domingo, 16 de março de 2014

Imortal



Duas da manhã.
Droga!
Ainda não posso parar. Tenho que terminar....Tenho!!!
Com os pensamentos voltados para sua mais recente aventura, Carlos não se importava com os ponteiros do relógio que teimavam em percorrer aquela mesma monótona circunferência de sempre.
As ideias surgiam em sua mente como folhas e mais folhas de um roteiro pronto esperando para ser lido. A criatividade no auge, tudo para que aquela fosse sua obra prima, seu momento máster de uma carreira que até hoje não havia ultrapassado a condição transcendental esperada por muitos que a seguiam.
A história, cujas letras eram marteladas num teclado, era inspirada naquilo que mais impulsionava Carlos a escrever. E todas as noites ele dedicava seu tempo para aquela exaustiva, mas compensatória atividade.
Seus dedos eram como máquinas e a mente estava a mil. Tudo o que ele sentia era o som que as palavras produziam dentro de si como se fossem parte de seu próprio organismo. Eram vivas as ideias que se projetavam de sua cabeça e quase palpáveis.
E assim, aquela dança com as palavras e ideias se prolongou até que a noite se fez dia e o dia se fez noite novamente. Não sabia exatamente que horas eram, mas quem se importava com aquilo? Não se lembrava do dia, do sono, do banho, da comida, não se lembrava de nada, a não ser de suas preciosas palavras.
E cada vez que se levantava para fazer algo ou comer alguma coisa, ele se lembrava de seu livro. Não queria abandona-lo, não tinha forças para deixa-lo, era incapaz de se sentir bem estando longe das linhas que continham as marcas de seus pensamentos.
A cada parágrafo novo o colapso lhe vinha a mente.... Se eu o deixar agora....não!! Sem intervalos, sem pausas!!!
Os dedos anestesiados tornaram-se partes involuntárias dele mesmo. Não tinha sono, não tinha fome, não tinha nada. Nada, a não ser sua ideia e sua inspiração. Inspiração forte que o dominava por completo.
E a força ou a inspiração que o fazia sempre persistir vinha de outra pessoa. Vinha de alguém com quem Carlos desejava passar todos os dias, todos os momentos e cada segundo. Essa força que lhe concedia capacidades quase sobre-humanas estava impregnada no ambiente em que Carlos escrevia. Cada parede, cada canto, em cima dos móveis, em cada lugar. Lá estava. Era notável até mesmo para mim que não costumo reparar muito e apenas faço o que tenho que fazer.
Mas para Carlos eu abri uma exceção, um desvio da minha conduta imparcial e inquestionável. E a primeira “coisa” que percebi ao encontrar Carlos foi a extensão da sua inspiração, o tamanho irrevogável da sua vontade. E todas as imagens, fotografias, recorte, textos, pinturas, absolutamente tudo reportava o mesmo rosto, o mesmo traço, a mesma descrição. A bela jovem, inspiração para Carlos.
Sua bela obsessão que se transformou em palavras enquanto seu corpo definhava por cansaço.
E agora que observo mais atentamente a tela do monitor, percebo que Carlos realmente está no fim de sua obra. Uma belíssima história totalmente dedicada para seu amor.
O ponteiro dá mais uma volta e para.
Acabou a bateria, ele não percebeu.
Olho para o lado e noto outro rosto. A familiar garota das fotos está ali. Sorriso espectral.
No monitor vejo Carlos digitar sua última frase e uma dedicatória incrível. Não consigo esconder uma pontada de “sentimento” quando vejo que também fui mencionada em seu livro.
Olho novamente. Já esperei tempo demais e não posso atrasar. Já é hora, Carlos. Penso comigo mesma.
Caminho lentamente por detrás dele. E pela primeira vez em muito tempo sei que fui também a responsável pelo cumprimento de algo, no caso, aquelas palavras que se tornaram parte de um livro. Sou também a causa da inspiração, mas isso não me engradece de forma alguma.
Em minhas mãos sinto o peso que cada ser carrega e traz para mim.
Trabalho terminado. Apago as luzes antes de sair.
O som do teclado não é mais audível. A luz do monitor está acesa e as palavras refletidas permanecerão fixas.
Os ponteiros imóveis agora marcam duas da manhã.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Cem anos de perdão



Quem nunca roubou nada, não consegue me entender. Eu roubo coisas. Coisas que não são minhas, eu roubo. Roubo o que não tenho e gostaria de ter... Não é assim que funciona? Comigo não seria diferente, sou um ladrão.
O que eu roubo é algo especial, pelo menos pra mim. Eu tenho um ajudante de crime; alguém que fica vigiando, cuidando para que ninguém atrapalhe. No começo eu fazia sozinho e fazia em um lugar diferente. Era bem ao público mesmo; eu me sentava em um banco desses de praça e ficava olhando mães carregando carrinhos de bebês, pais comprando sorvete para os filhos, mas isso acabou enchendo o saco; eu queria algo melhor.
Foi então que, em uma das minhas caminhadas eu encontrei o lugar ideal: um cemitério. Cemitérios são lugares onde muita saudade é deixada. Um lugar cheio de lembranças boas, mas às vezes, dolorosas. Ter saudades daqueles que você amou e perdeu é melhor do que não ter ninguém pra ter saudades, não é? Eu sempre pensei que sim.
É aqui que entra meu ajudante; o coveiro. Eu dou pra ela um litro de cachaça barata toda semana e ele me deixa entrar de madrugada. Quando eu chego, ele abre o portão com cuidado e fica por lá um tempo, cuidando se ninguém se aproxima. Ele fica me dando cobertura, por um litro de pinga, mas eu não posso criticá-lo: aposto que ele pensa o mesmo de mim.
Deixo-o para trás, procurando por alguma lápide, pensando no que eu gostaria de roubar hoje. Não tenho memórias de um pai, nunca tive um. Eu quero um. Aproximo-me de um túmulo com um nome de homem, um homem que pelas datas gravadas na lápide, teria idade para ser meu pai. Encaro a lápide com olhos duros e penetrantes. Fico imaginando que tipo de pai ele foi: será que foi amado como deveria? Ou será que era do tipo que bebia muito e batia nos filhos? Muita gente sente falta dele? Eu espero que sim... Ser esquecido, isso sim, é morrer. Olhando seu túmulo, eu fico pensando se ele me amaria, e se cuidaria bem de mim; se me compraria sorvete, ou me levaria para assistir futebol com ele. Encosto a mão na lápide e solto um longo suspiro. Não é meu.
O pouco que me lembro da minha mãe, prefiro não lembra; não vale como lembrança para se ter de mãe. Sempre me disseram que mãe só tem uma e eu levo isso muito a serio. Eu roubo muitos pais, tios e primos por aqui, mas mãe, só tem uma que eu gosto de roubar pra mim. Ah sim, tem outra coisa que eu roubo: flores. Eu pego flores de outros túmulos para levar para a Dona Cidinha. Dona Cidinha é a mãe que eu roubei. O filho dela é um idiota que não dá valor para a mãe que tinha, mas eu dou, por isso, agora ela é minha. Deixo flores para ela e até converso. Criei na minha mente, uma personalidade pra ela, e até um tom de voz especifico, quando a imagino falando.
Sempre que venho ver minha mãe, lembro das palavras da minha velha amiga Clarice: “Ladrões de rosas e de pitangas tem cem anos de perdão.” Deixo as pitangas para a Clarice, mas fico com as rosas (que nem sempre são rosas, mas não tem problema, a mamãe gosta de todo tipo de flores), acreditando que meu crime merece cem anos de perdão. Roubei a mãe de alguém e toda noite, roubos pais, tios e primos. Só roubo o que preciso, sem me exceder. Mas às vezes eu pergunto pra mamãe se eu poderia ter um irmão ou irmã...
Enquanto eu fico aqui, falando com a mamãe, o coveiro fica lá enchendo a cara, vigiando o portão e (muito provavelmente) rindo de mim. Bom saber que eu o deixo feliz.
Ninguém nunca soube; ladrão de mãe merece o mesmo perdão que ladrão de pitangas. Se as velhinhas mortas pudessem falar, pediriam para que alguém as roubasse, como eu fiz com a Dona Cidinha. Mamãe.


domingo, 2 de março de 2014

Kaledrina - segunda parte


Primeira parte

No dia seguinte eu transferi minha pesquisa para esta sala; as peças do flame pack assim como todas as ferramentas e aparelhos que iria precisar, eu não queria sair de perto dela. Descobri que eu podia abrir os olhos dela e deixá-los abertos; eram azuis e lindos, lhe caiam bem. Espanei todo o pó do lugar para deixando-o mais de acordo com uma dama e até cobri parte do chão com um tapete azul que encontrei nos fundos da minha casa. Eu estava feliz. Minha pesquisa fluía, eu trabalhava com muita empolgação agora, mas meus motivos eram diferentes... Eu não estava interessado em chamar a atenção do meu, eu apenas queria estar ali. No entanto, as vezes enquanto eu trabalhava, eu tinha a impressão de que Kale estava olhando na minha direção, mas sempre que eu a olhava, seu rosto estava onde eu tinha deixado, na posição que eu a deixava: sentada com as pernas juntas e mãos nos joelhos.
Um dia, eu trouxe uma vitrola e uns discos da Peggy Lee para ouvir com ela. “Espero que goste do som da Peggy, Kale, ela sempre me inspira” Sim, eu a tratava como uma pessoa de verdade. Eu sabia que isso não era normal; conversava com ela normalmente, sabendo que ela não responderia, mas na minha mente, eu imaginava as respostas dela e às vezes, eu até ria sozinho disso tudo. Tinha dado a ela status de ser humano, pior: eu não tinha vontade de interagir com ninguém mais a não ser ela.
Liguei a vitrola com o disco da Peggy.
“Sabe, eu sou um péssimo dançarino, mas mesmo assim, concede-me esta dança?” Eu sempre quis fazer essa pergunta, mas sempre fui rejeitado antes de ter a chance de terminá-la. Kaledrina não em rejeitou. Ela continuou com seu olhar estático e sorriso misterioso. Ela não disse não, não se afastou e não atirou bebida no meu rosto.
Tomei minha garota nos braços e brinquei de dançar com ela. Suas pernas não eram firmes no chão, o que deixava a cena ainda mais patética. Quer dizer, para qualquer um que visse, seria patética, mas não para mim: eu tropeçava nos pés moles dela, mas não tirava os olhos dos seus.
Tropecei. Caímos no tapete, Cai sobre ela. “ Ái! Desculpa amor!” Silenciei-me. Eu tinha mesmo chamado ela de amor? As coisas estavam indo longe demais. Ela era uma boneca, só isso, e não uma pessoa. Ela não era capaz de me retribuir. Nunca seria. Não parava de pensar nisso, mas também, não saia de cima dela. Meu nariz estava próximo ao dela, os cabelos, espalhados no chão e a boca semi-aberta; parecia que estava esperando que eu dissesse algo, ou fizesse algo.
“Você é linda, Kale”. Eu a amava. A amava e me odiava por amá-la. Não era certo. Lágrimas escorriam dos meus olhos, pensamentos de amor por ela e ódio por mim, me bombardeavam furiosamente. Foi quando, eu senti mão dela sobre a minha. Engraçado, eu não tinha notado que ela caiu com a mão encima da minha até aquele momento. Seu olhar sereno em mim e sua mão me consolando... Senti-me acolhido e protegido. Amado. Em minha mente, ela me dizia “você sabe que não precisa ser forte comigo”. Encostei a cabeça em seus seios e a abracei. Naquele momento, tudo que queria era ficar ali, ouvido a Peggy e abraçado à Kaledrina, e que o mundo fosse para o inferno. Adormeci.
Na manhã seguinte, acordei recebendo chutes e ouvido a risada irritante de Manfred. “ Uther! Acorda Uther! O que é isso seu panaca?” gritou ele. Xinguei-o e o mandei sair da minha sala, mas Manfred não é do tipo que faz o que outros lhe pedem. “Mas que merda é essa ai no chão? Sou namorada? Só assim para você dormir com uma mulher, se ela for uma porra de uma boneca”. Com muito ódio, levantei e fui para cima dele, mas infelizmente, meu irmão é mais forte que eu, sempre foi. E sabia brigar muito bem. Ele em acertou alguns socos no rosto e me mandou pro chão. Riu, me chamou e imprestável, o de sempre.
Não bastando, Manfred ergueu o vestido de Kale, zombando de mim. Ele retirou a calcinha dela e jogou sobre mim. “ Olha só Uther! Ela tem xaninha, você sabia? Ou será que nem da boneca você consegue arrancar a calcinha?” Ele abriu as pernas dela, numa posição humilhante e enfiou os dedos dentro dela. “Apertadinha!”
Nunca senti tanto ódio por alguém na minha vida. Eu queimava de raiva, queria muito que Manfred morresse. Gritei, fazendo força para ficar de pé. “Eu vou te matar!” ameacei. Ele não gostou; ninguém o ameaça. Largou Kale e veio até mim. Me agarrou pelo colarinho e voltou a me bater, com muita raiva. Quando sua mão começou a doer, ele me largou. “Isso não fica assim Uther. Vamos ver o que vai ser da sua boneca. Vou me certificar de que ela vire sucata rapidinho, ou ainda melhor, que vire brinquedinho de mendigo, afinal, mendigos também precisam de amor!”
Saiu da sala rindo. Estava tudo acabado. Manfred iria conseguir o que queria, ele sempre consegue. Eu perderia Kale. Coberto de sangue, me arrastei ate ela; estava caída de pernas abertas. Seu rostinho estava virado para minha direção. Segurei a mãozinha dela, implorando perdão por deixar isso acontecer. Estava muito ferido, mas precisava mudá-la de lugar até pensar em algo. Retirei o jaleco sujo de sangue e a joguei nas minhas costas, passando seus braços pelo meu pescoço. Ela era mais pesada do que parecia e o fato de eu estar surrado não ajudava; minhas pernas tremiam com o esforço.
Por um milagre, eu a levei até a enfermaria; tinha uma salinha lá, uma sala de tranqueiras que era pouco usada, seria um bom lugar temporário para ela. Coloquei-a lá dentro e fechei a portinha. Estava exausto e muito machucado. Cai na cama ali da enfermaria mesmo e dormi...
Acordei muito tempo depois, com a voz de um homem me chamando. Era um dos assistentes do meu pai. “Senhor Uther, venho trazendo péssimas noticiais. Seu irmão Manfred sofreu um acidente, senhor.” Um acidente? O homem continuou: “ Ele caiu da escadaria do prédio, quebrou o pescoço e... bem, ele morreu,senhor.”
Manfred escorregou e morreu? Arregalei os olhos surpreso. Foi então que reparei que meu rosto estava todo cheio de curativos, cuidadosamente aplicados. O assistente pediu licença e me deixou. Sentei na cama. Meu irmão estava morto, convenientemente morto, quando eu mais precisava que ele ficasse quieto. E minhas feridas... Num movimento rápido, abri a portinha secreta para procurar por Kale. Eu não esperava vê-la, mas, lá estava ela... Do jeito que eu a deixei.
Cuidadosamente, eu a levei novamente para a antiga sala, sobre a cadeira que ele sempre ficava. Quando eu estava ajeitando-a para sair, notei algo que me fez arrepiar de medo: a ponta dos dedos dela estavam sujos de sangue. Levei as mãos à meus curativos e mais uma vez olhei seus dedos. Não podia ser verdade.
Cobri-a com o pano preto e apaguei as luzes. Manfred foi cremado aquela noite mesmo. Meu pai não parava de amaldiçoar o céu e a terra pela perda do filho favorito, nem reparou que eu estava ali todo machucado. Naquela noite fui deitar me sentindo péssimo. Eu desejei a morte do meu irmão e ele de fato, morreu no mesmo dia. Mas como ele poderia ter caído da escada? Não é bem o estilo dele. O segurança disse ter visto alguém a mais no andar uns minutos antes. Ele descreveu como uma pessoa esguia que se movia muito rapidamente. Essa pessoa poderia ter empurrado Manfred.
Uma pessoa esguia com movimentos delicados. Tão delicados a ponto de fazer curativos no rosto de uma pessoa adormecida em acordá-la? Levantei da cama. Sai de casa correndo, precisava ir ate o laboratório, precisava ver ela.
Quando cheguei, estava quase morto de tanto correr. Estava também com medo; se ela fosse uma assassina, ela poderia querer me matar agora que sei dela? Descendo as escadas, apanhei um machado de incêndio no caminho...

E agora estou aqui; sobre seu corpo, olhando-a, decidindo se a destruo ou não. E se ela for uma assassina? E se eu estiver criando um monstro? Eu não posso arriscar a vida de outros por um egoísmo meu! Mas eu a amo. Ela não é real, mas a amo. Ela não precisa ser real para ser ideal.
- Kale... me perdoe, meu amor.
Fecho os olhos e levanto o machado. Em um golpe tudo estaria acabado. Picaria o corpo dela e a queimaria com o flame pack e ela nunca mais precisaria machucar ninguém.
Faço força com o machado, mas meu braço não se mexe. Abro os olhos e a vejo com a mão erguida, segurando o cabo do machado. Seus olhos estão olhando-me, mas não com aquela expressão perdida de sempre.
- Meu nome é Kaledrina – ela diz – E eu te amo muito!
Abro a boca assustado. Isso era mesmo real? Estava acontecendo? Tento tirar o machado da mão dela, mas ela me segura com muita força.
Puxa o machado da minha mão e o atira no canto da sala. Afasto-me dela, com medo. Ela levanta-se, ficando sentada, dura como um robô. Seu rosto volta-se para mim. Ela pisca e sorri.
Com a mão direita ela começa a desabotoar o vestido dela.
- Ka-Kale? – estou incrédulo demais, se não fosse a dor no meu coração de tanto correr, eu acharia que estava sonhando.
Kaledrina ergue a mão esquerda, como se estivesse me chamando. Parecia feliz, parecia calma e pacifica... Eu quero muito ir até ela.
Foda-se! Engatinho até ela e seguro sua mão. Ela puxa-me gentilmente para cima dela, me fazendo deitar sobre seu corpo. Leva minha mão até seus seios, por entre os botões abertos. A beijo.
- Eu vou te proteger. Se você for mesmo uma assassina, azar dos outros. Ninguém me tira de você!
Ela abre a boca e solta um gemido curto. Um gemido de prazer. Sua boca de borracha sorri mais uma vez e eu torno a beijá-la.
Minha Kaledrina.


by Kennen

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Kaledrina



Ali está ela, caída, estática. Seu belo e delicado rosto dormia sereno. Sua maquiagem perfeita lhe cai muito bem, criando um rosto lindo e misterioso. O vestido dela é roxo e branco, cheio de babados, como aqueles usados pelas mais altas condessas da cidade... e aqui estou eu, exausto, com o coração disparado; arrastar o machado até aqui para acabar de vez com isso, não é coisa fácil. Eu sei que devo, mas não quero, não com ela... Caminho até seu corpo adormecido e lhe acaricio os cabelos cacheados. Aperto o machado na outra mão, estou suando muito...
Como foi que as coisas chegaram a isso?

Que me lembro já faz uns meses, não sei quantos, mas são muitos. Muitos meses desde que a encontrei. Eu estava no laboratório da StanCorp, trabalhando em um projeto próprio, algo para tentar impressionar meu pai, nada mais que o dono da empresa e um dos lordes mais ricos da Inglaterra. Sir Richard Stanford. Sou o filho mais novo dos Stanford, e minha existência é muito ensombrada pela presença do meu irmão Manfred. Ele é tudo que o papai sempre quis num filho, ele nunca deixou de dizer isso para nós dois, então, esse meu projeto era uma forma de mostrar a ele que eu também era capaz de algo... Engraçado como naquela época eu me importava com algo a mais além dela...
Ah sim, o flame pack! A grande idéia! Consistia de um cilindro de metal cheio de gás acetileno preso ás costas, ligado à uma manopla metálica por um cano de borracha. Um lança chamas mais fácil de carregar. Eu achei mesmo que se eu construísse um desses o meu pai repararia em mim, e ainda melhor: daria ordens para construção em massa do mesmo. Então, todas as noites para cá eu vinha, projetar e trabalhar nisso, como se mais nada importasse. Naquela época tudo que eu queria era mostrar que sei fazer algo.
E assim foram noites e noites a fio; soldando, cortando, martelando... Sabe, trabalhar com fogo nem sempre é seguro e as vezes eu me causava queimaduras, nada muito grave mas ainda assim, ferimentos indesejados. Uma dessas vezes, quando fui testar a manopla com lança-chamas, algo deu errado e ela explodiu na minha mão. Explodiu é um modo de dizer, ela começou a pegar fogo, mas por sorte, eu consegui tirar a tempo e os danos não foram muito grandes, o problema era que àquela hora da noite eu estava sozinho e tive que correr para enfermaria porque ninguém viria para me ajudar. Desci as escadas e corri pelo corredor longo do almoxarifado até a sala dos remédios, por que tinha que ser tão longe?
Tratei minha mão, usei aquela pomada pra pele queimada e a enfaixei como pude. Tive raiva de mim e dessa idéia idiota. Saí da enfermaria batendo a porta, mas sabia que logo que a dor passasse a raiva também passaria.
Foi então que ouvi.
Parecia um choro, era baixo, como um sussurro, como se alguém estivesse tentando esconder que estava chorando. “Quem ta ai?” gritei. Minha voz ecoou, mas não houve retorno. De fato o choro havia sumido. Com o lampião na mão e uma chave inglesa na outra, avancei pelo corredor. Percebi nesse momento que eu estava numa parte muito afastada do laboratório, uma parte que eu nunca tinha estado antes.
“Você está ai? Não vou te machucar!” disse, apesar de estar segurando uma pesada chave na outra mão. Não houve resposta. Caminhei até uma porta estranha; toda cinzenta e sem nenhuma indicação do que deveria ter lá dentro. Além disso, a porta estava entreaberta o que não é comum nesse lugar.
“Alô?” abri a porta lentamente, deixando a luz entrar. A verdade é que eu estava morrendo de medo. Aos poucos, abri toda a porta. Ergui o lampião para poder ver a sala toda: muitas caixas empilhadas, todas empoeiradas, pareciam que estavam ali há muito tempo. Esperei meus olhos se acostumarem com aquela iluminação, quando então, notei algo no escuro, era um pano preto cobrindo algo. Parecia uma pessoa sentada numa cadeira. Seria ela quem eu ouvi chorando?
“Ei você” chamei, me fazendo de valente. Nada. Não se mexia nem falava nada. Lentamente, aproximei-me mais e com a ponta da chave, ergui o pano... E foi quando eu a conheci. Estava sentada e amarrada na cadeira com a cabeça caída para frente. Os cabelos eram castanhos e cacheados e o vestido era bonito, mas antigo, roxo e branco.
Tentei falar com ela e esperei um tempo, olhando-a, mas não se mexia. Toquei-a no rosto e levantei sua cabeça; sua pele era fria. O rosto estava todo pintado como maquiagem. Os olhos estavam fechados. Percebi então, que era uma boneca.
Soltei as cordas dela. Porque teriam amarrado ela dessa forma? E quem será que a trouxe para cá? Seria coisa do meu pai? Tratei de iluminar o resto da sala, queria vê-la melhor. Era linda, quase parecia viva. Deduzi que tinha a minha altura. Por algum tempo fiquei parado admirando-a: o desenho do seu rosto, seus lábios pequenos e bonitos, seu corpo... Meus olhos corriam pelo corpo dela, estava de sapatos pretos e meias brancas e compridas. Toquei-a no rosto, não consegui identificar do que era feita aquela pele, era macia, quase como pele humana, mas tinha algo na textura que era diferente. Com meu dedo, mexi seus lábios e abri sua boca: era seca, mas possuía dentes fortes, talvez feitos de alguma liga metálica. Desci os olhos pelo pescoço dela e inevitavelmente olhei seus seios... Não eram grandes, mas eram perfeitos...
Estremeci. Senti um calor correr por todo meu corpo. Nunca tive uma mulher assim tão perto de mim. Nunca tive mulher alguma, na verdade. Não sou bonito, não tenho bom papo, não sei dançar e não sou popular... Isso deve explicar muito sobre mim, eu acho.
Antes que pudesse perceber, eu estava com minha mão nos seios dela, cabia todo na minha mão. Eram duros, mas, macios ao toque, como a pele. Meu coração estava acelerado: meu interesse pessoal era muito maior do que o interesse científico que eu deveria ter.
Pousei minha mão enfaixada a sua coxa por cima do vestido e a apertei; parecia muito real. Na verdade era tão real que eu tinha medo que ela ganhasse vida a qualquer momento. Gentilmente, se é que isso é possível, deslizei minha mão para baixo do vestido dela, apalpando o interior daquelas coxas macias e frias. Logicamente, minha mão subiu um pouco mais... Fiquei surpreso ao sentir que ela estava vestindo calcinha. Se bonecas pequenas vestem, porque as grandes não?
Aquele foi o momento mais erótico que tive em toda minha vida, eu estava elétrico e mais quente do que a fornalha de uma locomotiva, mas ao mesmo tempo sentia o coração pesar; ela estava ali parada sem poder se defender dos meus assédios. Era só uma boneca, mas eu me sentia um canalha. E eu não sou assim, nunca fui. Beijei-a.
Grudei meus lábios aos lábios de borracha dela, aliciando suas intimidades artificiais. Meu coração estava agitado como um motor à vapor, pela primeira vez eu senti êxtase completo. Meus beijos faziam a cabeça dela pender para trás, então usei a mão que estava em seus seios para segura-la pela nuca, igual àquelas historias de amor.
Com muito cuidado, enfiei a mão por trás de seus cabelos e a segurei para dar mais apoio ao meu beijo, quando então senti algo. Letras. Uma palavra gravada em sua nuca. Minha curiosidade foi muito grande, seria um nome? Uma data? Parei o beijo para olhar; afastei seus cachos castanhos e li uma palavra quase apagada: Kaledrina.
Seria seu nome? Pensei. Ou quem sabe o nome de uma antiga dona... Kaledrina. Um nome diferente. Deve ser estrangeiro. Diferente mais muito bonito, assim como ela.
“Vou chamá-la de Kale” disse a ela, como se ela fosse entender. “Você gosta?” sem resposta, claro.



CONTINUA...

by kennen

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A travessia parte III


Leia antes
Parte I
Parte II




Eveline deu um passo para trás ainda encarando o homem parado há alguns metros de nós. Ela olhava para o rosto dele ainda incrédula
– Não pode ser... – a ouvi murmurar.
– Eveline... – pronuncie seu nome baixinho. – É um assunto complicado.
Hoan riu.
– Olá, cunhada. – ele surgiu ao lado dela pegando-a de surpresa. – Obrigado por dar ao meu irmão um ponto fraco. – ele colocou uma adaga apontada contra o pescoço dela.
– Fique longe dela! – rosnei.
– Ou o que? – Hoan me desafiou.
Eveline suava frio com a adaga apontada contra a pele frágil do seu pescoço. Seus olhos estavam voltados para mim e clamavam por socorro.
Encarei o meu irmão, que exibia um sorriso sarcástico nos lábios. Eu sabia muito bem do que Hoan era capaz e temi pela vida da minha namorada. Porém, meu irmão também me conhecia bem.
– Eu disse para ficar longe dela! – falei ao surgir na frente dele e o atingir com um chute que o fez voar contra a parede da caverna e lançar a adaga longe.
Eveline me encarou com uma grande interrogação no rosto. Não acreditava no que eu havia feito. Mal fazia ela ideia do quão rápido eu era capaz de me mover.
Hoan começou a rir enquanto se punha de pé e limpava a poeira das vestes negras.
– Confesso: achei que você estivesse enferrujado. – ele ainda ria. – Faz quanto tempo desde a última vez que trinamos juntos, cinco anos? – seus olhos meu fitaram profundamente. – Cinco anos, época em que você ainda não era um traidor.
– Eu não sou um traidor! – gritei alto.                
– Ah não? – Ele perguntou sarcástico . – Até onde eu me lembrava esse era o nome que davam para aqueles que abandonavam a sua própria família para se juntar ao lado inimigo. Fico imaginando o quanto a mamãe estaria decepcionada se visse no quer você se tornou. Uma simples marionete dos nossos inimigos...
– Não fale da nossa mãe. – eu estava furioso. – Ela jamais aprovaria a Nova Ordem.
– Muito pelo contrário, ela se orgulharia de nós, por termos feito do mundo um lugar melhor...
– Cala a boca! – berrei acertando o meu irmão com um soco no rosto. Eu ha estava farto daquela ladainha do Hoan.
Ele foi arremessado mais uma vez contra a parede da caverna. Levantou massageando a bochecha atingida.
– Tudo bem, você quer resolver as coisas desse jeito para mim tudo bem. – Ele partiu para cima de mim me acertando com um golpe na boca do estômago e me fazendo voar.
– Noah! – Eveline berrou correndo na minha direção.
– Fica fora disso, traidora número dois. – advertiu Hoan. – Meu irmão e eu temos alguns assuntos pendentes.
Ela olhou para mim extremamente preocupada.
– Eu vou ficar bem. – prometi a ela ao me levantar.
Parti para cima do meu irmão que se defendeu do meu golpe. Ele deferiu um chute contra o meu peito, mas eu me esquivei.
Hoan sacou uma espada e lançou outra para mim.
– Como nos vemos tempos. – ele murmurou.
Rodei a espada na mão e me coloquei em uma posição confortável. Ele gritou e partiu para cima de mim novamente. O chocar das espadas produzia um barulho agudo quase ensurdecedor.
– Pelo visto você não perdeu a prática. – meu irmão provocou.
– Aprendi coisas novas. – ameacei.
Girei e deferi um golpe de espada contra ele, fazendo com que perdesse o equilíbrio e cabalasse para trás.  Ele aproveitou a deixa e se agachou me dando uma rasteira e fazendo com que eu caísse contra o chão. Eu me defendi como pode dos seus golpes de espada e rolando para o lado.
Seus olhos me encaram com ódio quando se preparou para me dar um golpe final. Meu coração disparou...
Mas... De repente ele tombou e caiu para o lado e eu pode ver Eveline parada atrás dele segurando uma pedra com uma das mãos.
– Precisamos amarrá-lo, antes que acorde. – ela foi logo dizendo.
Peguei umas cordas dentro da mochila e marrei o meu irmão, ainda desacordado, a uma pedra.
– Você tem muitas coisas para me explicar. – Eveline me fuzilou com o olhar.
– Eu sei. – disse de cabeça baixa. – Nem sei por onde começar.
– O inicio é sempre uma boa.
– Bem, Hoan e eu somos irmãos gêmeos como você percebeu. – comecei a dizer. – Desde pequenos fomos treinados para nos tornar assassinos da ordem. Nosso pai é o Klaus...
– O líder supremo da ordem?! – ela engoliu seco.
– Sim... – lamentei. – Nossa mãe morreu quando ainda éramos bem pequenos. Pouco depois do congelamento da terra, ela não concordava com a ideia de um governo ditatorial quando meu pai era apenas um membro da cúpula governante do mundo. Pouco depois que ela se foi meu pai assumiu o controle de tudo e transformou tudo no que vemos hoje... – dei uma breve pausa. - Eu era apenas um fantoche que cumpria ordens, assim como meu irmão. Mas quando me dei conta de quanto mal estava fazendo principalmente àqueles mais fracos eu abandonei a cúpula da Nova Ordem e me juntei à resistência, na luta contra o mau que a minha família causava...
Encarei Eveline, ela não disse nada. Estava chocada demais para fazê-lo, eu não esperava reação diferente.
– Precisamos sair daqui. E levar os cristais. – eu disse. – Antes que meu irmão acorde e traga uma exercito para cá. Termino essa historia em outro momento.
 Sacudi a poeira da minha roupa e caminhei para dentro da caverna.  Demos de cara com um ambiente quase indescritível, de beleza singular. Os cristais revestiam as paredes o chão e o teto, criando um jogo de luzes esplêndido.
– Uau! - Eveline exclamou. – Como é lindo.
Peguei uma bolsa e enchi a com aqueles cristais.
– Vamos dar o fora daqui. – disse a Eveline ao puxar-la pela mão.
– Mas e o seu irmão? – ela se voltou para ele, interrompendo a nossa saída.
– Ele sabe se virar sozinho. E eu que não quero estar por perto quando ele acordar...

Continua...

By Ashe

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Jenny Jenny

 

O nome dela é Jenny Taylor, e o que eu vou contar é verdade. Jenny sempre teve uma vida muito boa, seu pai, político de sua cidade, tinha muito amigos influentes, logo, era um homem que ganhava muito dinheiro. Ela sempre foi uma bonequinha, cabelos castanhos e ondulados, pele clara e olhos azuis, o orgulho da mamãe, a princesinha do papai.
Aquele ano tinha tudo para ser o melhor, o pai da garota estava concorrendo à prefeito da cidade e ao que indicavam as pesquisas que as chances dele ganhar eram muito grandes. As pesquisas não se enganaram e logo, Jenny e sua família subiram no patamar de poder mais alto da cidade, eram agora ricos e importantes.
Dois meses mais tarde, Jenny completaria 12 anos, sendo agora uma “mocinha” como diz a mamãe, e para comemorar, seu pai decidiu leva-la para passar um feriado na fazendo da família, para ensina-la a caçar. Os Taylor tinha tradição na caçada, todos seus membros são acostumados à armas, munições e troféus de caça, e a pequena Jenny, não seria diferente. Na sexta feira, depois da escola, pai e filha estavam a caminho da fazenda, para darem início as aulas de caça da nova caçadora.
Assim que chegaram, a menina foi correndo desfazer suas malas, pois tinha comprado muitas roupas de caça, e queria poder ter tempo para escolher a melhor roupa para sua primeira caçada. Enquanto arrumava suas coisas em seu quarto, o senhor Taylor fazia umas ligações de celular.

-  Papai, essa roupa ficou boa em mim? - pergunta ela dando uma votlinha. 
-  Sim querida, ficou muito linda em você. -respondeu, sem dar muita atenção.


Algumas horas mais tarde, Jenny ouviu barulho de carros do lado de fora e correu para a janela, ver quem era; não esperava que receberiam visitas. Desceu as escadas, querendo saber quem eram as pessoas que chegavam.

-  Quem chegou? 
-  Só uns amigos meus bem, eles querem caçar também.


Um homem alto de bigode entrou na casa e fui cumprimentar o senhor Taylor. Jenny o olhou bem, tinha a impressão de conhece-lo. Sim, conhecia, era o delegado da sua cidade, não é a toa que era amigo do seu pai, o prefeito e o delegado andam sempre juntos. Ela ignorou a presença do delegado ali, até que mais carros chegaram...logo ela estava sozinha com cinco homens, sendo eles, seu pai, o delegado e mais três que ela não conhecia...A pequena Jenny começou a sentir-se desconfortável naquela casa.
Os homens mais poderosos da cidade estavam ali na fazenda, e no meio deles uma única garota sozinha...caçar? Que nada...os planos daquele pai diabólico para seu filha não tinham nada a ver com caçada, pelo menos, não para ela. Um a um, eles abusaram do corpo da garota em seu quarto, enquanto seu pai filmava tudo...Ela chorou e implorou para que parassem, mas não deu certo, seus gritos e suas súplicas causam apenas risos dos homens. Seus olhinhos olhavam para o pai, implorando por ajuda...mas ele apenas dizia “você está ótima querida”. Após horas, a largaram caída no sofá, com sangue escorrendo entre as pernas e marcas de mordida por toda parte.
Primeiro ela pensou em pedir ajuda...mas para quem? Para a polícia? Toda a lei e ordem da sua cidade estava ali, abusando do seu corpo...tentou falar com a mãe, mas esta sempre fingia que não ouvia ou que não entendia...ela não tinha a quem recorrer...
Todo feriado lá se iam eles “caçar”, sempre os mesmos amigos, sempre a mesma desculpa e sempre a mesma frase “você está ótima querida”. A garota aguentou o quanto podia, rezava todas as noites para isso parar...Três anos se passaram nessa situação, Jenny agora tinha 15 anos. Morria de tristeza e vergonha a cada aniversário...queria tanto ser uma garota normal e não ter que passar por esse tipo de coisa...mas vai saber quantas de suas amigas também se encontram numa situação assim?
Eu estava sempre por perto...pressentia que algo iria acontecer. Certa vez, eu me aproximei dela, enquanto ela olhava-se no espelho. Seu rostinho triste e pensativo procurava desesperadamente por uma solução para seu problema infernal. De vez em quando, enquanto eu a observava, ela virava para trás, como quem procura por alguém, ou algo...Será que ela esta sentindo minha presença? Se sim...isso não é bom, não mesmo.
Na noite que fez quinze anos, Jenny decidiu acabar com isso de uma vez por todas. Todas as suas amigas falavam sobre beijar meninos e ela só conseguia pensar em como não ser abusada a cada feriado. Já chega, pensou.Trancou-se no banheiro e com uma lâmina de barbear começou a se cortar nas veias dos pulsos. Viu seu sangue espirrar e por um momento sentiu medo. Sua vida escapava de suas veias lentamente...sentiu frio, sentiu fraqueza...tudo ficou escuro.
Eu deveria estar do lado dela nessa hora, com minha mão em seu ombro, mas eu não estava, eu não precisei.
Horas mais tarde, Jenny acordou no hospital com os braços enfaixados, tivera sido salva a tempo pela empregada da casa.
 Eu a olhei bem nos olhos quando ela acordou e notei que parecia feliz...feliz por estar viva, por algum motivo, estava feliz por não ter morrido. 
O ser humano foi feito para viver, e não morrer. A morte é uma consequência, algo natural, mas não um objetivo. Não importa o quanto se deseje a morte, o corpo nunca quer morrer, ele não foi feito para isso...E quando finalmente se alcança a morte, as pessoas percebem o quanto a temem. Todos temem à morte, mas alguns mentem para si mesmos e para os outros.
Depois disso ela se recuperou e fugiu de cidade. Cortou e pintou o cabelo, mudou de nome, arrumou um emprego numa casa noturna e foi morar com um namorado. Nunca mais tentou se matar. Não tente apressar as coisas Jenny, nós vamos nos ver um dia, no curso natural das coisas. Como devem ser sempre. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Nolan



Era a segunda vez que os pesadelos não o deixavam dormir. Primeiro, via-se correndo em um lugar escuro, frio e úmido. Depois, sentia que mãos o alcançavam e marcavam todo o seu corpo com unhas enormes que lhe rasgavam a pele. Podia sentir que algo o estava estraçalhando tanto por fora como por dentro.
Sua pele queimava e não havia como pedir ajuda, aliás, não havia mais ninguém no sonho, a não ser ele e a criatura.
Pingando suor, retirou sua camisa, engoliu três comprimidos e secou até a última gota de um copo com água. Suas mãos ainda tremiam e a respiração estava ofegante.
Já mais calmo resolveu fazer algo que o mantivesse acordado pelas duas horas que lhe faltavam para ir trabalhar. Ligou a televisão e se deparou com um filme que o prenderia até que anoitecesse.
As oito da noite Nolan está preparando mais uma dose do tranquilizante. Em sua bandeja há duas seringas prontas para uso, alguns comprimidos e copos com água. As paredes brancas da sala são substituídas por um longo corredor amarelado no qual uma fileira de portas enumeradas se estende. O lugar cheira a remédios e desinfetante. Ele está ali a apenas dois meses e era responsável pelos pacientes do décimo segundo andar. Antes de prosseguir pelo corredor ele apaga o cigarro e coloca a caixa de fósforos no bolso da calça.
Sons de grunhidos são emitidos por de trás de cada uma das portas.
O número um, pintado com uma tinta escura, aparece sob a visão de Nolan. Ele entra. Sua primeira paciente do dia, uma senhora, código 19B. Está aqui a mais de sete anos, foi usada muitas vezes como critério padrão de avaliação, pois pelo que ele sabia, ela foi uma das primeiras em quem o tal tratamento surtiu algum efeito.
Nolan encontra a senhora dormindo em sua maca, mas era hora dos medicamentos, ela precisaria acordar. Chamou um pouco baixo, mas vendo de que nada adiantava ele a tocou na pele amarelada do seu braço. Ela grunhiu e se mexeu alguns centímetros em sua maca, não muito, pois faixas estava atadas em seus braços. Já com os comprimidos preparados, ele os coloca na boca da mulher e ergue o copo com água até os seus lábios.
E por todas as portas Nolan entrou e saiu esvaziando sua bandeja. Restava apenas um quarto, o 27. Existiam mais três quartos após o vinte e sete, mas estavam vazios. Não se sabia exatamente o que havia acontecido com os ocupantes dos quartos e comentários não eram autorizados.
Ao passar o cartão magnético a porta do quarto 27 não se abriu. Alguma coisa barrava o deslocamento. Nolan tentou empurrar, mas o metal não se moveu. Chamou outro enfermeiro. Os dois juntos arredaram a porta e ao entrar perceberam que todas as coisas que havia no quarto estavam formando uma espécie de barreira contra a porta metálica.
Ao contrário dos outros quartos, este estava escuro, as lâmpadas provavelmente estavam queimadas, pensou Nolan. Assim que seus olhos se habituaram a penumbra, notou um homem encolhido no canto. Suas roupas estavam rasgadas e a respiração entrecortada.
O outro enfermeiro que acompanhava a cena se aproximou e chamou o senhor por seu código. Nenhuma resposta. Resolve então se aproximar mais um pouco e quando o faz, os dois ouvem uma espécie de grunhido agudo e num instante seguinte um barulho ensurdecedor toma conta do lugar. Nolam corre para buscar outros enfermeiros, mas assim que se move ele vê um par de olhos amarelos brilhantes que o observa na escuridão.
Ele começa a andar para trás, mas no momento seguinte a porta se fecha, trancando-os dentro do quarto. Escuta um grito e som de ossos sendo quebrados. Sente que algo quente espirrou em seu rosto. E depois de algum tempo não escuta barulho algum. A porta então é destravada e Nolan sai do quarto, ele corre e pensa em pedir ajuda.
Pelo caminho ele percebe que outras portas estão entreabertas. Em algumas delas, filetes de sangue escorrem e formam poças pelo corredor. Assim que alcança a saída para a sala dos funcionários percebe que já não havia mais ninguém ali, a não ser ele e aquilo que agora estava solto pelo prédio de quatorze andares.
Os elevadores não funcionavam. Faltava energia no prédio inteiro. Nolan descia as escadas o mais depressa que conseguia enquanto ouvia o barulho do impacto de diversos objetos nas paredes dos andares que continham pacientes.
Não havia percebido que estava segurando a seringa de tranquilizante e assim que desceu outro degrau, suas pernas cambalearam fazendo-o rolar por um pequeno lance de escadas até que suas costas bateram na porta de saída para o andar. Sentiu uma fincada na perna, um líquido viscoso escorreu em gotas por sua calça. A agulha havia entrado e comprimido o êmbolo.
Não notou diferença alguma durante certo tempo, mas com receio de que não conseguisse sair do prédio antes que o efeito passasse, ele decide continuar a descer as escadas. Após alguns degraus, Nolan sente uma náusea muito forte, fosse o que fosse, o conteúdo daquela seringa não era nenhum tranquilizante. Ele cai e escorrega batendo a cabeça. Seu corpo empurra uma porta e agora ele está estendido no que provavelmente era a entrada para um dos andares.
Ele não consegue se erguer, pois algo está dentro de seu corpo e o faz ficar imóvel por alguns minutos. Logo depois, uma dor aguda lhe corta o peito e se espalha pelo resto do corpo. Assim que conseguiu se mexer, Nolan se encolhe no chão frio e pegajoso, parecia haver algum tipo de gosma espalhado pelo piso.
Arrastando-se ele encontra um local para se apoiar. Percebe que se trata de uma bancada, provavelmente a do laboratório do sétimo andar. Toca em alguns frasco e isso faz com que vidros se espatifem no chão. Poucos segundo se passaram até notar que a criatura havia escutado o barulho, pois assim que conseguiu se concentrar, ele percebe algo se movendo pela tubulação de ar.
A criatura vinha rápido demais, pois o som estava ficando próximo. Ele precisava continuar a descer ou acabaria morto como os outros. Tateando pelas paredes e bancadas, Nolan encontra uma espécie de portinha. Empurra e nota alguns furos que permitem a passagem de feixes de luz.
Tenta colocar sua cabeça e depois os ombros. Por ali seria possível passar e provavelmente ir para fora do prédio.
Um ruído chega ao teto do laboratório e Nolan sente que a tubulação está tremendo. De repente ouve um estalido metálico e algo cede do teto do lugar. Provavelmente a criatura já estava se preparando para pular e ataca-lo.
Precisa sair dali o mais depressa possível, mas poderia ser agarrado enquanto tentasse se enfiar na passagem. Algo cai do teto e ele escuta uma espécie de respiração seguida pelo cheiro da criatura. Ela devia estar a uns três metros dele, mas mesmo assim dava para ouvir seus grunhidos roucos e baixos.
Se tentasse sair agora, a criatura o pegaria, mas não podia ficar imóvel para sempre sem fazer ruídos. Sua chance dependia de parar aquele monstro de vez.
Seu corpo ainda queimava por dentro e cada vez mais era possível sentir o efeito daquela substância. Não conseguia pensar direito, mas a única ideia que teve tinha que dar certo. Sem fazer nenhum barulho, ele arrasta a mão pela parede e logo encontra o que precisava.
Agindo rápido ele pega uma caixinha no bolso da calça e quebra a mangueira do gás. A criatura começa a se mover em sua direção. Nolan abre a válvula e se ajoelha, enfia suas pernas na passagem. A criatura corre na direção dele e pula. Nolan senti a respiração próxima ao seu rosto e se encaixa dentro da passagem.
A garra da criatura alcança parte do seu rosto e rasga sua pele. Mais do que depressa, Nolan acende o fósforo e a última visão que tem é a de uma mão enorme com garras afiadas. Se empurra mais para trás e joga o palito. A criatura ainda tenta abrir o metal da passagem com as garras, mas já era tarde. Nolan empurra seu corpo mais para dentro e começa a cair pelo tubo.
Enquanto cai, ele escuta o som de urros e explosões acima dele. Algumas paredes se quebram com a explosão, isso faz o prédio começar a desmoronar. Muito pó entra pelas narinas de Nolan ao sofrer um baque contra o chão, fazendo-o perceber que está no incinerador no porão do prédio, pois o cheiro de cinzas e plástico queimado é inconfundível.
No meio das cinzas ele se arrasta, mas antes que tente escapar, o prédio rui. Ele não sabe quanto tempo passou até que finalmente conseguiu sair do meio de alguns blocos. Por sorte o incinerador havia suportado todo o peso das vigas metálicas. Se esquivou de alguns escombros e conseguiu sair. Ao colocar a cabeça para fora ele viu algumas viaturas pela rua. Um policial que o viu ajudou-o a sair.
Enquanto estava deitado dentro de uma das viaturas, Nolan retira a agulha da seringa quebrada em sua perna. Ao erguer a cabeça, vê um dos polícias que havia lhe feito algumas perguntas conversando com alguém dentro de um carro preto com vidros escuros. Lodo depois, o policial o ajuda a sair da viatura e a porta do carro é aberta.
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Luzes fortes estão sobre seus olhos. As paredes brancas espalham a claridade ainda mais. Seus olhos doem. Escuta a voz de alguém, uma mulher. As luzes são apagadas e ele consegue abrir os olhos. Não se lembra de como veio parar ali e nem o que aconteceu. Lembra-se do seu nome, mas não sabe quem é.
Um objeto plano e liso é posto na sua frente. Nele há a imagem de alguém ou alguma coisa. Um ser que se parece com um homem, mas com a pele amarelada e pálida, longas cinco marcas de cicatriz estendem-se por seu rosto, a boca está torcida e rasgada e os olhos estão dourados. Em seu corpo há várias marcas arroxeadas e os braços são cobertos por ataduras que cobrem uma pele grossa. As mãos possuem garras e são contorcidas. Antes de concluir a ideia de que era ele refletido naquela imagem algo o acerta e seus olhos se fecham novamente.
A visão do espaço onde a nova criatura agora se formava era assustadora. Em seu leito ela está tranquilizada até que os homens continuem a prepará-la. Na grade a frente da cama surge uma placa metálica e um número. 06F, unidade de destruição.