domingo, 2 de março de 2014
Kaledrina - segunda parte
No dia
seguinte eu transferi minha pesquisa para esta sala; as peças do
flame pack assim como todas as ferramentas e aparelhos que iria
precisar, eu não queria sair de perto dela. Descobri que eu podia
abrir os olhos dela e deixá-los abertos; eram azuis e lindos, lhe
caiam bem. Espanei todo o pó do lugar para deixando-o mais de acordo
com uma dama e até cobri parte do chão com um tapete azul que
encontrei nos fundos da minha casa. Eu estava feliz. Minha pesquisa
fluía, eu trabalhava com muita empolgação agora, mas meus motivos
eram diferentes... Eu não estava interessado em chamar a atenção
do meu, eu apenas queria estar ali. No entanto, as vezes enquanto eu
trabalhava, eu tinha a impressão de que Kale estava olhando na minha
direção, mas sempre que eu a olhava, seu rosto estava onde eu tinha
deixado, na posição que eu a deixava: sentada com as pernas juntas
e mãos nos joelhos.
Um dia, eu trouxe uma vitrola e uns discos da Peggy Lee para
ouvir com ela. “Espero que goste do som da Peggy, Kale, ela sempre
me inspira” Sim, eu a tratava como uma pessoa de verdade. Eu sabia
que isso não era normal; conversava com ela normalmente, sabendo que
ela não responderia, mas na minha mente, eu imaginava as respostas
dela e às vezes, eu até ria sozinho disso tudo. Tinha dado a ela
status de ser humano, pior: eu não tinha vontade de interagir com
ninguém mais a não ser ela.
Liguei a vitrola com o disco da Peggy.
“Sabe, eu sou um péssimo dançarino, mas mesmo assim, concede-me
esta dança?” Eu sempre quis fazer essa pergunta, mas sempre fui
rejeitado antes de ter a chance de terminá-la. Kaledrina não em
rejeitou. Ela continuou com seu olhar estático e sorriso misterioso.
Ela não disse não, não se afastou e não atirou bebida no meu
rosto.
Tomei minha garota nos braços e brinquei de dançar com ela. Suas
pernas não eram firmes no chão, o que deixava a cena ainda mais
patética. Quer dizer, para qualquer um que visse, seria patética,
mas não para mim: eu tropeçava nos pés moles dela, mas não tirava
os olhos dos seus.
Tropecei.
Caímos no tapete, Cai sobre ela. “ Ái! Desculpa amor!”
Silenciei-me. Eu tinha mesmo chamado ela de amor? As coisas estavam
indo longe demais. Ela era uma boneca, só isso, e não uma pessoa.
Ela não era capaz de me retribuir. Nunca seria. Não parava de
pensar nisso, mas também, não saia de cima dela. Meu nariz estava
próximo ao dela, os cabelos, espalhados no chão e a boca
semi-aberta; parecia que estava esperando que eu dissesse algo, ou
fizesse algo.
“Você
é linda, Kale”. Eu a amava. A amava e me odiava por amá-la. Não
era certo. Lágrimas escorriam dos meus olhos, pensamentos de amor
por ela e ódio por mim, me bombardeavam furiosamente. Foi quando, eu
senti mão dela sobre a minha. Engraçado, eu não tinha notado que
ela caiu com a mão encima da minha até aquele momento. Seu olhar
sereno em mim e sua mão me consolando... Senti-me acolhido e
protegido. Amado. Em minha mente, ela me dizia “você sabe que não
precisa ser forte comigo”. Encostei a cabeça em seus seios e a
abracei. Naquele momento, tudo que queria era ficar ali, ouvido a
Peggy e abraçado à Kaledrina, e que o mundo fosse para o inferno.
Adormeci.
Na manhã
seguinte, acordei recebendo chutes e ouvido a risada irritante de
Manfred. “ Uther! Acorda Uther! O que é isso seu panaca?” gritou
ele. Xinguei-o e o mandei sair da minha sala, mas Manfred não é do
tipo que faz o que outros lhe pedem. “Mas que merda é essa ai no
chão? Sou namorada? Só assim para você dormir com uma mulher, se
ela for uma porra de uma boneca”. Com muito ódio, levantei e fui
para cima dele, mas infelizmente, meu irmão é mais forte que eu,
sempre foi. E sabia brigar muito bem. Ele em acertou alguns socos no
rosto e me mandou pro chão. Riu, me chamou e imprestável, o de
sempre.
Não
bastando, Manfred ergueu o vestido de Kale, zombando de mim. Ele
retirou a calcinha dela e jogou sobre mim. “ Olha só Uther! Ela
tem xaninha, você sabia? Ou será que nem da boneca você consegue
arrancar a calcinha?” Ele abriu as pernas dela, numa posição
humilhante e enfiou os dedos dentro dela. “Apertadinha!”
Nunca
senti tanto ódio por alguém na minha vida. Eu queimava de raiva,
queria muito que Manfred morresse. Gritei, fazendo força para ficar
de pé. “Eu vou te matar!” ameacei. Ele não gostou; ninguém o
ameaça. Largou Kale e veio até mim. Me agarrou pelo colarinho e
voltou a me bater, com muita raiva. Quando sua mão começou a doer,
ele me largou. “Isso não fica assim Uther. Vamos ver o que vai ser
da sua boneca. Vou me certificar de que ela vire sucata rapidinho, ou
ainda melhor, que vire brinquedinho de mendigo, afinal, mendigos
também precisam de amor!”
Saiu da
sala rindo. Estava tudo acabado. Manfred iria conseguir o que queria,
ele sempre consegue. Eu perderia Kale. Coberto de sangue, me arrastei
ate ela; estava caída de pernas abertas. Seu rostinho estava virado
para minha direção. Segurei a mãozinha dela, implorando perdão
por deixar isso acontecer. Estava muito ferido, mas precisava mudá-la
de lugar até pensar em algo. Retirei o jaleco sujo de sangue e a
joguei nas minhas costas, passando seus braços pelo meu pescoço.
Ela era mais pesada do que parecia e o fato de eu estar surrado não
ajudava; minhas pernas tremiam com o esforço.
Por um
milagre, eu a levei até a enfermaria; tinha uma salinha lá, uma
sala de tranqueiras que era pouco usada, seria um bom lugar
temporário para ela. Coloquei-a lá dentro e fechei a portinha.
Estava exausto e muito machucado. Cai na cama ali da enfermaria mesmo
e dormi...
Acordei
muito tempo depois, com a voz de um homem me chamando. Era um dos
assistentes do meu pai. “Senhor Uther, venho trazendo péssimas
noticiais. Seu irmão Manfred sofreu um acidente, senhor.” Um
acidente? O homem continuou: “ Ele caiu da escadaria do prédio,
quebrou o pescoço e... bem, ele morreu,senhor.”
Manfred
escorregou e morreu? Arregalei os olhos surpreso. Foi então que
reparei que meu rosto estava todo cheio de curativos, cuidadosamente
aplicados. O assistente pediu licença e me deixou. Sentei na cama.
Meu irmão estava morto, convenientemente morto, quando eu mais
precisava que ele ficasse quieto. E minhas feridas... Num movimento
rápido, abri a portinha secreta para procurar por Kale. Eu não
esperava vê-la, mas, lá estava ela... Do jeito que eu a deixei.
Cuidadosamente,
eu a levei novamente para a antiga sala, sobre a cadeira que ele
sempre ficava. Quando eu estava ajeitando-a para sair, notei algo que
me fez arrepiar de medo: a ponta dos dedos dela estavam sujos de
sangue. Levei as mãos à meus curativos e mais uma vez olhei seus
dedos. Não podia ser verdade.
Cobri-a
com o pano preto e apaguei as luzes. Manfred foi cremado aquela noite
mesmo. Meu pai não parava de amaldiçoar o céu e a terra pela perda
do filho favorito, nem reparou que eu estava ali todo machucado.
Naquela noite fui deitar me sentindo péssimo. Eu desejei a morte do
meu irmão e ele de fato, morreu no mesmo dia. Mas como ele poderia
ter caído da escada? Não é bem o estilo dele. O segurança disse
ter visto alguém a mais no andar uns minutos antes. Ele descreveu
como uma pessoa esguia que se movia muito rapidamente. Essa pessoa
poderia ter empurrado Manfred.
Uma
pessoa esguia com movimentos delicados. Tão delicados a ponto de
fazer curativos no rosto de uma pessoa adormecida em acordá-la?
Levantei da cama. Sai de casa correndo, precisava ir ate o
laboratório, precisava ver ela.
Quando
cheguei, estava quase morto de tanto correr. Estava também com medo;
se ela fosse uma assassina, ela poderia querer me matar agora que sei
dela? Descendo as escadas, apanhei um machado de incêndio no
caminho...
E agora
estou aqui; sobre seu corpo, olhando-a, decidindo se a destruo ou
não. E se ela for uma assassina? E se eu estiver criando um monstro?
Eu não posso arriscar a vida de outros por um egoísmo meu! Mas eu a
amo. Ela não é real, mas a amo. Ela não precisa ser real para ser
ideal.
-
Kale... me perdoe, meu amor.
Fecho os
olhos e levanto o machado. Em um golpe tudo estaria acabado. Picaria
o corpo dela e a queimaria com o flame pack e ela nunca mais
precisaria machucar ninguém.
Faço
força com o machado, mas meu braço não se mexe. Abro os olhos e a
vejo com a mão erguida, segurando o cabo do machado. Seus olhos
estão olhando-me, mas não com aquela expressão perdida de sempre.
- Meu
nome é Kaledrina – ela diz – E eu te amo muito!
Abro a
boca assustado. Isso era mesmo real? Estava acontecendo? Tento tirar
o machado da mão dela, mas ela me segura com muita força.
Puxa o
machado da minha mão e o atira no canto da sala. Afasto-me dela, com
medo. Ela levanta-se, ficando sentada, dura como um robô. Seu rosto
volta-se para mim. Ela pisca e sorri.
Com a
mão direita ela começa a desabotoar o vestido dela.
-
Ka-Kale? – estou incrédulo demais, se não fosse a dor no meu
coração de tanto correr, eu acharia que estava sonhando.
Kaledrina
ergue a mão esquerda, como se estivesse me chamando. Parecia feliz,
parecia calma e pacifica... Eu quero muito ir até ela.
Foda-se!
Engatinho até ela e seguro sua mão. Ela puxa-me gentilmente para
cima dela, me fazendo deitar sobre seu corpo. Leva minha mão até
seus seios, por entre os botões abertos. A beijo.
- Eu vou
te proteger. Se você for mesmo uma assassina, azar dos outros.
Ninguém me tira de você!
Ela abre
a boca e solta um gemido curto. Um gemido de prazer. Sua boca de
borracha sorri mais uma vez e eu torno a beijá-la.
Minha
Kaledrina.
by Kennen
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Kaledrina
Ali está
ela, caída, estática. Seu belo e delicado rosto dormia sereno. Sua
maquiagem perfeita lhe cai muito bem, criando um rosto lindo e
misterioso. O vestido dela é roxo e branco, cheio de babados, como
aqueles usados pelas mais altas condessas da cidade... e aqui estou
eu, exausto, com o coração disparado; arrastar o machado até aqui
para acabar de vez com isso, não é coisa fácil. Eu sei que devo,
mas não quero, não com ela... Caminho até seu corpo adormecido e
lhe acaricio os cabelos cacheados. Aperto o machado na outra mão,
estou suando muito...
Como foi
que as coisas chegaram a isso?
Que me
lembro já faz uns meses, não sei quantos, mas são muitos. Muitos
meses desde que a encontrei. Eu estava no laboratório da StanCorp,
trabalhando em um projeto próprio, algo para tentar impressionar meu
pai, nada mais que o dono da empresa e um dos lordes mais ricos da
Inglaterra. Sir Richard Stanford. Sou o filho mais novo dos Stanford,
e minha existência é muito ensombrada pela presença do meu irmão
Manfred. Ele é tudo que o papai sempre quis num filho, ele nunca
deixou de dizer isso para nós dois, então, esse meu projeto era uma
forma de mostrar a ele que eu também era capaz de algo... Engraçado
como naquela época eu me importava com algo a mais além dela...
Ah sim,
o flame pack! A grande idéia! Consistia de um cilindro de
metal cheio de gás acetileno preso ás costas, ligado à uma manopla
metálica por um cano de borracha. Um lança chamas mais fácil de
carregar. Eu achei mesmo que se eu construísse um desses o meu pai
repararia em mim, e ainda melhor: daria ordens para construção em
massa do mesmo. Então, todas as noites para cá eu vinha, projetar
e trabalhar nisso, como se mais nada importasse. Naquela época tudo
que eu queria era mostrar que sei fazer algo.
E assim
foram noites e noites a fio; soldando, cortando, martelando... Sabe,
trabalhar com fogo nem sempre é seguro e as vezes eu me causava
queimaduras, nada muito grave mas ainda assim, ferimentos
indesejados. Uma dessas vezes, quando fui testar a manopla com
lança-chamas, algo deu errado e ela explodiu na minha mão. Explodiu
é um modo de dizer, ela começou a pegar fogo, mas por sorte, eu
consegui tirar a tempo e os danos não foram muito grandes, o
problema era que àquela hora da noite eu estava sozinho e tive que
correr para enfermaria porque ninguém viria para me ajudar. Desci as
escadas e corri pelo corredor longo do almoxarifado até a sala dos
remédios, por que tinha que ser tão longe?
Tratei
minha mão, usei aquela pomada pra pele queimada e a enfaixei como
pude. Tive raiva de mim e dessa idéia idiota. Saí da enfermaria
batendo a porta, mas sabia que logo que a dor passasse a raiva também
passaria.
Foi
então que ouvi.
Parecia
um choro, era baixo, como um sussurro, como se alguém estivesse
tentando esconder que estava chorando. “Quem ta ai?” gritei.
Minha voz ecoou, mas não houve retorno. De fato o choro havia
sumido. Com o lampião na mão e uma chave inglesa na outra, avancei
pelo corredor. Percebi nesse momento que eu estava numa parte muito
afastada do laboratório, uma parte que eu nunca tinha estado antes.
“Você
está ai? Não vou te machucar!” disse, apesar de estar segurando
uma pesada chave na outra mão. Não houve resposta. Caminhei até
uma porta estranha; toda cinzenta e sem nenhuma indicação do que
deveria ter lá dentro. Além disso, a porta estava entreaberta o que
não é comum nesse lugar.
“Alô?”
abri a porta lentamente, deixando a luz entrar. A verdade é que eu
estava morrendo de medo. Aos poucos, abri toda a porta. Ergui o
lampião para poder ver a sala toda: muitas caixas empilhadas, todas
empoeiradas, pareciam que estavam ali há muito tempo. Esperei meus
olhos se acostumarem com aquela iluminação, quando então, notei
algo no escuro, era um pano preto cobrindo algo. Parecia uma pessoa
sentada numa cadeira. Seria ela quem eu ouvi chorando?
“Ei
você” chamei, me fazendo de valente. Nada. Não se mexia nem
falava nada. Lentamente, aproximei-me mais e com a ponta da chave,
ergui o pano... E foi quando eu a conheci. Estava sentada e amarrada
na cadeira com a cabeça caída para frente. Os cabelos eram
castanhos e cacheados e o vestido era bonito, mas antigo, roxo e
branco.
Tentei
falar com ela e esperei um tempo, olhando-a, mas não se mexia.
Toquei-a no rosto e levantei sua cabeça; sua pele era fria. O rosto
estava todo pintado como maquiagem. Os olhos estavam fechados.
Percebi então, que era uma boneca.
Soltei
as cordas dela. Porque teriam amarrado ela dessa forma? E quem será
que a trouxe para cá? Seria coisa do meu pai? Tratei de iluminar o
resto da sala, queria vê-la melhor. Era linda, quase parecia viva.
Deduzi que tinha a minha altura. Por algum tempo fiquei parado
admirando-a: o desenho do seu rosto, seus lábios pequenos e bonitos,
seu corpo... Meus olhos corriam pelo corpo dela, estava de sapatos
pretos e meias brancas e compridas. Toquei-a no rosto, não consegui
identificar do que era feita aquela pele, era macia, quase como pele
humana, mas tinha algo na textura que era diferente. Com meu dedo,
mexi seus lábios e abri sua boca: era seca, mas possuía dentes
fortes, talvez feitos de alguma liga metálica. Desci os olhos pelo
pescoço dela e inevitavelmente olhei seus seios... Não eram
grandes, mas eram perfeitos...
Estremeci.
Senti um calor correr por todo meu corpo. Nunca tive uma mulher assim
tão perto de mim. Nunca tive mulher alguma, na verdade. Não sou
bonito, não tenho bom papo, não sei dançar e não sou popular...
Isso deve explicar muito sobre mim, eu acho.
Antes
que pudesse perceber, eu estava com minha mão nos seios dela, cabia
todo na minha mão. Eram duros, mas, macios ao toque, como a pele.
Meu coração estava acelerado: meu interesse pessoal era muito maior
do que o interesse científico que eu deveria ter.
Pousei
minha mão enfaixada a sua coxa por cima do vestido e a apertei;
parecia muito real. Na verdade era tão real que eu tinha medo que
ela ganhasse vida a qualquer momento. Gentilmente, se é que isso é
possível, deslizei minha mão para baixo do vestido dela, apalpando
o interior daquelas coxas macias e frias. Logicamente, minha mão
subiu um pouco mais... Fiquei surpreso ao sentir que ela estava
vestindo calcinha. Se bonecas pequenas vestem, porque as grandes não?
Aquele
foi o momento mais erótico que tive em toda minha vida, eu estava
elétrico e mais quente do que a fornalha de uma locomotiva, mas ao
mesmo tempo sentia o coração pesar; ela estava ali parada sem poder
se defender dos meus assédios. Era só uma boneca, mas eu me sentia
um canalha. E eu não sou assim, nunca fui. Beijei-a.
Grudei
meus lábios aos lábios de borracha dela, aliciando suas intimidades
artificiais. Meu coração estava agitado como um motor à vapor,
pela primeira vez eu senti êxtase completo. Meus beijos faziam a
cabeça dela pender para trás, então usei a mão que estava em seus
seios para segura-la pela nuca, igual àquelas historias de amor.
Com
muito cuidado, enfiei a mão por trás de seus cabelos e a segurei
para dar mais apoio ao meu beijo, quando então senti algo. Letras.
Uma palavra gravada em sua nuca. Minha curiosidade foi muito grande,
seria um nome? Uma data? Parei o beijo para olhar; afastei seus
cachos castanhos e li uma palavra quase apagada: Kaledrina.
Seria
seu nome? Pensei. Ou quem sabe o nome de uma antiga dona...
Kaledrina. Um nome diferente. Deve ser estrangeiro. Diferente mais
muito bonito, assim como ela.
“Vou
chamá-la de Kale” disse a ela, como se ela fosse entender. “Você
gosta?” sem resposta, claro.
CONTINUA...
by kennen
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
A travessia parte III
Eveline deu um passo para trás
ainda encarando o homem parado há alguns metros de nós. Ela olhava para o rosto
dele ainda incrédula
– Não pode ser... – a ouvi
murmurar.
– Eveline... – pronuncie seu nome
baixinho. – É um assunto complicado.
Hoan riu.
– Olá, cunhada. – ele surgiu ao
lado dela pegando-a de surpresa. – Obrigado por dar ao meu irmão um ponto
fraco. – ele colocou uma adaga apontada contra o pescoço dela.
– Fique longe dela! – rosnei.
– Ou o que? – Hoan me desafiou.
Eveline suava frio com a adaga
apontada contra a pele frágil do seu pescoço. Seus olhos estavam voltados para
mim e clamavam por socorro.
Encarei o meu irmão, que exibia um
sorriso sarcástico nos lábios. Eu sabia muito bem do que Hoan era capaz e temi
pela vida da minha namorada. Porém, meu irmão também me conhecia bem.
– Eu disse para ficar longe dela! –
falei ao surgir na frente dele e o atingir com um chute que o fez voar contra a
parede da caverna e lançar a adaga longe.
Eveline me encarou com uma grande
interrogação no rosto. Não acreditava no que eu havia feito. Mal fazia ela
ideia do quão rápido eu era capaz de me mover.
Hoan começou a rir enquanto se punha
de pé e limpava a poeira das vestes negras.
– Confesso: achei que você
estivesse enferrujado. – ele ainda ria. – Faz quanto tempo desde a última vez
que trinamos juntos, cinco anos? – seus olhos meu fitaram profundamente. – Cinco
anos, época em que você ainda não era um traidor.
– Eu não sou
um traidor! – gritei alto.
– Ah não? – Ele perguntou
sarcástico . – Até onde eu me lembrava esse era o nome que davam para aqueles
que abandonavam a sua própria família para se juntar ao lado inimigo. Fico
imaginando o quanto a mamãe estaria decepcionada se visse no quer você se
tornou. Uma simples marionete dos nossos inimigos...
– Não fale da nossa mãe. – eu
estava furioso. – Ela jamais aprovaria a Nova Ordem.
– Muito pelo contrário, ela se
orgulharia de nós, por termos feito do mundo um lugar melhor...
– Cala a boca! – berrei acertando
o meu irmão com um soco no rosto. Eu ha estava farto daquela ladainha do Hoan.
Ele foi arremessado mais uma vez
contra a parede da caverna. Levantou massageando a bochecha atingida.
– Tudo bem, você quer resolver as
coisas desse jeito para mim tudo bem. – Ele partiu para cima de mim me
acertando com um golpe na boca do estômago e me fazendo voar.
– Noah! – Eveline berrou correndo
na minha direção.
– Fica fora disso, traidora número
dois. – advertiu Hoan. – Meu irmão e eu temos alguns assuntos pendentes.
Ela olhou para mim extremamente
preocupada.
– Eu vou ficar bem. – prometi a
ela ao me levantar.
Parti para cima do meu irmão que
se defendeu do meu golpe. Ele deferiu um chute contra o meu peito, mas eu me
esquivei.
– Como nos vemos tempos. – ele
murmurou.
Rodei a espada na mão e me
coloquei em uma posição confortável. Ele gritou e partiu para cima de mim
novamente. O chocar das espadas produzia um barulho agudo quase ensurdecedor.
– Pelo visto você não perdeu a
prática. – meu irmão provocou.
– Aprendi coisas novas. – ameacei.
Girei e deferi um golpe de espada
contra ele, fazendo com que perdesse o equilíbrio e cabalasse para trás. Ele aproveitou a deixa e se agachou me dando
uma rasteira e fazendo com que eu caísse contra o chão. Eu me defendi como pode
dos seus golpes de espada e rolando para o lado.
Seus olhos me encaram com ódio
quando se preparou para me dar um golpe final. Meu coração disparou...
Mas... De repente ele tombou e
caiu para o lado e eu pode ver Eveline parada atrás dele segurando uma pedra
com uma das mãos.
– Precisamos amarrá-lo, antes que
acorde. – ela foi logo dizendo.
Peguei umas cordas dentro da
mochila e marrei o meu irmão, ainda desacordado, a uma pedra.
– Você tem muitas coisas para me
explicar. – Eveline me fuzilou com o olhar.
– Eu sei. – disse de cabeça baixa.
– Nem sei por onde começar.
– O inicio é sempre uma boa.
– Bem, Hoan e eu somos irmãos
gêmeos como você percebeu. – comecei a dizer. – Desde pequenos fomos treinados
para nos tornar assassinos da ordem. Nosso pai é o Klaus...
– O líder supremo da ordem?! – ela
engoliu seco.
– Sim... – lamentei. – Nossa mãe
morreu quando ainda éramos bem pequenos. Pouco depois do congelamento da terra,
ela não concordava com a ideia de um governo ditatorial quando meu pai era
apenas um membro da cúpula governante do mundo. Pouco depois que ela se foi meu
pai assumiu o controle de tudo e transformou tudo no que vemos hoje... – dei
uma breve pausa. - Eu era apenas um fantoche que cumpria ordens, assim como meu
irmão. Mas quando me dei conta de quanto mal estava fazendo principalmente
àqueles mais fracos eu abandonei a cúpula da Nova Ordem e me juntei à resistência,
na luta contra o mau que a minha família causava...
Encarei Eveline, ela não disse
nada. Estava chocada demais para fazê-lo, eu não esperava reação diferente.
– Precisamos sair daqui. E levar
os cristais. – eu disse. – Antes que meu irmão acorde e traga uma exercito para
cá. Termino essa historia em outro momento.
Sacudi a poeira da minha roupa e caminhei para
dentro da caverna. Demos de cara com um
ambiente quase indescritível, de beleza singular. Os cristais revestiam as
paredes o chão e o teto, criando um jogo de luzes esplêndido.
– Uau! - Eveline exclamou. – Como
é lindo.
Peguei uma bolsa e enchi a com
aqueles cristais.
– Vamos dar o fora daqui. – disse
a Eveline ao puxar-la pela mão.
– Mas e o seu irmão? – ela se
voltou para ele, interrompendo a nossa saída.
– Ele sabe se virar sozinho. E eu
que não quero estar por perto quando ele acordar...
Continua...
By Ashe
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Jenny Jenny
O nome
dela é Jenny Taylor, e o que eu vou contar é verdade. Jenny sempre
teve uma vida muito boa, seu pai, político de sua cidade, tinha
muito amigos influentes, logo, era um homem que ganhava muito
dinheiro. Ela sempre foi uma bonequinha, cabelos castanhos e
ondulados, pele clara e olhos azuis, o orgulho da mamãe, a
princesinha do papai.
Aquele ano tinha tudo para ser o
melhor, o pai da garota estava concorrendo à prefeito da cidade e ao
que indicavam as pesquisas que as chances dele ganhar eram muito
grandes. As pesquisas não se enganaram e logo, Jenny e sua família
subiram no patamar de poder mais alto da cidade, eram agora ricos e
importantes.
Dois meses mais tarde, Jenny
completaria 12 anos, sendo agora uma “mocinha” como diz a mamãe,
e para comemorar, seu pai decidiu leva-la para passar um feriado na
fazendo da família, para ensina-la a caçar. Os Taylor tinha
tradição na caçada, todos seus membros são acostumados à armas,
munições e troféus de caça, e a pequena Jenny, não seria
diferente. Na sexta feira, depois da escola, pai e filha estavam a
caminho da fazenda, para darem início as aulas de caça da nova
caçadora.
Assim que chegaram, a menina foi
correndo desfazer suas malas, pois tinha comprado muitas roupas de
caça, e queria poder ter tempo para escolher a melhor roupa para sua
primeira caçada. Enquanto arrumava suas coisas em seu quarto, o
senhor Taylor fazia umas ligações de celular.
- Papai,
essa roupa ficou boa em mim? - pergunta ela dando uma votlinha.
- Sim
querida, ficou muito linda em você. -respondeu, sem dar muita atenção.
Algumas horas mais tarde, Jenny ouviu
barulho de carros do lado de fora e correu para a janela, ver quem
era; não esperava que receberiam visitas. Desceu as escadas,
querendo saber quem eram as pessoas que chegavam.
- Quem
chegou?
- Só
uns amigos meus bem, eles querem caçar também.
Um homem alto de bigode entrou na casa
e fui cumprimentar o senhor Taylor. Jenny o olhou bem, tinha a
impressão de conhece-lo. Sim, conhecia, era o delegado da sua
cidade, não é a toa que era amigo do seu pai, o prefeito e o
delegado andam sempre juntos. Ela ignorou a presença do delegado ali, até que mais carros chegaram...logo ela estava sozinha com
cinco homens, sendo eles, seu pai, o delegado e mais três que ela
não conhecia...A pequena Jenny começou a sentir-se desconfortável
naquela casa.
Os
homens mais poderosos da cidade estavam ali na fazenda, e no meio
deles uma única garota sozinha...caçar? Que nada...os planos
daquele pai diabólico para seu filha não tinham nada a ver com
caçada, pelo menos, não para ela. Um a um, eles abusaram do corpo
da garota em seu quarto, enquanto seu pai filmava tudo...Ela chorou e
implorou para que parassem, mas não deu certo, seus gritos e suas
súplicas causam apenas risos dos homens. Seus olhinhos olhavam para
o pai, implorando por ajuda...mas ele apenas dizia “você está
ótima querida”. Após horas, a largaram caída no sofá, com sangue escorrendo entre as pernas e marcas de mordida por toda parte.
Primeiro ela pensou em pedir
ajuda...mas para quem? Para a polícia? Toda a lei e ordem da sua
cidade estava ali, abusando do seu corpo...tentou falar com a mãe,
mas esta sempre fingia que não ouvia ou que não entendia...ela não
tinha a quem recorrer...
Todo feriado lá se iam eles “caçar”,
sempre os mesmos amigos, sempre a mesma desculpa e sempre a mesma
frase “você está ótima querida”. A garota aguentou o quanto
podia, rezava todas as noites para isso parar...Três anos se
passaram nessa situação, Jenny agora tinha 15 anos. Morria de
tristeza e vergonha a cada aniversário...queria tanto ser uma garota
normal e não ter que passar por esse tipo de coisa...mas vai saber
quantas de suas amigas também se encontram numa situação assim?
Eu
estava sempre por perto...pressentia que algo iria acontecer. Certa
vez, eu me aproximei dela, enquanto ela olhava-se no espelho. Seu
rostinho triste e pensativo procurava desesperadamente por uma
solução para seu problema infernal. De vez em quando, enquanto eu a
observava, ela virava para trás, como quem procura por alguém, ou
algo...Será que ela esta sentindo minha presença? Se sim...isso não é bom, não
mesmo.
Na
noite que fez quinze anos, Jenny decidiu acabar com isso de uma vez
por todas. Todas as suas amigas falavam sobre beijar meninos e ela só conseguia pensar em como não ser abusada a cada feriado. Já chega, pensou.Trancou-se no banheiro e com uma lâmina de barbear
começou a se cortar nas veias dos pulsos. Viu seu sangue espirrar e
por um momento sentiu medo. Sua vida escapava de suas veias
lentamente...sentiu frio, sentiu fraqueza...tudo ficou escuro.
Eu
deveria estar do lado dela nessa hora, com minha mão em seu ombro, mas eu não estava, eu não
precisei.
Horas
mais tarde, Jenny acordou no hospital com os braços enfaixados,
tivera sido salva a tempo pela empregada da casa.
Eu a olhei bem nos olhos quando ela
acordou e notei que parecia feliz...feliz por estar viva, por algum
motivo, estava feliz por não ter morrido.
O ser humano foi feito
para viver, e não morrer. A morte é uma consequência, algo
natural, mas não um objetivo. Não importa o quanto se deseje a
morte, o corpo nunca quer morrer, ele não foi feito para isso...E
quando finalmente se alcança a morte, as pessoas percebem o quanto a
temem. Todos temem à morte, mas alguns mentem para si mesmos e para os outros.
Depois disso ela se recuperou e fugiu
de cidade. Cortou e pintou o cabelo, mudou de nome, arrumou um emprego numa casa
noturna e foi morar com um namorado. Nunca mais tentou se matar. Não
tente apressar as coisas Jenny, nós vamos nos ver um dia, no curso
natural das coisas. Como devem ser sempre.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Nolan
Era a
segunda vez que os pesadelos não o deixavam dormir. Primeiro, via-se
correndo em um lugar escuro, frio e úmido. Depois, sentia que mãos
o alcançavam e marcavam todo o seu corpo com unhas enormes que lhe
rasgavam a pele. Podia sentir que algo o estava estraçalhando tanto
por fora como por dentro.
Sua pele queimava e não havia como pedir ajuda, aliás, não havia
mais ninguém no sonho, a não ser ele e a criatura.
Pingando
suor, retirou sua camisa, engoliu três comprimidos e secou até a
última gota de um copo com água. Suas mãos ainda tremiam e a
respiração estava ofegante.
Já mais
calmo resolveu fazer algo que o mantivesse acordado pelas duas horas
que lhe faltavam para ir trabalhar. Ligou a televisão e se deparou
com um filme que o prenderia até que anoitecesse.
As oito
da noite Nolan está preparando mais uma dose do tranquilizante. Em
sua bandeja há duas seringas prontas para uso, alguns comprimidos e
copos com água. As paredes brancas da sala são substituídas por um
longo corredor amarelado no qual uma fileira de portas enumeradas se
estende. O lugar cheira a remédios e desinfetante. Ele está ali a
apenas dois meses e era responsável pelos pacientes do décimo
segundo andar. Antes de prosseguir pelo corredor ele apaga o cigarro
e coloca a caixa de fósforos no bolso da calça.
Sons de
grunhidos são emitidos por de trás de cada uma das portas.
O número
um, pintado com uma tinta escura, aparece sob a visão de Nolan. Ele
entra. Sua primeira paciente do dia, uma senhora, código 19B. Está
aqui a mais de sete anos, foi usada muitas vezes como critério
padrão de avaliação, pois pelo que ele sabia, ela foi uma das
primeiras em quem o tal tratamento surtiu algum efeito.
Nolan
encontra a senhora dormindo em sua maca, mas era hora dos
medicamentos, ela precisaria acordar. Chamou um pouco baixo, mas
vendo de que nada adiantava ele a tocou na pele amarelada do seu
braço. Ela grunhiu e se mexeu alguns centímetros em sua maca, não
muito, pois faixas estava atadas em seus braços. Já com os
comprimidos preparados, ele os coloca na boca da mulher e ergue o
copo com água até os seus lábios.
E por
todas as portas Nolan entrou e saiu esvaziando sua bandeja. Restava
apenas um quarto, o 27. Existiam mais três quartos após o vinte e
sete, mas estavam vazios. Não se sabia exatamente o que havia
acontecido com os ocupantes dos quartos e comentários não eram
autorizados.
Ao passar
o cartão magnético a porta do quarto 27 não se abriu. Alguma coisa
barrava o deslocamento. Nolan tentou empurrar, mas o metal não se
moveu. Chamou outro enfermeiro. Os dois juntos arredaram a porta e ao
entrar perceberam que todas as coisas que havia no quarto estavam
formando uma espécie de barreira contra a porta metálica.
Ao
contrário dos outros quartos, este estava escuro, as lâmpadas
provavelmente estavam queimadas, pensou Nolan. Assim que seus olhos
se habituaram a penumbra, notou um homem encolhido no canto. Suas
roupas estavam rasgadas e a respiração entrecortada.
O outro
enfermeiro que acompanhava a cena se aproximou e chamou o senhor por
seu código. Nenhuma resposta. Resolve então se aproximar mais um
pouco e quando o faz, os dois ouvem uma espécie de grunhido agudo e
num instante seguinte um barulho ensurdecedor toma conta do lugar.
Nolam corre para buscar outros enfermeiros, mas assim que se move ele
vê um par de olhos amarelos brilhantes que o observa na escuridão.
Ele
começa a andar para trás, mas no momento seguinte a porta se fecha,
trancando-os dentro do quarto. Escuta um grito e som de ossos sendo
quebrados. Sente que algo quente espirrou em seu rosto. E depois de
algum tempo não escuta barulho algum. A porta então é destravada e
Nolan sai do quarto, ele corre e pensa em pedir ajuda.
Pelo
caminho ele percebe que outras portas estão entreabertas. Em algumas
delas, filetes de sangue escorrem e formam poças pelo corredor.
Assim que alcança a saída para a sala dos funcionários percebe que
já não havia mais ninguém ali, a não ser ele e aquilo que agora
estava solto pelo prédio de quatorze andares.
Os
elevadores não funcionavam. Faltava energia no prédio inteiro.
Nolan descia as escadas o mais depressa que conseguia enquanto ouvia
o barulho do impacto de diversos objetos nas paredes dos andares que
continham pacientes.
Não
havia percebido que estava segurando a seringa de tranquilizante e
assim que desceu outro degrau, suas pernas cambalearam fazendo-o
rolar por um pequeno lance de escadas até que suas costas bateram na
porta de saída para o andar. Sentiu uma fincada na perna, um líquido
viscoso escorreu em gotas por sua calça. A agulha havia entrado e
comprimido o êmbolo.
Não
notou diferença alguma durante certo tempo, mas com receio de que
não conseguisse sair do prédio antes que o efeito passasse, ele
decide continuar a descer as escadas. Após alguns degraus, Nolan
sente uma náusea muito forte, fosse o que fosse, o conteúdo daquela
seringa não era nenhum tranquilizante. Ele cai e escorrega batendo a
cabeça. Seu corpo empurra uma porta e agora ele está estendido no
que provavelmente era a entrada para um dos andares.
Ele não
consegue se erguer, pois algo está dentro de seu corpo e o faz ficar
imóvel por alguns minutos. Logo depois, uma dor aguda lhe corta o
peito e se espalha pelo resto do corpo. Assim que conseguiu se mexer,
Nolan se encolhe no chão frio e pegajoso, parecia haver algum tipo
de gosma espalhado pelo piso.
Arrastando-se
ele encontra um local para se apoiar. Percebe que se trata de uma
bancada, provavelmente a do laboratório do sétimo andar. Toca em
alguns frasco e isso faz com que vidros se espatifem no chão. Poucos
segundo se passaram até notar que a criatura havia escutado o
barulho, pois assim que conseguiu se concentrar, ele percebe algo se
movendo pela tubulação de ar.
A
criatura vinha rápido demais, pois o som estava ficando próximo.
Ele precisava continuar a descer ou acabaria morto como os outros.
Tateando pelas paredes e bancadas, Nolan encontra uma espécie de
portinha. Empurra e nota alguns furos que permitem a passagem de
feixes de luz.
Tenta
colocar sua cabeça e depois os ombros. Por ali seria possível
passar e provavelmente ir para fora do prédio.
Um ruído
chega ao teto do laboratório e Nolan sente que a tubulação está
tremendo. De repente ouve um estalido metálico e algo cede do teto
do lugar. Provavelmente a criatura já estava se preparando para
pular e ataca-lo.
Precisa
sair dali o mais depressa possível, mas poderia ser agarrado
enquanto tentasse se enfiar na passagem. Algo cai do teto e ele
escuta uma espécie de respiração seguida pelo cheiro da criatura.
Ela devia estar a uns três metros dele, mas mesmo assim dava para
ouvir seus grunhidos roucos e baixos.
Se
tentasse sair agora, a criatura o pegaria, mas não podia ficar
imóvel para sempre sem fazer ruídos. Sua chance dependia de parar
aquele monstro de vez.
Seu corpo
ainda queimava por dentro e cada vez mais era possível sentir o
efeito daquela substância. Não conseguia pensar direito, mas a
única ideia que teve tinha que dar certo. Sem fazer nenhum barulho,
ele arrasta a mão pela parede e logo encontra o que precisava.
Agindo
rápido ele pega uma caixinha no bolso da calça e quebra a mangueira
do gás. A criatura começa a se mover em sua direção. Nolan abre a
válvula e se ajoelha, enfia suas pernas na passagem. A criatura
corre na direção dele e pula. Nolan senti a respiração próxima
ao seu rosto e se encaixa dentro da passagem.
A garra
da criatura alcança parte do seu rosto e rasga sua pele. Mais do que
depressa, Nolan acende o fósforo e a última visão que tem é a de
uma mão enorme com garras afiadas. Se empurra mais para trás e joga
o palito. A criatura ainda tenta abrir o metal da passagem com as
garras, mas já era tarde. Nolan empurra seu corpo mais para dentro e
começa a cair pelo tubo.
Enquanto
cai, ele escuta o som de urros e explosões acima dele. Algumas
paredes se quebram com a explosão, isso faz o prédio começar a
desmoronar. Muito pó entra pelas narinas de Nolan ao sofrer um baque
contra o chão, fazendo-o perceber que está no incinerador no porão
do prédio, pois o cheiro de cinzas e plástico queimado é
inconfundível.
No meio
das cinzas ele se arrasta, mas antes que tente escapar, o prédio
rui. Ele não sabe quanto tempo passou até que finalmente conseguiu
sair do meio de alguns blocos. Por sorte o incinerador havia
suportado todo o peso das vigas metálicas. Se esquivou de alguns
escombros e conseguiu sair. Ao colocar a cabeça para fora ele viu
algumas viaturas pela rua. Um policial que o viu ajudou-o a sair.
Enquanto
estava deitado dentro de uma das viaturas, Nolan retira a agulha da
seringa quebrada em sua perna. Ao erguer a cabeça, vê um dos
polícias que havia lhe feito algumas perguntas conversando com
alguém dentro de um carro preto com vidros escuros. Lodo depois, o
policial o ajuda a sair da viatura e a porta do carro é aberta.
---
Luzes
fortes estão sobre seus olhos. As paredes brancas espalham a
claridade ainda mais. Seus olhos doem. Escuta a voz de alguém, uma
mulher. As luzes são apagadas e ele consegue abrir os olhos. Não se
lembra de como veio parar ali e nem o que aconteceu. Lembra-se do seu
nome, mas não sabe quem é.
Um objeto
plano e liso é posto na sua frente. Nele há a imagem de alguém ou
alguma coisa. Um ser que se parece com um homem, mas com a pele
amarelada e pálida, longas cinco marcas de cicatriz estendem-se por
seu rosto, a boca está torcida e rasgada e os olhos estão dourados.
Em seu corpo há várias marcas arroxeadas e os braços são cobertos
por ataduras que cobrem uma pele grossa. As mãos possuem garras e
são contorcidas. Antes de concluir a ideia de que era ele refletido
naquela imagem algo o acerta e seus olhos se fecham novamente.
A visão
do espaço onde a nova criatura agora se formava era assustadora. Em
seu leito ela está tranquilizada até que os homens continuem a
prepará-la. Na grade a frente da cama surge uma placa metálica e um
número. 06F, unidade de destruição.
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Serviço Público
- Eu posso, se eu quiser. – falou ele.
- Você sabe que não pode. – respondeu ela.
- Eu posso muito mais do que você pensa. Quer apostar?
- Seria interessante, mas eu não to a fim de levar bronca por
sua causa.
- Por isso você ainda faz o que faz e nunca sobe de posto.
Quanto tempo você trabalha pra ele?
- Uma eternidade! – responde ela, rindo.
Ela estava sentada em uma mureta, balançando os pés e ele estava
ao seu lado, apoiado na mureta com os cotovelos. Ambos estavam em
horário de descanso. Gostavam de alfinetar um ao outro, era seu
passatempo favorito, mesmo que às vezes, ele perdesse a paciência e
a ofendesse de verdade. Ele era alto, loiro e bonito, ela era baixa e
de cabelos pretos. Estavam descansando, olhando o movimento na rua.
- Você gosta mesmo desse trampo de bosta?
- Claro que sim. Paga bem e o horário de descanso é o bastante.
Ele solta um grunhido que mal chegou a se tornar uma palavra. Acende
um cigarro e dá uma tragada.
- Você se contenta muito facilmente, não tem ambição e sempre
abana o rabinho pro chefe, como um cachorrinho.
- E você sempre quer fazer tudo do seu jeito, se estrepa, fica de
mau humor... E depois eu tenho que agüentar o chefe brigando e o sua
cara de azedo.
- Eu sei das coisas, ok? – ele levanta a voz, demonstrando
irritação. – Pelo menos não sou uma baixinha submissa. Eu quero
subir! Fazer mais do que isso, porque sei que mereço.
- Você esquece que ele é quem manda e é ele quem decide quem sobe
e quem desce. O chefão dá as ordens e nós, os funcionários de
serviço público, obedecemos. A gente podia estar fazendo coisa
diferente, se você parasse com suas idéias malucas.
- A culpa não é minha se você é uma acomodada.
- Ah, e tenho culpa eu? Eu tenho culpa que você é um
desorganizado? O Gabriel falou que a sua papelada ta uma bagunça, e
que eu vou ter que arrumar tá?
- Detesto esse Gabriel... – uma longa baforada de cigarro – é
outro capacho do chefe, sempre babando o ovo.
- Ele conquistou a posição dele, e merece estar lá, não é como
você que só reclama.
- Mas é que esse serviço enche o saco! Lavar a roupa suja pra
depois mandar pra cima, limpinha... Fala ai, que merda de trabalho
hein?
- O meu é pior que o seu, não reclama. Sou eu que vou buscar a
roupa pra você lavar. Às vezes é tranqüilo, mas às vezes ta um
nojo! Não sei como esse povo consegue se tão imundo!
Ela estica os braços para o alto, toma ar e volta a falar:
- Por isso você tem que ficar na sua, estamos juntos nessa, subimos
ou descemos juntos, entendeu?
Ele ri com a mão na boca.
- Eu e você... Limpamos sujeira, mas ninguém gosta da gente, por
isso ficamos sempre por baixo. Sem falar que o povo adora falar mal
da gente. Toda vez que acontece uma merda lá em cima, adivinha em
quem eles põem a culpa?
- E eu? Quando eu chego, todo mundo faz silêncio e quando eu viro a
costas, eles cochicham coisas uns pros outros...
Ele olha para o relógio e faz cara feia. Apaga o cigarro na mureta
e olha para sua companheira.
- Cabo o descanso, hora de voltar pro trabalho.
Ela se levanta e apanha sua foice que estava apoiada na mureta.
- Nos vemos mais tarde... Bom serviço, Lú.
- Eu odeio quando você me chama assim!
E lá vão eles, para mais uma eternidade de trabalho.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Missão anjo da guarda: capitulo 6: Limpando a sujeira
Estávamos sentados
no parapeito da varanda mal cuidada do quarto dele, não dizíamos uma só palavra
pelo menos há uma hora. Às vezes trocávamos alguns olhares mão mantemos o
silencio. Não sei se ele sabia que havia
um demônio dentro dele, mão certamente não era o mais prudente a ser dito. “ Ei, garoto! Sabia que você só está vivo
porque um demônio prende sua alma” Não! Com certeza não era uma boa ideia.
Minha barriga
roncou.
Ele riu
–Acho que alguém
está com fome.
– Talvez. –
fiquei envergonhada.
– Eu conheço
uma lanchonete onde costumo comer. Bem , podemos ir lá, mas só se você pagar.
Eu ri.
– Bem,
espera um pouco aqui então. – me levantei e fui até meu quarto. Contei as notas
e vi que não teria dinheiro por mais muito tempo.
– Lucas! –
gritei o supremo dos anjos da guarda.
Um raio de
luz entrou pela janela e eu senti a sua presença.
– O que foi Isabela?
– ele disse nada animado. – Admito que achei que pediria por socorro em menos
tempo.
– Não estou
pedindo socorro, apesar de não terem me dito que havia um demônio na história. –
resmunguei furiosa.
– Ah, não julguei
essa parte importante. Apenas achei que merecesse uma missão a altura. – ele foi
sarcástico.
– Que seja! Estou
precisando de mais dinheiro. – fui direto ao assunto. – Logo a quantia que me
deixou vai acabar.
– Arrume um
emprego, como qualquer humano faz quando precisa de dinheiro.
– Você está
brincando comigo? – só poderia ser. Caramba, eu sou um anjo!
– Não. – ele manteve o tom sádico. – Se precisa de
dinheiro arrume um emprego. Você precisa se misturar aos humanos e não há forma
melhor.
Peguei a
minha bolsa e sai do quarto em fúria. Como ele poderia fazer aquilo comigo? Eu não
sou a droga de um humano! Sou um anjo. Um anjo!
– O que te
deixou tão furiosa? – perguntou Pedro segurando o riso.
– Nada,
vamos?
– Tá, vamos.
Ele saiu
andando e eu o segui. Caminhamos por uns cinco minutos até chegarmos a uma
lanchonete. Imagine um lugar esquisito com o letreiro caído e com poucos
clientes num lugar mal freqüentado, aquilo era ainda pior.
Quando entramos
os poucos fregueses que estavam lá me olharam da cabeça aos pés. Pedro se
sentou próximo ao balcão e eu me sentei ao seu lado.
– Quero um x
burger, com batatas e um copo de coca. E pode trazer o mesmo para gata. – ele pediu
para um cara barbudo, com a cara fechada e que perecia ser a única pessoa que
trabalhava no estabelecimento. Ele vestia um uniforme listrado coberto por uma
camada de gordura.
Dez minutos
depois ele voltou com o pedido. Pedro não fez cerimônia e deu logo uma bela
mordida no sanduíche. Peguei o meu e fiquei encarando por alguns segundos,
pingava uma gordura que provavelmente deveria ter sido usada e reutilizada uma
centena de vezes.
– Não me surpreenderia
se você morresse de AVC aos 30 anos. – disse baixinho.
– Para de
reclamar e come. – ele disse.
Dei uma
mordida naquilo e meu estomago revirou. De repente eu não sentia mais fome
alguma.
Olhei uma
placa atrás do cara onde estava escrito em uma caligrafia feia: Precisa-se de funcionários.
– Estão
precisando de alguém para trabalhar aqui? – perguntei ao apontar para placa.
– Sim, por
que, está interessada? – perguntou o homem ao me encarar.
– Bem... –
comecei a gaguejar.
– Está
contratada. – ele disse me jogando um avental engordurado.
Pedro riu.
– Acho que
não é apenas eu quem precisa de um emprego. – apontei para o Pedro.
– Não, pêra ai...
– ele levantou as mãos e tentou se esquivar.
– Não se esqueça
de que me deve 300 reais. – lembrei a ele.
– Droga! Preferia
continuar devendo ao agiota. – ele lamentou pegando um avental. – Me lembre de
ficar longe de você da ultima vez, só sabe me meter em encrencas. – resmungou.
– Podem
começar agora. – ele apontou para um cliente com a mão levantada.
– Deixa que
eu vou. – Pedro disse se levantando e colocando o avental.
– Para você,
garota, tem uma pilha de vasilhas esperando lá dentro.
Uma pilha de
vasilhas? Ele quis dizer uma cozinha inteira! Tive que segurar o vômito quando
vi a situação daquela cozinha. Não sabia se o pior foi o rato que correu para
debaixo do fogão ou as moscas que voavam sobre a pilha com vasilhas ate no
teto. Lucas, eu odeio você! Quis gritar.
Comecei a
lavar as vasilhas. Senti algo passando no meu pé, não quis olhar para baixo com
medo de ver o que era e querer sair correndo dali. O dono da lanchonete jogou
perto de mim um esfregão e uma balde. Era muita humilhação para um dia só!!! Um
anjo jogado em meio às imundices humanas, isso deveria ser proibido.
Horas depois
eu me escorei no chão cansada e coberta de gordura. Olhei para a cozinha finalmente
limpa.
– Ainda está
viva? – perguntou Pedro ao aparecer na porta.
– Isso é um
mistério. – respondi ainda cansada.
Ele riu.
– Acho que
já podemos dar o fora daqui. Ele já esta fechando a lanchonete.
– Quanto
tempo passei limpando aquilo? –perguntei enquanto caminhávamos lado a lado até
a saída.
– Umas seis
horas.
– Nossa! –
eclamei.
– Vejo vocês
amanha! – gritou o dono.
Fomos caminhando
até o prédio. Pedro não conseguia conter o riso ao olhar para mim, descabelada
e suja. Aquilo definitivamente era demais para mim.
– Amanhã eu
sirvo as mesas e você limpa a cozinha. – disse jogando o avental em cima dele.
Continua...
By Ashe
Postado por
Unknown
às
17:23
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