em quem o tal tratamento surtiu algum efeito.
Nolan encontra a senhora dormindo em sua maca, mas era hora dos medicamentos, ela precisaria acordar. Chamou um pouco baixo, mas vendo de que nada adiantava ele a tocou na pele amarelada do seu braço. Ela grunhiu e se mexeu alguns centímetros em sua maca, não muito, pois faixas estava atadas em seus braços. Já com os comprimidos preparados, ele os coloca na boca da mulher e ergue o copo com água até os seus lábios.
E por todas as portas Nolan entrou e saiu esvaziando sua bandeja. Restava apenas um quarto, o 27. Existiam mais três quartos após o vinte e sete, mas estavam vazios. Não se sabia exatamente o que havia acontecido com os ocupantes dos quartos e comentários não eram autorizados.
Ao passar o cartão magnético a porta do quarto 27 não se abriu. Alguma coisa barrava o deslocamento. Nolan tentou empurrar, mas o metal não se moveu. Chamou outro enfermeiro. Os dois juntos arredaram a porta e ao entrar perceberam que todas as coisas que havia no quarto estavam formando uma espécie de barreira contra a porta metálica.
Ao contrário dos outros quartos, este estava escuro, as lâmpadas provavelmente estavam queimadas, pensou Nolan. Assim que seus olhos se habituaram a penumbra, notou um homem encolhido no canto. Suas roupas estavam rasgadas e a respiração entrecortada.
O outro enfermeiro que acompanhava a cena se aproximou e chamou o senhor por seu código. Nenhuma resposta. Resolve então se aproximar mais um pouco e quando o faz, os dois ouvem uma espécie de grunhido agudo e num instante seguinte um barulho ensurdecedor toma conta do lugar. Nolam corre para buscar outros enfermeiros, mas assim que se move ele vê um par de olhos amarelos brilhantes que o observa na escuridão.
Ele começa a andar para trás, mas no momento seguinte a porta se fecha, trancando-os dentro do quarto. Escuta um grito e som de ossos sendo quebrados. Sente que algo quente espirrou em seu rosto. E depois de algum tempo não escuta barulho algum. A porta então é destravada e Nolan sai do quarto, ele corre e pensa em pedir ajuda.
Pelo caminho ele percebe que outras portas estão entreabertas. Em algumas delas, filetes de sangue escorrem e formam poças pelo corredor. Assim que alcança a saída para a sala dos funcionários percebe que já não havia mais ninguém ali, a não ser ele e aquilo que agora estava solto pelo prédio de quatorze andares.
Os elevadores não funcionavam. Faltava energia no prédio inteiro. Nolan descia as escadas o mais depressa que conseguia enquanto ouvia o barulho do impacto de diversos objetos nas paredes dos andares que continham pacientes.
Não havia percebido que estava segurando a seringa de tranquilizante e assim que desceu outro degrau, suas pernas cambalearam fazendo-o rolar por um pequeno lance de escadas até que suas costas bateram na porta de saída para o andar. Sentiu uma fincada na perna, um líquido viscoso escorreu em gotas por sua calça. A agulha havia entrado e comprimido o êmbolo.
Não notou diferença alguma durante certo tempo, mas com receio de que não conseguisse sair do prédio antes que o efeito passasse, ele decide continuar a descer as escadas. Após alguns degraus, Nolan sente uma náusea muito forte, fosse o que fosse, o conteúdo daquela seringa não era nenhum tranquilizante. Ele cai e escorrega batendo a cabeça. Seu corpo empurra uma porta e agora ele está estendido no que provavelmente era a entrada para um dos andares.
Ele não consegue se erguer, pois algo está dentro de seu corpo e o faz ficar imóvel por alguns minutos. Logo depois, uma dor aguda lhe corta o peito e se espalha pelo resto do corpo. Assim que conseguiu se mexer, Nolan se encolhe no chão frio e pegajoso, parecia haver algum tipo de gosma espalhado pelo piso.
Arrastando-se ele encontra um local para se apoiar. Percebe que se trata de uma bancada, provavelmente a do laboratório do sétimo andar. Toca em alguns frasco e isso faz com que vidros se espatifem no chão. Poucos segundo se passaram até notar que a criatura havia escutado o barulho, pois assim que conseguiu se concentrar, ele percebe algo se movendo pela tubulação de ar.
A criatura vinha rápido demais, pois o som estava ficando próximo. Ele precisava continuar a descer ou acabaria morto como os outros. Tateando pelas paredes e bancadas, Nolan encontra uma espécie de portinha. Empurra e nota alguns furos que permitem a passagem de feixes de luz.
Tenta colocar sua cabeça e depois os ombros. Por ali seria possível passar e provavelmente ir para fora do prédio.
Um ruído chega ao teto do laboratório e Nolan sente que a tubulação está tremendo. De repente ouve um estalido metálico e algo cede do teto do lugar. Provavelmente a criatura já estava se preparando para pular e ataca-lo.
Precisa sair dali o mais depressa possível, mas poderia ser agarrado enquanto tentasse se enfiar na passagem. Algo cai do teto e ele escuta uma espécie de respiração seguida pelo cheiro da criatura. Ela devia estar a uns três metros dele, mas mesmo assim dava para ouvir seus grunhidos roucos e baixos.
Se tentasse sair agora, a criatura o pegaria, mas não podia ficar imóvel para sempre sem fazer ruídos. Sua chance dependia de parar aquele monstro de vez.
Seu corpo ainda queimava por dentro e cada vez mais era possível sentir o efeito daquela substância. Não conseguia pensar direito, mas a única ideia que teve tinha que dar certo. Sem fazer nenhum barulho, ele arrasta a mão pela parede e logo encontra o que precisava.
Agindo rápido ele pega uma caixinha no bolso da calça e quebra a mangueira do gás. A criatura começa a se mover em sua direção. Nolan abre a válvula e se ajoelha, enfia suas pernas na passagem. A criatura corre na direção dele e pula. Nolan senti a respiração próxima ao seu rosto e se encaixa dentro da passagem.
A garra da criatura alcança parte do seu rosto e rasga sua pele. Mais do que depressa, Nolan acende o fósforo e a última visão que tem é a de uma mão enorme com garras afiadas. Se empurra mais para trás e joga o palito. A criatura ainda tenta abrir o metal da passagem com as garras, mas já era tarde. Nolan empurra seu corpo mais para dentro e começa a cair pelo tubo.
Enquanto cai, ele escuta o som de urros e explosões acima dele. Algumas paredes se quebram com a explosão, isso faz o prédio começar a desmoronar. Muito pó entra pelas narinas de Nolan ao sofrer um baque contra o chão, fazendo-o perceber que está no incinerador no porão do prédio, pois o cheiro de cinzas e plástico queimado é inconfundível.
No meio das cinzas ele se arrasta, mas antes que tente escapar, o prédio rui. Ele não sabe quanto tempo passou até que finalmente conseguiu sair do meio de alguns blocos. Por sorte o incinerador havia suportado todo o peso das vigas metálicas. Se esquivou de alguns escombros e conseguiu sair. Ao colocar a cabeça para fora ele viu algumas viaturas pela rua. Um policial que o viu ajudou-o a sair.
Enquanto estava deitado dentro de uma das viaturas, Nolan retira a agulha da seringa quebrada em sua perna. Ao erguer a cabeça, vê um dos polícias que havia lhe feito algumas perguntas conversando com alguém dentro de um carro preto com vidros escuros. Lodo depois, o policial o ajuda a sair da viatura e a porta do carro é aberta.
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Luzes fortes estão sobre seus olhos. As paredes brancas espalham a claridade ainda mais. Seus olhos doem. Escuta a voz de alguém, uma mulher. As luzes são apagadas e ele consegue abrir os olhos. Não se lembra de como veio parar ali e nem o que aconteceu. Lembra-se do seu nome, mas não sabe quem é.
Um objeto plano e liso é posto na sua frente. Nele há a imagem de alguém ou alguma coisa. Um ser que se parece com um homem, mas com a pele amarelada e pálida, longas cinco marcas de cicatriz estendem-se por seu rosto, a boca está torcida e rasgada e os olhos estão dourados. Em seu corpo há várias marcas arroxeadas e os braços são cobertos por ataduras que cobrem uma pele grossa. As mãos possuem garras e são contorcidas. Antes de concluir a ideia de que era ele refletido naquela imagem algo o acerta e seus olhos se fecham novamente.
A visão do espaço onde a nova criatura agora se formava era assustadora. Em seu leito ela está tranquilizada até que os homens continuem a prepará-la. Na grade a frente da cama surge uma placa metálica e um número. 06F, unidade de destruição.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Serviço Público


- Eu posso, se eu quiser. – falou ele.
- Você sabe que não pode. – respondeu ela.
- Eu posso muito mais do que você pensa. Quer apostar?
- Seria interessante, mas eu não to a fim de levar bronca por sua causa.
- Por isso você ainda faz o que faz e nunca sobe de posto. Quanto tempo você trabalha pra ele?
- Uma eternidade! – responde ela, rindo.

Ela estava sentada em uma mureta, balançando os pés e ele estava ao seu lado, apoiado na mureta com os cotovelos. Ambos estavam em horário de descanso. Gostavam de alfinetar um ao outro, era seu passatempo favorito, mesmo que às vezes, ele perdesse a paciência e a ofendesse de verdade. Ele era alto, loiro e bonito, ela era baixa e de cabelos pretos. Estavam descansando, olhando o movimento na rua.

- Você gosta mesmo desse trampo de bosta?
- Claro que sim. Paga bem e o horário de descanso é o bastante.
Ele solta um grunhido que mal chegou a se tornar uma palavra. Acende um cigarro e dá uma tragada.

- Você se contenta muito facilmente, não tem ambição e sempre abana o rabinho pro chefe, como um cachorrinho.
- E você sempre quer fazer tudo do seu jeito, se estrepa, fica de mau humor... E depois eu tenho que agüentar o chefe brigando e o sua cara de azedo.
- Eu sei das coisas, ok? – ele levanta a voz, demonstrando irritação. – Pelo menos não sou uma baixinha submissa. Eu quero subir! Fazer mais do que isso, porque sei que mereço.
- Você esquece que ele é quem manda e é ele quem decide quem sobe e quem desce. O chefão dá as ordens e nós, os funcionários de serviço público, obedecemos. A gente podia estar fazendo coisa diferente, se você parasse com suas idéias malucas.
- A culpa não é minha se você é uma acomodada.
- Ah, e tenho culpa eu? Eu tenho culpa que você é um desorganizado? O Gabriel falou que a sua papelada ta uma bagunça, e que eu vou ter que arrumar tá?
- Detesto esse Gabriel... – uma longa baforada de cigarro – é outro capacho do chefe, sempre babando o ovo.
- Ele conquistou a posição dele, e merece estar lá, não é como você que só reclama.
- Mas é que esse serviço enche o saco! Lavar a roupa suja pra depois mandar pra cima, limpinha... Fala ai, que merda de trabalho hein?
- O meu é pior que o seu, não reclama. Sou eu que vou buscar a roupa pra você lavar. Às vezes é tranqüilo, mas às vezes ta um nojo! Não sei como esse povo consegue se tão imundo!

Ela estica os braços para o alto, toma ar e volta a falar:
- Por isso você tem que ficar na sua, estamos juntos nessa, subimos ou descemos juntos, entendeu?

Ele ri com a mão na boca.
- Eu e você... Limpamos sujeira, mas ninguém gosta da gente, por isso ficamos sempre por baixo. Sem falar que o povo adora falar mal da gente. Toda vez que acontece uma merda lá em cima, adivinha em quem eles põem a culpa?
- E eu? Quando eu chego, todo mundo faz silêncio e quando eu viro a costas, eles cochicham coisas uns pros outros...

Ele olha para o relógio e faz cara feia. Apaga o cigarro na mureta e olha para sua companheira.
- Cabo o descanso, hora de voltar pro trabalho.

Ela se levanta e apanha sua foice que estava apoiada na mureta.
- Nos vemos mais tarde... Bom serviço, Lú.
- Eu odeio quando você me chama assim!

E lá vão eles, para mais uma eternidade de trabalho.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Missão anjo da guarda: capitulo 6: Limpando a sujeira




Estávamos sentados no parapeito da varanda mal cuidada do quarto dele, não dizíamos uma só palavra pelo menos há uma hora. Às vezes trocávamos alguns olhares mão mantemos o silencio.  Não sei se ele sabia que havia um demônio dentro dele, mão certamente não era o mais prudente a ser dito.  “ Ei, garoto! Sabia que você só está vivo porque um demônio prende sua alma” Não! Com certeza não era uma boa ideia.
Minha barriga roncou.
Ele riu
–Acho que alguém está com fome.
– Talvez. – fiquei envergonhada.
– Eu conheço uma lanchonete onde costumo comer. Bem , podemos ir lá, mas só se você pagar.
Eu ri.
– Bem, espera um pouco aqui então. – me levantei e fui até meu quarto. Contei as notas e vi que não teria dinheiro por mais muito tempo.
– Lucas! – gritei o supremo dos anjos da guarda.
Um raio de luz entrou pela janela e eu senti a sua presença.
– O que foi Isabela? – ele disse nada animado. – Admito que achei que pediria por socorro em menos tempo.
– Não estou pedindo socorro, apesar de não terem me dito que havia um demônio na história. – resmunguei furiosa.
– Ah, não julguei essa parte importante. Apenas achei que merecesse uma missão a altura. – ele foi sarcástico.
– Que seja! Estou precisando de mais dinheiro. – fui direto ao assunto. – Logo a quantia que me deixou vai acabar.
– Arrume um emprego, como qualquer humano faz quando precisa de dinheiro.
– Você está brincando comigo? – só poderia ser. Caramba, eu sou um anjo!
– Não.  – ele manteve o tom sádico. – Se precisa de dinheiro arrume um emprego. Você precisa se misturar aos humanos e não há forma melhor.
Peguei a minha bolsa e sai do quarto em fúria. Como ele poderia fazer aquilo comigo? Eu não sou a droga de um humano! Sou um anjo. Um anjo!
– O que te deixou tão furiosa? – perguntou Pedro segurando o riso.
– Nada, vamos?
– Tá, vamos.
Ele saiu andando e eu o segui. Caminhamos por uns cinco minutos até chegarmos a uma lanchonete. Imagine um lugar esquisito com o letreiro caído e com poucos clientes num lugar mal freqüentado, aquilo era ainda pior.
Quando entramos os poucos fregueses que estavam lá me olharam da cabeça aos pés. Pedro se sentou próximo ao balcão e eu me sentei ao seu lado.
– Quero um x burger, com batatas e um copo de coca. E pode trazer o mesmo para gata. – ele pediu para um cara barbudo, com a cara fechada e que perecia ser a única pessoa que trabalhava no estabelecimento. Ele vestia um uniforme listrado coberto por uma camada de gordura.
Dez minutos depois ele voltou com o pedido. Pedro não fez cerimônia e deu logo uma bela mordida no sanduíche. Peguei o meu e fiquei encarando por alguns segundos, pingava uma gordura que provavelmente deveria ter sido usada e reutilizada uma centena de vezes.
– Não me surpreenderia se você morresse de AVC aos 30 anos. – disse baixinho.
– Para de reclamar e come. – ele disse.
Dei uma mordida naquilo e meu estomago revirou. De repente eu não sentia mais fome alguma.
Olhei uma placa atrás do cara onde estava escrito em uma caligrafia feia: Precisa-se de funcionários.
– Estão precisando de alguém para trabalhar aqui? – perguntei ao apontar para placa.
– Sim, por que, está interessada? – perguntou o homem ao me encarar.
– Bem... – comecei a gaguejar.
– Está contratada. – ele disse me jogando um avental engordurado.
Pedro riu.
– Acho que não é apenas eu quem precisa de um emprego. – apontei para o Pedro.
– Não, pêra ai... – ele levantou as mãos e tentou se esquivar.
– Não se esqueça de que me deve 300 reais. – lembrei a ele.
– Droga! Preferia continuar devendo ao agiota. – ele lamentou pegando um avental. – Me lembre de ficar longe de você da ultima vez, só sabe me meter em encrencas. – resmungou.
– Podem começar agora. – ele apontou para um cliente com a mão levantada.
– Deixa que eu vou. – Pedro disse se levantando e colocando o avental.
– Para você, garota, tem uma pilha de vasilhas esperando lá dentro.
Uma pilha de vasilhas? Ele quis dizer uma cozinha inteira! Tive que segurar o vômito quando vi a situação daquela cozinha. Não sabia se o pior foi o rato que correu para debaixo do fogão ou as moscas que voavam sobre a pilha com vasilhas ate no teto. Lucas, eu odeio você! Quis gritar.
Comecei a lavar as vasilhas. Senti algo passando no meu pé, não quis olhar para baixo com medo de ver o que era e querer sair correndo dali. O dono da lanchonete jogou perto de mim um esfregão e uma balde. Era muita humilhação para um dia só!!! Um anjo jogado em meio às imundices humanas, isso deveria ser proibido.
Horas depois eu me escorei no chão cansada e coberta de gordura. Olhei para a cozinha finalmente limpa.
– Ainda está viva? – perguntou Pedro ao aparecer na porta.
– Isso é um mistério. – respondi ainda cansada.
Ele riu.
– Acho que já podemos dar o fora daqui. Ele já esta fechando a lanchonete.
– Quanto tempo passei limpando aquilo? –perguntei enquanto caminhávamos lado a lado até a saída.
– Umas seis horas.
– Nossa! – eclamei.
– Vejo vocês amanha! – gritou o dono.
Fomos caminhando até o prédio. Pedro não conseguia conter o riso ao olhar para mim, descabelada e suja. Aquilo definitivamente era demais para mim.
– Amanhã eu sirvo as mesas e você limpa a cozinha. – disse jogando o avental em cima dele.

Continua...

By Ashe

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Seja bom Jonny



   Não importa em que época do tempo você se encontre, sempre haverá problemas humanos, sejam causados por eles ou não. Assassinatos, suicídios, brigas, guerras, doenças... No ano de 2020 não é diferente, quer dizer, não tanto. A tecnologia ajudou as pessoas a melhorarem um pouco mais suas vidas, enquanto os líderes mundias vestem uma máscara de paz, esperando pelo momento certo para atacar. Não é culpa deles, não mesmo, afinal, que culpa tem o presidente dos Estados Unidos se outros países menores se recusam a seguir suas ordens? Nenhuma, absolutamente nenhuma.
    Os problemas ainda afetam as pessoas de todas as maneiras de antes. Veja eu por exemplo; meus pais estão se prestes a se divorciar. Sei que isso pode te parecer bobo e infantil, mas me afeta de um modo terrível. De uns dias para cá fiquei ruim, adoeci. O médico disse que não encontrava nada de errado, no entanto eu me sinto cada vez mais fraco e desanimado. Não saí mais de casa e acabei perdendo o contato com meus amigos.      
   Eles me ligavam às vezes, mas aos poucos foram parando de ligar. Não, eles não desistiram de mim, eu quem desistiu deles primeiro.
    Quando tenho ânimo para alguma coisa, gosto de ler. Peguei raiva da televisão e do vídeo game; seu conteúdo apenas mostra uma realidade que eu sei que não existe, possibilidades que não estão ao meu alcance.
    Eu tinha uma namorada também, Pâmela. Ela era linda e muito gentil. Terminamos. Na verdade eu não sei quem terminou com quem, mas não estamos mais juntos. Quando minha depressão começou a me derrubar ela sempre estava aqui comigo, tentando me animar. Eu a via tentar de tudo e quase se desesperar perante minha situação. Ela sentia-se muito triste por não conseguir me ajudar em nada. Um dia me ligou, dizendo que era uma inútil, que não podia fazer nada por mim. Discutimos um pouco e desligamos... Ela não me ligou mais e pelo que conheço dela, deve ter esperado eu ligar, mas não liguei. Ela merece mais do que um deprimido que não reconhece o esforço dela.

    Numa noite como muitas outras, meus pais começaram a brigar feio. Eu não posso exigir que eles se deem bem, mas também não sou obrigado e ficar aqui ouvindo isso. Fugi. Abri a janela do meu quarto e pulei para fora, correndo para a rua. Eu não sabia pra onde eu iria, nem o que faria, só quis correr pra longe sem me importar com quando voltar.
Quando dei por mim, estava perto do porto da cidade. Sorri olhando os navios parados, queria vê-los mais de perto. Adentrei com cuidado, teria problemas se fosse pego ali a esta hora... Mas por que a preocupação? Não tem nada pra mim em casa.
    Andei pelo lugar, olhando o navio enorme que estava na minha frente. Tinha muita vontade de entrar nele para que me levasse embora daqui. Foi quando eu ouvi um barulho; virei-me assustado, para ver de onde vinha.
Num canto escuro, vi o que parecia ser uma pessoa, sentada no chão e encolhida. Tentei falar com ele, mas não respondeu, então me aproximei. Quando estava perto, vi que ele se levantou, me olhando assustado. Era um garoto, acho que da minha idade e um pouco mais baixo que eu. “O que faz aqui”, perguntei a ele.

-   Você veio para me levar de volta? - ele perguntou, ignorando a minha pergunta.


Levar pra onde? Pensei. Ele tava fugindo de alguém?
-   Não eu não vou te levar pra lugar nenhum, só vim ver os navios.
Ele pareceu um tanto aliviado. Aproximei-me mais.
-   Você vive nessa cidade? - ele tornou a falar, recuando um passo. 
-   Sim. Isso é um saco, detesto isso aqui, tenho vontade de pegar um navio e sumir, ou quem sabe afundar no mar.
-   Não diga isso! Você tem uma vida, não pode largar tudo assim.
-   Muito engraçado ouvir isso de um garoto que está escondido, fugindo de alguém.
    Foi assim que eu o conheci. Seu nome era E522 ,era um protótipo de androide de guerra feito pelo governo, pelo menos foi o que ele disse. Fora construído por uma empresa de armas para ser vendido para o exercito. A aparência de criança era para facilitar infiltrações e não levantar suspeitas, mas ele não queria ser uma arma, por isso fugiu. Fiquei de boca aberta ouvindo sua história. Era fantástico demais para eu acreditar; eu o olhava e não parecia ser um androide. Tinha cabelo, pele e olhos iguais ao de gente. No ano 2020 possuímos alguns androides empregados, mas todos eles possuem aparência óbvia de máquina. Claro que eu pedi para ele me provar, e ele fez. Levantou os cabelos e me mostrou uns buracos como de tomadas que existem na sua nuca. Disse-me que eram para conectar a máquinas de guerra.
    Só que não faz sentido; uma máquina que tem sentimentos? E pior, está renunciando o que está em seu programa? Era estranho, mas admito que estava gostando dessa bizarrice. Decidi aceitar a história, só pra manter a conversa.
Sentamos-nos para olhar os navios, enquanto ele continuava falando. Uma hora ele parou de falar e quis saber de mim. Meu nome, quem eu era, onde morava e por que estava ali a uma hora dessas. Contei-lhe tudo e ele ouviu em silêncio, sorrindo.

-   Que legal João – ele me disse – você tem uma família e amigos!
-   Eu tinha. Tô perdendo tudo.
-   Então faça algo. Se as coisas não estão dando certo, você não deve desistir delas, só tentar fazer de outro jeito.
-   É. Valeu, Vou lembrar disso.
    Perguntei-lhe para onde pretendia ir e ele não falou nada por um tempo. O silêncio tomou conta de nós enquanto olhávamos as embarcações.
-   Ei João – ele me chamou timidamente 
-   Me chame de Jonny. Meus amigos me chamavam assim.
-   Ok, Jonny. Você por um acaso não teria um pouco de plutônio aí com você, teria?
-   Olha robôzinho, se eu tivesse plutônio aqui no meu bolso, estaria sem perna, ou pior.
-   Eu imaginei – ele sorriu pra mim - Não se encontra isso para vender por ai não é?
    Balancei a cabeça negativamente sem entender o que se passava, foi então que ele respondeu a pergunta que eu fiz a cinco minutos atrás: Disse que não iria para lugar nenhum depois dali. Plutônio era a sua fonte de energia, era o que o mantinha funcionando. Como não tinha mais nenhum, logo estaria completamente desligado. Disse-me também que ainda tinha 3 horas de energia sobrando.
Plutônio? Então esse cara é nuclear? Pensei espantado.
-   Eu só lamento não poder ver mais do mundo, queria muito poder ver mais do que este porto. Queria poder viajar ter amigos, ter um apelido, assim como você. Mas não posso, nem que tivesse plutônio eu poderia, sou só uma máquina. 
-   Não tem como arrumar-te uma outra fonte de energia?
-   Você sabe onde e quando vai cair um raio? - ele pergunta rindo.
-   Claro que não, Por quê?
-   Preciso de algo que possa gerar uma reação nuclear de 1,21 gigawatz de energia. Pode ser plutônio, ou pode ser um raio.

É... Realmente não dá para eu fazer nada por ele. Fiquei triste, muito triste. Ele me olhou e pediu para que eu não ficasse assim, que ele não era uma pessoa de verdade.
-   Preocupe-se com as pessoas de verdade Jonny, ame-as.
    Fiquei com ele até o amanhecer. Logo que o sol começou a raiar, notei que ele estava quase parando de funcionar, era como um brinquedo quando a pilha ta fraca.
-   Logo eu vou Jonny, queria te pedir uma coisa. Poderia jogar meu corpo no mar? Eu não posso ser encontrado. Preciso afundar e me tornar esquecido.
-   Eu não vou esquecer de você.
-   Obrigado! Obrigado mesmo. Você fez valer a pena ter sido construído.
Tomei-o nos braços e caminhei para perto da água. Era incrível o quanto ele era leve, imaginei que seria muito mais pesado. Olhei seu rosto, e seus olhos estavam quase se fechando, quando ele me disse uma ultima coisa:
-   Jonny, seja bom.
    Os olhos fecharam, o corpo ficou mole. Os 1,21 gigawatz acabaram, e ele se foi. Sacudi seu corpo por um tempo, esperando que fosse apenas uma piada, mas não era. Ele não acordou.
Como prometido, joguei-o na água do mar e fiquei olhando seu corpo sumir na escuridão da água.
    Voltei para casa, pensando no robô. Ele estava certo; eu sou um ser vivo eu preciso dos outros e eles de mim. Sinto-me um completo idiota; um robô sai do nada e me ensina a viver, me mostra que a vida pode ter algo bom. Vou mudar meu jeito de pensar: não vou me esconder dos meus problemas. Vou tentar fazer tudo de um modo diferente.
Ele foi um robô, mas conseguiu me mostrar o valor da vida humana. Se ele,um robô, uma máquina de guerra, aprendeu o valor da vida humana, talvez nós também possamos aprender.
   by Kennen