sexta-feira, 21 de março de 2014
Por entre as rosas
O raio de
sol atravessou as frestas da janela, atingindo os olhinhos de garota
que dormia. Ela torceu o rosto, fazendo uma careta devido à luz. Em
seguida veio um longo bocejo. Tentou abrir os olhos, mas precisou
esfregá-los com as mãos, antes de conseguir abri-los totalmente.
No
segundo seguinte, pulou da cama, jogando o edredom para o lado; era
como se sua preguiça matinal estivesse acabado em um segundo.
Cambaleou até a janela e abriu com pressa. O sol brilhava suave no
céu, parece ser um lindo dia, mas ela estava pouco interessada no
quão bonito ou feio o clima poderia estar. Seus olhinhos correram
pelo chão de grama e pela cerca de madeira branca. A cerca era
formada de tabuas brancas enfileiradas. Rente à cerca, uma roseira
de rosas vermelhas da sua mãe, e do outro lado, a casa de Jaqueline,
sua vizinha.
Apertou
os olhos em um ponto, entre as rosas e achou o que procurava: um
envelope de carta de cor amarela estava preso por entre as frestas da
cerca, em meio às rosas. Um largo sorriso cortou seu rosto de ponta
a ponta. Correu para fora do quarto, ainda só de camisola; abriu a
porta com rapidez e ainda mais rápida atravessou o corredor até a
cozinha.
A
cozinha estava impregnada com cheio de café e torradas; a mãe
preparava a refeição da manhã.
- Bom
dia mãe. – disse ela correndo para a porta da cozinha.
- Bom
dia Miranda...
Mal
pôde terminar a frase e a filha já estava do lado de fora, pisando
na grama com pés descalços.
- Calce
um chinelo menina! – gritou a mãe, mais pra si mesma do que pra
filha.
Ela não
ouvia. Para Miranda, a única coisa que sua mente conseguia pensar
era naquela carta. Enfiou a mão por entre as rosas e puxou-a da
fresta com delicadeza. No espaço do remetente havia um nome:
Jaqueline.
Apertou
a carta contra o peito, sorrindo de olhos fechados. Olhou mais uma
vez para o envelope, confirmando o nome nele escrito. Sim, era mesmo
dela.
Desde
que tivera conhecido Jaqueline, as duas tornaram-se melhores amigas
muito rapidamente. A vizinha tinha o costume de lhe enviar cartas e
bilhetes pela cerca. Quase todas as manhãs, uma cartinha nova
surgia. Eram vizinhas e estudavam na mesma escola. Entre elas não
havia segredos, era como se dividissem a mesma alma:
13/03/2002
Querida
Miri
Desde
que nos conhecemos, penso em você todos os dias. É a melhor amiga
que uma garota poderia querer ter. Ontem quando andamos de patins
juntas na praça, foi muito divertido. Eu acho muito fofo o jeito que
você patina, sabe, toda torta, quase caindo rsrsrsrsrs ^^
Quando
vamos de novo? Eu quero te ensinar a patinar direito para que você
não caia igual ontem! Eu achei que você tinha se machucado e fiquei
assustada, meu coração quase pulou pra fora! Que bom que não foi
nada serio, eu não sei se iria agüentar te ver chorando ou
machucada...
Você
sabe que eu amo seu sorriso, seu lindo sorriso é só meu, você sabe
né?
Com
amor, Jacky.
14/03/2002
Querida
Jacky
Desculpe
a demora para responder sua cartinha. Só pra constar, eu amei muito!
Adorei também essa sua idéia de passar cartas pela fresta da cerca!
Essa é a primeira que eu estou tentando mandar, então, não fique
brava comigo se ela amassar ou ficar feia! Você já me mandou tantas
até hoje e eu nunca respondi nenhuma, mas hoje isso vai mudar!
Eu sei
que eu não andar de patins muito bem, mas com você me ensinando eu
vou aprender bem rapidinho! Você segura minha mão e me puxa pra
junto de você. Eu gostei muito, menos aquela hora que eu caí, quase
caiu em cima de você! Que sorte que não me machuquei, que sorte
minha que você tava lá comigo! Tenho sorte de ter você como amiga.
Meu sorriso é só seu, se o seu for só meu.
Com
amor, Miri.
16/03/2002
Oi
Miri!
Você
parecia meio tristinha hoje na saída da escola. O que aconteceu?
Tirou alguma nota baixa? Por favor, me diga por que estava tão
triste. Você sabe que pode me contar tudo que você quiser, não
sabe? Somos as melhores amigas do mundo todo, não somos? Eu não
confio em ninguém a não ser você. No recreio quando saímos para
lanchar juntas foi muito legal, espero que possamos fazer isso todos
os dias! Podemos até trocar lanche se você quiser.
Por
favor me responda tá?
Sua
Jacky.
17/03/2002
Oi
Jacky.
Não é
nada serio não, quer dizer, não muito. Sabe a Giovana da minha
sala? Nós brigamos hoje. Foi bobagem, e eu acho que eu tava meio
errada, sei lá. A professora nos colocou juntas para um trabalho. Eu
queria pintar os mapas de verde e vermelho, mas ela não quis. Foi
bobo sabe? Mas eu não quis dar o braço a torcer e aí acabamos
discutindo... Ela me chamou de gorda, e ai eu fiquei triste, mas foi
só isso, não precisa se preocupar ta? Eu tava triste mas quando vi
sua cartinha por entre as rosas, eu dei um sorrisão tão grande que
toda minha tristeza foi embora.
Lógico
que podemos lanchar juntas todos os dias! É o que eu quero. Só não
sei sobre trocar de lanche, eu gosto do lanche da minha mãe.
Rsrsrsrs
Com
amor
Miri.
19/03/2002
Oi
Miri, tudo bem?
Eu
soube que a Giovana se machucou hoje na aula de educação física.
Ouvi as meninas dizendo que ela caiu e machucou a boca no chão. Não
sei quanto a você, mas eu não senti nada quando me disseram, sabe?
Quer dizer, bem feito pra ela! Ninguém gosta dela mesmo, e alem do
mais, ela te xingou, e isso faz eu gostar ainda menos dela. Quem sabe
agora ela não aprender a ficar de boca fechadinha quando pensar em
xingar alguém, né? Vamos tomar um sorvete no shopping amanha? Eu
pago desta vez certo? O próximo é por sua conta!
Com
muito carinho, Jacky.
21/03/2002
Querida
Jacky
Eu
queria agradecer o sorvete que você me deu. Eu sei que já fiz isso
pessoalmente, mas acho importante falar por carta, por que assim,
fica escrito e você pode ler sempre que quiser. Eu leio suas cartas
o tempo todo sabia? Eu as guardo em um baú embaixo da minha cama.
Guardo em um baú por que pra mim é um grande tesouro muito lindo e
valioso. Você guarda as minhas cartinhas também? Espero que sim
viu? Se não, eu paro de sorrir pra você ta?
Sabe
Jacky, me disseram hoje uma coisa que eu não gostei. Disseram que
você empurrou a Giovana na Educação física. É verdade? Eu não
gosto da Giovana, mas não queria que ela se machucasse assim.
Pensando
em você.
Miri.
22/03/2002
Miranda.
Que
absurdo é esse? Como você duvida de mim? Você me conhece e sabe
que eu não faria algo assim. Não gostei não ta? Não sei quem te
falou isso, mas com certeza foi alguém que tem inveja de nós duas.
Não acredite!
Jaqueline.
22/03/2002
Oi
Jacky...
Puxa
vida, fala comigo! Eu te dei um oi hoje e você não respondeu. Fui
te procurar para lanchar e não te achei. Por favor, não fica brava
comigo, eu sei que você não fez aquilo. Me desculpe ferir seus
sentimentos, você sabe que eu te amo. Me desculpa.
Com
amor, Miri.
28/03/2002
Olá
Miri.
Já
faz uns dias que não trocamos cartas. Eu fui muito rude com você.
Me desculpe ter feito você chorar, por favor. Eu também chorei
muito, eu não podia acreditar quando você me perguntou se era
verdade que eu tinha mesmo feito aquilo. Eu estava brava, mas te ver
me olhando todos os dias na escola, acenando pra mim... Cortou meu
coração. Eu tentei Miri. Tentei ficar brava com você e tentei não
pensar mais em você.
Eu te
perdôo, se você me perdoar também.
Eu te
amo.
Jacky.
29/03/2002
Querida
Jacky.
Sua
carta de ontem me deixou sem fala. Eu achei que você me odiava e que
não queria mais me ver, mas eu tava enganada! Você também sofreu
né? Eu juro Jacky. Eu juro que não vou deixar ninguém me enganar
com mentiras. Elas são todas invejosas porque nós temos umas as
outras e elas só tem amigas falsas!
Hoje
quando você me abraçou na escola, eu chorei tanto em você que
molhei sua roupa com minha lagrimas. Todo mundo olhou estranho pra
gente, rsrsrsrsrs.
Sabe
Jacky, eu não ligo pra isso, eu não ligo pra nenhum deles. Eu gosto
de você e eu quero ficar sempre com você.
Juntas
pra sempre
Miri.
02/04/2002
Bom
dia Miri.
Eu
queria falar algo com você, mas acho mais fácil falar por carta, já
que este é nosso meio especial de conversar. Quem é aquele menino
de cabelo loiro que tava falando com você ontem na saída da aula? O
que ele queria com você? É amiga dele? E por que você sorriu pra
ele? Seus sorrisos são só meus e os meus só seus.
Triste,
Jacky.
03/04/2002
Bom
dia Jacky.
Fica
calma, por favor! Ele se chama Raphael, é só um amigo que me fez um
favor. Eu esqueci o livro de Geografia em cima da minha mesinha e ele
me emprestou o dele, só isso. Eu usei o livro dele e ele dividiu um
livro com o amigo dele, simples. Eu tava agradecendo ele depois. Eu
não sorri pra ele como sorrio pra você, aquele foi só um sorriso
de agradecimento. Jacky, você tem muito mais do que meu sorriso,
você tem meu coração. Não precisa ter ciúmes assim.
Não
fique triste. Te amo.
Miri.
04/04/2002
Olá
Miranda.
Fico
triste sim. Eu não esperava ver aquilo. Eu não sorrio pra ninguém,
não dependo de ninguém. Eu não quebro minha promessa de não
sorrir pra mais ninguém.
Talvez
esteja na hora de você ver se realmente me ama, Miranda. Amor não é
algo só da boca pra fora. Eu só volto a confiar em você, quando
suas palavras condisserem com seus atos.
Pense
nisso.
Jaqueline.
05/04/2002
Querida
Jacky.
Porque
faz isso comigo? Assim você parte meu coração em milhões de
pedaços! Estou tremendo e chorando agora, escrevendo essa carta. Não
seja assim, por favor. Eu me afastei do Raphael, eu não falo mais
com ele. Eu juro. Sinto saudades.
Sua
Miri.
08/04/2002
Jacky
Fala
comigo, por favor! Eu não te reconheço mais. Você costumava ser
carinhosa mas agora parece uma roseira: linda mas cheia de espinhos.
Acordo todos os dias e vou olhar para a fresta da cerca, mas não
encontro nada por entre as rosas. Será que você está lendo minhas
cartas?
Sinto
saudades
Miri.
11/04/2002
Querida
Jacky.
Você
faltou hoje de novo... Faz tempo que não sei nada de você. Por
favor, apareça, fale comigo! Você continua pegando minhas cartas?
Ou é alguém mais que ta pegando elas?
Te
amo. Miri.
20/04/2002
Miranda...
Eu vi
Miranda. Então é assim que você me “ama”? Eu te vi brincando
com um cachorrinho hoje na praça. Parece que já me esqueceu bem
rápido hein? Sou menos que um cachorro pra você. É isso? Cada vez
que você o abraçava e sorria pra ele, eu imaginava minhas unhas
rasgando a pele dele. Eu odeio esse cachorro. Livre-se dele Miranda!
Jaqueline.
21/04/2002
Jacky...
Quando
vi sua carta no meio das rosas essa manhã, eu quase não acreditei.
Eu to chorando tanto ultimamente que quase não tenho mais forças
pra nada. Eu tava tão sozinha, você some e não diz pra onde vai
nem o que aconteceu. Minha mãe me deu um cachorrinho sim, o nome
dele é Nico. Por favor Jacky, não odeie o Nico, ele é nosso. Vamos
cuidar dele juntas. Vai ser só eu, você e o Nico, e mais NINGUEM na
nossa vida.
Miri
22/04/2002
Miranda
Você
fez a sua escolha então. Prefere me “dividir” com esse saco de
pulgas asqueroso, então ta tudo bem! Sabe, eu bem que podia me
atirar na frente de um carro e ser atropelada, quem sabe assim você
se arrependeria do mal que você me faz! Você não tem o direito de
bagunçar minha vida desse jeito Miranda, não tem! Você não sabe
quem eu sou, de onde vim e do que sou capaz! Aguente as consequências
agora.
Jaqueline.
23/04/2002
Jaqueline.
EU to
te fazendo mal? Eu quase desmaio todos os dias de tanto chorar por
sua causa e você me diz isso? Me ameaça e ainda diz que vai se
jogar na frente de um carro pra eu me arrepender? Eu não desisti de
amar você, mas você foi longe demais agora! Eu amo o Nico e amo
você. Posso amar os dois. Posso sorrir para os dois. Não somos mais
tão pequenas assim ta? Não precisa agir feito criancinha pra ganhar
atenção! E mais outra. Só fale comigo agora se for pra pedir
desculpas. Eu te amo e posso te dar outra chance.
Miranda.
Naquela
noite, Miranda foi dormir com Nico embaixo da cama, como sempre. A
diferença era que desta vez ela não estava chorando; estava com
raiva. Jacky tivera passados dos limites e precisava se desculpar.
Fechou
os olhos, rolou na cama e tentou ignorar a raiva para dormir logo.
Teve um sonho horrível: sonhou que Jacky tinha pele vermelha,
chifres e dentes pontudos na boca, como um demônio. No sonho, Jacky
estava com os olhos injetados de sangue e dizia que ela iria se
arrepender, que não deveria sorrir pra mais ninguém.
Acordou. Já estava quase amanhecendo. O sonho fora terrível, mas
agora já havia acabado. Levantou-se, vestiu os chinelos e caminhou
ate a porta.
Parou no meio do caminho, deu meia volta e encarou a janela fechada.
Foi até ela e a abriu, sem muitas esperanças. Mas para sua
surpresa, estava enganada. Por entre as rosas, um envelope amarelo.
Não sabia dizer se aquilo era bom ou ruim, mas resolveu ir ate lá
assim mesmo. Era muito cedo, sua mãe ainda dormia. Miri andou ate o
lado de fora e esticou a mão pela roseira e pegou a carta. Abriu-a.
Cuidado onde pisa.
Apenas isso.
De inicio ela não entendeu muito, mas então, decidiu olhar para
baixo. O chão onde pisava era de barro e parecia que havia algo
enterrado bem onde pisava. O desespero tomou conta da garota; largou
a carta, caiu de joelhos e começou a cavar a terra úmida com as
mãos. Seu coração estava acelerado e lágrimas começaram escorrer
de seus olhos.
Seu corpo todo travou ao encontrar um saco de pano no buraco. Um saco
de pano manchado de sangue. Com as mãos sujas e trêmulas, ela abriu
o saco...
Era Nico. Estava cheio de cortes por toda parte e com uma enorme
ferida na cabeça, parecia que tivera sido surrado ate a morte com
uma garrafa. Miri sentiu as entranhas serem corroídas pela dor de
ver seu cachorrinho daquela forma; como se fosse um pedaço de carne
no açougue.
A pressão subiu. Tudo ficou escuro. Suas pernas perderam a força e
ela desmaiou...
26/04/2002
Querida
Jacky.
Eu
voltei para casa hoje. Os médicos disseram que foi apenas um choque,
e que anda grave me aconteceu. Eu não contei a verdade para ninguém.
Juro. A policia diz que Nico deve ter sido morto por vândalos e
arruaceiros e estão fingindo estar interessados em investigar quem
realmente o matou. Eu juro que em momento algum eu mencionei o seu
nome. Você está certa sobre mim Jacky, eu errei, eu não tive
maturidade o bastante para levar nossa relação mais a sério. Eu
peço que me perdoe, eu nunca mais vou te ferir, por que eu te amo,
certo? E você me ama, certo? Eu não preciso de mais ninguém
enquanto eu tiver você. Por entre as rosas, eu entrego meu pedido de
perdão.
Eu só
preciso do seu amor Jacky. Nunca mais vou te contrariar, prometo.
Juntas
pra sempre.
Miri.
Postado por
Kennen Ashe
às
12:37
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domingo, 16 de março de 2014
Imortal
Duas da
manhã.
Ainda
não posso parar. Tenho que terminar....Tenho!!!
Com os
pensamentos voltados para sua mais recente aventura, Carlos não se
importava com os ponteiros do relógio que teimavam em percorrer
aquela mesma monótona circunferência de sempre.
As ideias
surgiam em sua mente como folhas e mais folhas de um roteiro pronto
esperando para ser lido. A criatividade no auge, tudo para que aquela
fosse sua obra prima, seu momento máster de uma carreira que até
hoje não havia ultrapassado a condição transcendental esperada por
muitos que a seguiam.
A
história, cujas letras eram marteladas num teclado, era inspirada
naquilo que mais impulsionava Carlos a escrever. E todas as noites
ele dedicava seu tempo para aquela exaustiva, mas compensatória
atividade.
Seus
dedos eram como máquinas e a mente estava a mil. Tudo o que ele
sentia era o som que as palavras produziam dentro de si como se
fossem parte de seu próprio organismo. Eram vivas as ideias que se
projetavam de sua cabeça e quase palpáveis.
E assim,
aquela dança com as palavras e ideias se prolongou até que a noite
se fez dia e o dia se fez noite novamente. Não sabia exatamente que
horas eram, mas quem se importava com aquilo? Não se lembrava do
dia, do sono, do banho, da comida, não se lembrava de nada, a não
ser de suas preciosas palavras.
E cada
vez que se levantava para fazer algo ou comer alguma coisa, ele se
lembrava de seu livro. Não queria abandona-lo, não tinha forças
para deixa-lo, era incapaz de se sentir bem estando longe das linhas
que continham as marcas de seus pensamentos.
A cada
parágrafo novo o colapso lhe vinha a mente.... Se eu o deixar
agora....não!! Sem intervalos, sem pausas!!!
Os dedos
anestesiados tornaram-se partes involuntárias dele mesmo. Não tinha
sono, não tinha fome, não tinha nada. Nada, a não ser sua ideia e
sua inspiração. Inspiração forte que o dominava por completo.
E a força
ou a inspiração que o fazia sempre persistir vinha de outra pessoa.
Vinha de alguém com quem Carlos desejava passar todos os dias, todos
os momentos e cada segundo. Essa força que lhe concedia capacidades
quase sobre-humanas estava impregnada no ambiente em que Carlos
escrevia. Cada parede, cada canto, em cima dos móveis, em cada
lugar. Lá estava. Era notável até mesmo para mim que não costumo
reparar muito e apenas faço o que tenho que fazer.
Mas para
Carlos eu abri uma exceção, um desvio da minha conduta imparcial e
inquestionável. E a primeira “coisa” que percebi ao encontrar
Carlos foi a extensão da sua inspiração, o tamanho irrevogável da
sua vontade. E todas as imagens, fotografias, recorte, textos,
pinturas, absolutamente tudo reportava o mesmo rosto, o mesmo traço,
a mesma descrição. A bela jovem, inspiração para Carlos.
Sua bela
obsessão que se transformou em palavras enquanto seu corpo definhava
por cansaço.
E agora
que observo mais atentamente a tela do monitor, percebo que Carlos
realmente está no fim de sua obra. Uma belíssima história
totalmente dedicada para seu amor.
O
ponteiro dá mais uma volta e para.
Acabou a
bateria, ele não percebeu.
Olho para
o lado e noto outro rosto. A familiar garota das fotos está ali.
Sorriso espectral.
No
monitor vejo Carlos digitar sua última frase e uma dedicatória
incrível. Não consigo esconder uma pontada de “sentimento”
quando vejo que também fui mencionada em seu livro.
Olho
novamente. Já esperei tempo demais e não posso atrasar. Já é
hora, Carlos. Penso comigo mesma.
Caminho
lentamente por detrás dele. E pela primeira vez em muito tempo sei
que fui também a responsável pelo cumprimento de algo, no caso,
aquelas palavras que se tornaram parte de um livro. Sou também a
causa da inspiração, mas isso não me engradece de forma alguma.
Em minhas
mãos sinto o peso que cada ser carrega e traz para mim.
Trabalho
terminado. Apago as luzes antes de sair.
O som do
teclado não é mais audível. A luz do monitor está acesa e as
palavras refletidas permanecerão fixas.
Os
ponteiros imóveis agora marcam duas da manhã.
quarta-feira, 12 de março de 2014
Cem anos de perdão
Quem
nunca roubou nada, não consegue me entender. Eu roubo coisas. Coisas
que não são minhas, eu roubo. Roubo o que não tenho e gostaria de
ter... Não é assim que funciona? Comigo não seria diferente, sou
um ladrão.
O que eu
roubo é algo especial, pelo menos pra mim. Eu tenho um ajudante de
crime; alguém que fica vigiando, cuidando para que ninguém
atrapalhe. No começo eu fazia sozinho e fazia em um lugar diferente.
Era bem ao público mesmo; eu me sentava em um banco desses de praça
e ficava olhando mães carregando carrinhos de bebês, pais comprando
sorvete para os filhos, mas isso acabou enchendo o saco; eu queria
algo melhor.
Foi
então que, em uma das minhas caminhadas eu encontrei o lugar ideal:
um cemitério. Cemitérios são lugares onde muita saudade é
deixada. Um lugar cheio de lembranças boas, mas às vezes,
dolorosas. Ter saudades daqueles que você amou e perdeu é melhor do
que não ter ninguém pra ter saudades, não é? Eu sempre pensei que
sim.
É aqui
que entra meu ajudante; o coveiro. Eu dou pra ela um litro de cachaça
barata toda semana e ele me deixa entrar de madrugada. Quando eu
chego, ele abre o portão com cuidado e fica por lá um tempo,
cuidando se ninguém se aproxima. Ele fica me dando cobertura, por um
litro de pinga, mas eu não posso criticá-lo: aposto que ele pensa o
mesmo de mim.
Deixo-o
para trás, procurando por alguma lápide, pensando no que eu
gostaria de roubar hoje. Não tenho memórias de um pai, nunca tive
um. Eu quero um. Aproximo-me de um túmulo com um nome de homem, um
homem que pelas datas gravadas na lápide, teria idade para ser meu
pai. Encaro a lápide com olhos duros e penetrantes. Fico imaginando
que tipo de pai ele foi: será que foi amado como deveria? Ou será
que era do tipo que bebia muito e batia nos filhos? Muita gente sente
falta dele? Eu espero que sim... Ser esquecido, isso sim, é morrer.
Olhando seu túmulo, eu fico pensando se ele me amaria, e se cuidaria
bem de mim; se me compraria sorvete, ou me levaria para assistir
futebol com ele. Encosto a mão na lápide e solto um longo suspiro.
Não é meu.
O pouco
que me lembro da minha mãe, prefiro não lembra; não vale como
lembrança para se ter de mãe. Sempre me disseram que mãe só tem
uma e eu levo isso muito a serio. Eu roubo muitos pais, tios e primos
por aqui, mas mãe, só tem uma que eu gosto de roubar pra mim. Ah
sim, tem outra coisa que eu roubo: flores. Eu pego flores de outros
túmulos para levar para a Dona Cidinha. Dona Cidinha é a mãe que
eu roubei. O filho dela é um idiota que não dá valor para a mãe
que tinha, mas eu dou, por isso, agora ela é minha. Deixo flores
para ela e até converso. Criei na minha mente, uma personalidade pra
ela, e até um tom de voz especifico, quando a imagino falando.
Sempre
que venho ver minha mãe, lembro das palavras da minha velha amiga
Clarice: “Ladrões de rosas e de pitangas tem cem anos de perdão.”
Deixo as pitangas para a Clarice, mas fico com as rosas (que nem
sempre são rosas, mas não tem problema, a mamãe gosta de todo tipo
de flores), acreditando que meu crime merece cem anos de perdão.
Roubei a mãe de alguém e toda noite, roubos pais, tios e primos. Só
roubo o que preciso, sem me exceder. Mas às vezes eu pergunto pra
mamãe se eu poderia ter um irmão ou irmã...
Enquanto
eu fico aqui, falando com a mamãe, o coveiro fica lá enchendo a
cara, vigiando o portão e (muito provavelmente) rindo de mim. Bom
saber que eu o deixo feliz.
Ninguém
nunca soube; ladrão de mãe merece o mesmo perdão que ladrão de
pitangas. Se as velhinhas mortas pudessem falar, pediriam para que
alguém as roubasse, como eu fiz com a Dona Cidinha. Mamãe.
Postado por
Kennen Ashe
às
12:46
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domingo, 2 de março de 2014
Kaledrina - segunda parte
No dia
seguinte eu transferi minha pesquisa para esta sala; as peças do
flame pack assim como todas as ferramentas e aparelhos que iria
precisar, eu não queria sair de perto dela. Descobri que eu podia
abrir os olhos dela e deixá-los abertos; eram azuis e lindos, lhe
caiam bem. Espanei todo o pó do lugar para deixando-o mais de acordo
com uma dama e até cobri parte do chão com um tapete azul que
encontrei nos fundos da minha casa. Eu estava feliz. Minha pesquisa
fluía, eu trabalhava com muita empolgação agora, mas meus motivos
eram diferentes... Eu não estava interessado em chamar a atenção
do meu, eu apenas queria estar ali. No entanto, as vezes enquanto eu
trabalhava, eu tinha a impressão de que Kale estava olhando na minha
direção, mas sempre que eu a olhava, seu rosto estava onde eu tinha
deixado, na posição que eu a deixava: sentada com as pernas juntas
e mãos nos joelhos.
Um dia, eu trouxe uma vitrola e uns discos da Peggy Lee para
ouvir com ela. “Espero que goste do som da Peggy, Kale, ela sempre
me inspira” Sim, eu a tratava como uma pessoa de verdade. Eu sabia
que isso não era normal; conversava com ela normalmente, sabendo que
ela não responderia, mas na minha mente, eu imaginava as respostas
dela e às vezes, eu até ria sozinho disso tudo. Tinha dado a ela
status de ser humano, pior: eu não tinha vontade de interagir com
ninguém mais a não ser ela.
Liguei a vitrola com o disco da Peggy.
“Sabe, eu sou um péssimo dançarino, mas mesmo assim, concede-me
esta dança?” Eu sempre quis fazer essa pergunta, mas sempre fui
rejeitado antes de ter a chance de terminá-la. Kaledrina não em
rejeitou. Ela continuou com seu olhar estático e sorriso misterioso.
Ela não disse não, não se afastou e não atirou bebida no meu
rosto.
Tomei minha garota nos braços e brinquei de dançar com ela. Suas
pernas não eram firmes no chão, o que deixava a cena ainda mais
patética. Quer dizer, para qualquer um que visse, seria patética,
mas não para mim: eu tropeçava nos pés moles dela, mas não tirava
os olhos dos seus.
Tropecei.
Caímos no tapete, Cai sobre ela. “ Ái! Desculpa amor!”
Silenciei-me. Eu tinha mesmo chamado ela de amor? As coisas estavam
indo longe demais. Ela era uma boneca, só isso, e não uma pessoa.
Ela não era capaz de me retribuir. Nunca seria. Não parava de
pensar nisso, mas também, não saia de cima dela. Meu nariz estava
próximo ao dela, os cabelos, espalhados no chão e a boca
semi-aberta; parecia que estava esperando que eu dissesse algo, ou
fizesse algo.
“Você
é linda, Kale”. Eu a amava. A amava e me odiava por amá-la. Não
era certo. Lágrimas escorriam dos meus olhos, pensamentos de amor
por ela e ódio por mim, me bombardeavam furiosamente. Foi quando, eu
senti mão dela sobre a minha. Engraçado, eu não tinha notado que
ela caiu com a mão encima da minha até aquele momento. Seu olhar
sereno em mim e sua mão me consolando... Senti-me acolhido e
protegido. Amado. Em minha mente, ela me dizia “você sabe que não
precisa ser forte comigo”. Encostei a cabeça em seus seios e a
abracei. Naquele momento, tudo que queria era ficar ali, ouvido a
Peggy e abraçado à Kaledrina, e que o mundo fosse para o inferno.
Adormeci.
Na manhã
seguinte, acordei recebendo chutes e ouvido a risada irritante de
Manfred. “ Uther! Acorda Uther! O que é isso seu panaca?” gritou
ele. Xinguei-o e o mandei sair da minha sala, mas Manfred não é do
tipo que faz o que outros lhe pedem. “Mas que merda é essa ai no
chão? Sou namorada? Só assim para você dormir com uma mulher, se
ela for uma porra de uma boneca”. Com muito ódio, levantei e fui
para cima dele, mas infelizmente, meu irmão é mais forte que eu,
sempre foi. E sabia brigar muito bem. Ele em acertou alguns socos no
rosto e me mandou pro chão. Riu, me chamou e imprestável, o de
sempre.
Não
bastando, Manfred ergueu o vestido de Kale, zombando de mim. Ele
retirou a calcinha dela e jogou sobre mim. “ Olha só Uther! Ela
tem xaninha, você sabia? Ou será que nem da boneca você consegue
arrancar a calcinha?” Ele abriu as pernas dela, numa posição
humilhante e enfiou os dedos dentro dela. “Apertadinha!”
Nunca
senti tanto ódio por alguém na minha vida. Eu queimava de raiva,
queria muito que Manfred morresse. Gritei, fazendo força para ficar
de pé. “Eu vou te matar!” ameacei. Ele não gostou; ninguém o
ameaça. Largou Kale e veio até mim. Me agarrou pelo colarinho e
voltou a me bater, com muita raiva. Quando sua mão começou a doer,
ele me largou. “Isso não fica assim Uther. Vamos ver o que vai ser
da sua boneca. Vou me certificar de que ela vire sucata rapidinho, ou
ainda melhor, que vire brinquedinho de mendigo, afinal, mendigos
também precisam de amor!”
Saiu da
sala rindo. Estava tudo acabado. Manfred iria conseguir o que queria,
ele sempre consegue. Eu perderia Kale. Coberto de sangue, me arrastei
ate ela; estava caída de pernas abertas. Seu rostinho estava virado
para minha direção. Segurei a mãozinha dela, implorando perdão
por deixar isso acontecer. Estava muito ferido, mas precisava mudá-la
de lugar até pensar em algo. Retirei o jaleco sujo de sangue e a
joguei nas minhas costas, passando seus braços pelo meu pescoço.
Ela era mais pesada do que parecia e o fato de eu estar surrado não
ajudava; minhas pernas tremiam com o esforço.
Por um
milagre, eu a levei até a enfermaria; tinha uma salinha lá, uma
sala de tranqueiras que era pouco usada, seria um bom lugar
temporário para ela. Coloquei-a lá dentro e fechei a portinha.
Estava exausto e muito machucado. Cai na cama ali da enfermaria mesmo
e dormi...
Acordei
muito tempo depois, com a voz de um homem me chamando. Era um dos
assistentes do meu pai. “Senhor Uther, venho trazendo péssimas
noticiais. Seu irmão Manfred sofreu um acidente, senhor.” Um
acidente? O homem continuou: “ Ele caiu da escadaria do prédio,
quebrou o pescoço e... bem, ele morreu,senhor.”
Manfred
escorregou e morreu? Arregalei os olhos surpreso. Foi então que
reparei que meu rosto estava todo cheio de curativos, cuidadosamente
aplicados. O assistente pediu licença e me deixou. Sentei na cama.
Meu irmão estava morto, convenientemente morto, quando eu mais
precisava que ele ficasse quieto. E minhas feridas... Num movimento
rápido, abri a portinha secreta para procurar por Kale. Eu não
esperava vê-la, mas, lá estava ela... Do jeito que eu a deixei.
Cuidadosamente,
eu a levei novamente para a antiga sala, sobre a cadeira que ele
sempre ficava. Quando eu estava ajeitando-a para sair, notei algo que
me fez arrepiar de medo: a ponta dos dedos dela estavam sujos de
sangue. Levei as mãos à meus curativos e mais uma vez olhei seus
dedos. Não podia ser verdade.
Cobri-a
com o pano preto e apaguei as luzes. Manfred foi cremado aquela noite
mesmo. Meu pai não parava de amaldiçoar o céu e a terra pela perda
do filho favorito, nem reparou que eu estava ali todo machucado.
Naquela noite fui deitar me sentindo péssimo. Eu desejei a morte do
meu irmão e ele de fato, morreu no mesmo dia. Mas como ele poderia
ter caído da escada? Não é bem o estilo dele. O segurança disse
ter visto alguém a mais no andar uns minutos antes. Ele descreveu
como uma pessoa esguia que se movia muito rapidamente. Essa pessoa
poderia ter empurrado Manfred.
Uma
pessoa esguia com movimentos delicados. Tão delicados a ponto de
fazer curativos no rosto de uma pessoa adormecida em acordá-la?
Levantei da cama. Sai de casa correndo, precisava ir ate o
laboratório, precisava ver ela.
Quando
cheguei, estava quase morto de tanto correr. Estava também com medo;
se ela fosse uma assassina, ela poderia querer me matar agora que sei
dela? Descendo as escadas, apanhei um machado de incêndio no
caminho...
E agora
estou aqui; sobre seu corpo, olhando-a, decidindo se a destruo ou
não. E se ela for uma assassina? E se eu estiver criando um monstro?
Eu não posso arriscar a vida de outros por um egoísmo meu! Mas eu a
amo. Ela não é real, mas a amo. Ela não precisa ser real para ser
ideal.
-
Kale... me perdoe, meu amor.
Fecho os
olhos e levanto o machado. Em um golpe tudo estaria acabado. Picaria
o corpo dela e a queimaria com o flame pack e ela nunca mais
precisaria machucar ninguém.
Faço
força com o machado, mas meu braço não se mexe. Abro os olhos e a
vejo com a mão erguida, segurando o cabo do machado. Seus olhos
estão olhando-me, mas não com aquela expressão perdida de sempre.
- Meu
nome é Kaledrina – ela diz – E eu te amo muito!
Abro a
boca assustado. Isso era mesmo real? Estava acontecendo? Tento tirar
o machado da mão dela, mas ela me segura com muita força.
Puxa o
machado da minha mão e o atira no canto da sala. Afasto-me dela, com
medo. Ela levanta-se, ficando sentada, dura como um robô. Seu rosto
volta-se para mim. Ela pisca e sorri.
Com a
mão direita ela começa a desabotoar o vestido dela.
-
Ka-Kale? – estou incrédulo demais, se não fosse a dor no meu
coração de tanto correr, eu acharia que estava sonhando.
Kaledrina
ergue a mão esquerda, como se estivesse me chamando. Parecia feliz,
parecia calma e pacifica... Eu quero muito ir até ela.
Foda-se!
Engatinho até ela e seguro sua mão. Ela puxa-me gentilmente para
cima dela, me fazendo deitar sobre seu corpo. Leva minha mão até
seus seios, por entre os botões abertos. A beijo.
- Eu vou
te proteger. Se você for mesmo uma assassina, azar dos outros.
Ninguém me tira de você!
Ela abre
a boca e solta um gemido curto. Um gemido de prazer. Sua boca de
borracha sorri mais uma vez e eu torno a beijá-la.
Minha
Kaledrina.
by Kennen
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Kaledrina
Ali está
ela, caída, estática. Seu belo e delicado rosto dormia sereno. Sua
maquiagem perfeita lhe cai muito bem, criando um rosto lindo e
misterioso. O vestido dela é roxo e branco, cheio de babados, como
aqueles usados pelas mais altas condessas da cidade... e aqui estou
eu, exausto, com o coração disparado; arrastar o machado até aqui
para acabar de vez com isso, não é coisa fácil. Eu sei que devo,
mas não quero, não com ela... Caminho até seu corpo adormecido e
lhe acaricio os cabelos cacheados. Aperto o machado na outra mão,
estou suando muito...
Como foi
que as coisas chegaram a isso?
Que me
lembro já faz uns meses, não sei quantos, mas são muitos. Muitos
meses desde que a encontrei. Eu estava no laboratório da StanCorp,
trabalhando em um projeto próprio, algo para tentar impressionar meu
pai, nada mais que o dono da empresa e um dos lordes mais ricos da
Inglaterra. Sir Richard Stanford. Sou o filho mais novo dos Stanford,
e minha existência é muito ensombrada pela presença do meu irmão
Manfred. Ele é tudo que o papai sempre quis num filho, ele nunca
deixou de dizer isso para nós dois, então, esse meu projeto era uma
forma de mostrar a ele que eu também era capaz de algo... Engraçado
como naquela época eu me importava com algo a mais além dela...
Ah sim,
o flame pack! A grande idéia! Consistia de um cilindro de
metal cheio de gás acetileno preso ás costas, ligado à uma manopla
metálica por um cano de borracha. Um lança chamas mais fácil de
carregar. Eu achei mesmo que se eu construísse um desses o meu pai
repararia em mim, e ainda melhor: daria ordens para construção em
massa do mesmo. Então, todas as noites para cá eu vinha, projetar
e trabalhar nisso, como se mais nada importasse. Naquela época tudo
que eu queria era mostrar que sei fazer algo.
E assim
foram noites e noites a fio; soldando, cortando, martelando... Sabe,
trabalhar com fogo nem sempre é seguro e as vezes eu me causava
queimaduras, nada muito grave mas ainda assim, ferimentos
indesejados. Uma dessas vezes, quando fui testar a manopla com
lança-chamas, algo deu errado e ela explodiu na minha mão. Explodiu
é um modo de dizer, ela começou a pegar fogo, mas por sorte, eu
consegui tirar a tempo e os danos não foram muito grandes, o
problema era que àquela hora da noite eu estava sozinho e tive que
correr para enfermaria porque ninguém viria para me ajudar. Desci as
escadas e corri pelo corredor longo do almoxarifado até a sala dos
remédios, por que tinha que ser tão longe?
Tratei
minha mão, usei aquela pomada pra pele queimada e a enfaixei como
pude. Tive raiva de mim e dessa idéia idiota. Saí da enfermaria
batendo a porta, mas sabia que logo que a dor passasse a raiva também
passaria.
Foi
então que ouvi.
Parecia
um choro, era baixo, como um sussurro, como se alguém estivesse
tentando esconder que estava chorando. “Quem ta ai?” gritei.
Minha voz ecoou, mas não houve retorno. De fato o choro havia
sumido. Com o lampião na mão e uma chave inglesa na outra, avancei
pelo corredor. Percebi nesse momento que eu estava numa parte muito
afastada do laboratório, uma parte que eu nunca tinha estado antes.
“Você
está ai? Não vou te machucar!” disse, apesar de estar segurando
uma pesada chave na outra mão. Não houve resposta. Caminhei até
uma porta estranha; toda cinzenta e sem nenhuma indicação do que
deveria ter lá dentro. Além disso, a porta estava entreaberta o que
não é comum nesse lugar.
“Alô?”
abri a porta lentamente, deixando a luz entrar. A verdade é que eu
estava morrendo de medo. Aos poucos, abri toda a porta. Ergui o
lampião para poder ver a sala toda: muitas caixas empilhadas, todas
empoeiradas, pareciam que estavam ali há muito tempo. Esperei meus
olhos se acostumarem com aquela iluminação, quando então, notei
algo no escuro, era um pano preto cobrindo algo. Parecia uma pessoa
sentada numa cadeira. Seria ela quem eu ouvi chorando?
“Ei
você” chamei, me fazendo de valente. Nada. Não se mexia nem
falava nada. Lentamente, aproximei-me mais e com a ponta da chave,
ergui o pano... E foi quando eu a conheci. Estava sentada e amarrada
na cadeira com a cabeça caída para frente. Os cabelos eram
castanhos e cacheados e o vestido era bonito, mas antigo, roxo e
branco.
Tentei
falar com ela e esperei um tempo, olhando-a, mas não se mexia.
Toquei-a no rosto e levantei sua cabeça; sua pele era fria. O rosto
estava todo pintado como maquiagem. Os olhos estavam fechados.
Percebi então, que era uma boneca.
Soltei
as cordas dela. Porque teriam amarrado ela dessa forma? E quem será
que a trouxe para cá? Seria coisa do meu pai? Tratei de iluminar o
resto da sala, queria vê-la melhor. Era linda, quase parecia viva.
Deduzi que tinha a minha altura. Por algum tempo fiquei parado
admirando-a: o desenho do seu rosto, seus lábios pequenos e bonitos,
seu corpo... Meus olhos corriam pelo corpo dela, estava de sapatos
pretos e meias brancas e compridas. Toquei-a no rosto, não consegui
identificar do que era feita aquela pele, era macia, quase como pele
humana, mas tinha algo na textura que era diferente. Com meu dedo,
mexi seus lábios e abri sua boca: era seca, mas possuía dentes
fortes, talvez feitos de alguma liga metálica. Desci os olhos pelo
pescoço dela e inevitavelmente olhei seus seios... Não eram
grandes, mas eram perfeitos...
Estremeci.
Senti um calor correr por todo meu corpo. Nunca tive uma mulher assim
tão perto de mim. Nunca tive mulher alguma, na verdade. Não sou
bonito, não tenho bom papo, não sei dançar e não sou popular...
Isso deve explicar muito sobre mim, eu acho.
Antes
que pudesse perceber, eu estava com minha mão nos seios dela, cabia
todo na minha mão. Eram duros, mas, macios ao toque, como a pele.
Meu coração estava acelerado: meu interesse pessoal era muito maior
do que o interesse científico que eu deveria ter.
Pousei
minha mão enfaixada a sua coxa por cima do vestido e a apertei;
parecia muito real. Na verdade era tão real que eu tinha medo que
ela ganhasse vida a qualquer momento. Gentilmente, se é que isso é
possível, deslizei minha mão para baixo do vestido dela, apalpando
o interior daquelas coxas macias e frias. Logicamente, minha mão
subiu um pouco mais... Fiquei surpreso ao sentir que ela estava
vestindo calcinha. Se bonecas pequenas vestem, porque as grandes não?
Aquele
foi o momento mais erótico que tive em toda minha vida, eu estava
elétrico e mais quente do que a fornalha de uma locomotiva, mas ao
mesmo tempo sentia o coração pesar; ela estava ali parada sem poder
se defender dos meus assédios. Era só uma boneca, mas eu me sentia
um canalha. E eu não sou assim, nunca fui. Beijei-a.
Grudei
meus lábios aos lábios de borracha dela, aliciando suas intimidades
artificiais. Meu coração estava agitado como um motor à vapor,
pela primeira vez eu senti êxtase completo. Meus beijos faziam a
cabeça dela pender para trás, então usei a mão que estava em seus
seios para segura-la pela nuca, igual àquelas historias de amor.
Com
muito cuidado, enfiei a mão por trás de seus cabelos e a segurei
para dar mais apoio ao meu beijo, quando então senti algo. Letras.
Uma palavra gravada em sua nuca. Minha curiosidade foi muito grande,
seria um nome? Uma data? Parei o beijo para olhar; afastei seus
cachos castanhos e li uma palavra quase apagada: Kaledrina.
Seria
seu nome? Pensei. Ou quem sabe o nome de uma antiga dona...
Kaledrina. Um nome diferente. Deve ser estrangeiro. Diferente mais
muito bonito, assim como ela.
“Vou
chamá-la de Kale” disse a ela, como se ela fosse entender. “Você
gosta?” sem resposta, claro.
CONTINUA...
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Kennen Ashe
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
A travessia parte III
Eveline deu um passo para trás
ainda encarando o homem parado há alguns metros de nós. Ela olhava para o rosto
dele ainda incrédula
– Não pode ser... – a ouvi
murmurar.
– Eveline... – pronuncie seu nome
baixinho. – É um assunto complicado.
Hoan riu.
– Olá, cunhada. – ele surgiu ao
lado dela pegando-a de surpresa. – Obrigado por dar ao meu irmão um ponto
fraco. – ele colocou uma adaga apontada contra o pescoço dela.
– Fique longe dela! – rosnei.
– Ou o que? – Hoan me desafiou.
Eveline suava frio com a adaga
apontada contra a pele frágil do seu pescoço. Seus olhos estavam voltados para
mim e clamavam por socorro.
Encarei o meu irmão, que exibia um
sorriso sarcástico nos lábios. Eu sabia muito bem do que Hoan era capaz e temi
pela vida da minha namorada. Porém, meu irmão também me conhecia bem.
– Eu disse para ficar longe dela! –
falei ao surgir na frente dele e o atingir com um chute que o fez voar contra a
parede da caverna e lançar a adaga longe.
Eveline me encarou com uma grande
interrogação no rosto. Não acreditava no que eu havia feito. Mal fazia ela
ideia do quão rápido eu era capaz de me mover.
Hoan começou a rir enquanto se punha
de pé e limpava a poeira das vestes negras.
– Confesso: achei que você
estivesse enferrujado. – ele ainda ria. – Faz quanto tempo desde a última vez
que trinamos juntos, cinco anos? – seus olhos meu fitaram profundamente. – Cinco
anos, época em que você ainda não era um traidor.
– Eu não sou
um traidor! – gritei alto.
– Ah não? – Ele perguntou
sarcástico . – Até onde eu me lembrava esse era o nome que davam para aqueles
que abandonavam a sua própria família para se juntar ao lado inimigo. Fico
imaginando o quanto a mamãe estaria decepcionada se visse no quer você se
tornou. Uma simples marionete dos nossos inimigos...
– Não fale da nossa mãe. – eu
estava furioso. – Ela jamais aprovaria a Nova Ordem.
– Muito pelo contrário, ela se
orgulharia de nós, por termos feito do mundo um lugar melhor...
– Cala a boca! – berrei acertando
o meu irmão com um soco no rosto. Eu ha estava farto daquela ladainha do Hoan.
Ele foi arremessado mais uma vez
contra a parede da caverna. Levantou massageando a bochecha atingida.
– Tudo bem, você quer resolver as
coisas desse jeito para mim tudo bem. – Ele partiu para cima de mim me
acertando com um golpe na boca do estômago e me fazendo voar.
– Noah! – Eveline berrou correndo
na minha direção.
– Fica fora disso, traidora número
dois. – advertiu Hoan. – Meu irmão e eu temos alguns assuntos pendentes.
Ela olhou para mim extremamente
preocupada.
– Eu vou ficar bem. – prometi a
ela ao me levantar.
Parti para cima do meu irmão que
se defendeu do meu golpe. Ele deferiu um chute contra o meu peito, mas eu me
esquivei.
– Como nos vemos tempos. – ele
murmurou.
Rodei a espada na mão e me
coloquei em uma posição confortável. Ele gritou e partiu para cima de mim
novamente. O chocar das espadas produzia um barulho agudo quase ensurdecedor.
– Pelo visto você não perdeu a
prática. – meu irmão provocou.
– Aprendi coisas novas. – ameacei.
Girei e deferi um golpe de espada
contra ele, fazendo com que perdesse o equilíbrio e cabalasse para trás. Ele aproveitou a deixa e se agachou me dando
uma rasteira e fazendo com que eu caísse contra o chão. Eu me defendi como pode
dos seus golpes de espada e rolando para o lado.
Seus olhos me encaram com ódio
quando se preparou para me dar um golpe final. Meu coração disparou...
Mas... De repente ele tombou e
caiu para o lado e eu pode ver Eveline parada atrás dele segurando uma pedra
com uma das mãos.
– Precisamos amarrá-lo, antes que
acorde. – ela foi logo dizendo.
Peguei umas cordas dentro da
mochila e marrei o meu irmão, ainda desacordado, a uma pedra.
– Você tem muitas coisas para me
explicar. – Eveline me fuzilou com o olhar.
– Eu sei. – disse de cabeça baixa.
– Nem sei por onde começar.
– O inicio é sempre uma boa.
– Bem, Hoan e eu somos irmãos
gêmeos como você percebeu. – comecei a dizer. – Desde pequenos fomos treinados
para nos tornar assassinos da ordem. Nosso pai é o Klaus...
– O líder supremo da ordem?! – ela
engoliu seco.
– Sim... – lamentei. – Nossa mãe
morreu quando ainda éramos bem pequenos. Pouco depois do congelamento da terra,
ela não concordava com a ideia de um governo ditatorial quando meu pai era
apenas um membro da cúpula governante do mundo. Pouco depois que ela se foi meu
pai assumiu o controle de tudo e transformou tudo no que vemos hoje... – dei
uma breve pausa. - Eu era apenas um fantoche que cumpria ordens, assim como meu
irmão. Mas quando me dei conta de quanto mal estava fazendo principalmente
àqueles mais fracos eu abandonei a cúpula da Nova Ordem e me juntei à resistência,
na luta contra o mau que a minha família causava...
Encarei Eveline, ela não disse
nada. Estava chocada demais para fazê-lo, eu não esperava reação diferente.
– Precisamos sair daqui. E levar
os cristais. – eu disse. – Antes que meu irmão acorde e traga uma exercito para
cá. Termino essa historia em outro momento.
Sacudi a poeira da minha roupa e caminhei para
dentro da caverna. Demos de cara com um
ambiente quase indescritível, de beleza singular. Os cristais revestiam as
paredes o chão e o teto, criando um jogo de luzes esplêndido.
– Uau! - Eveline exclamou. – Como
é lindo.
Peguei uma bolsa e enchi a com
aqueles cristais.
– Vamos dar o fora daqui. – disse
a Eveline ao puxar-la pela mão.
– Mas e o seu irmão? – ela se
voltou para ele, interrompendo a nossa saída.
– Ele sabe se virar sozinho. E eu
que não quero estar por perto quando ele acordar...
Continua...
By Ashe
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Kennen Ashe
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Jenny Jenny
O nome
dela é Jenny Taylor, e o que eu vou contar é verdade. Jenny sempre
teve uma vida muito boa, seu pai, político de sua cidade, tinha
muito amigos influentes, logo, era um homem que ganhava muito
dinheiro. Ela sempre foi uma bonequinha, cabelos castanhos e
ondulados, pele clara e olhos azuis, o orgulho da mamãe, a
princesinha do papai.
Aquele ano tinha tudo para ser o
melhor, o pai da garota estava concorrendo à prefeito da cidade e ao
que indicavam as pesquisas que as chances dele ganhar eram muito
grandes. As pesquisas não se enganaram e logo, Jenny e sua família
subiram no patamar de poder mais alto da cidade, eram agora ricos e
importantes.
Dois meses mais tarde, Jenny
completaria 12 anos, sendo agora uma “mocinha” como diz a mamãe,
e para comemorar, seu pai decidiu leva-la para passar um feriado na
fazendo da família, para ensina-la a caçar. Os Taylor tinha
tradição na caçada, todos seus membros são acostumados à armas,
munições e troféus de caça, e a pequena Jenny, não seria
diferente. Na sexta feira, depois da escola, pai e filha estavam a
caminho da fazenda, para darem início as aulas de caça da nova
caçadora.
Assim que chegaram, a menina foi
correndo desfazer suas malas, pois tinha comprado muitas roupas de
caça, e queria poder ter tempo para escolher a melhor roupa para sua
primeira caçada. Enquanto arrumava suas coisas em seu quarto, o
senhor Taylor fazia umas ligações de celular.
- Papai,
essa roupa ficou boa em mim? - pergunta ela dando uma votlinha.
- Sim
querida, ficou muito linda em você. -respondeu, sem dar muita atenção.
Algumas horas mais tarde, Jenny ouviu
barulho de carros do lado de fora e correu para a janela, ver quem
era; não esperava que receberiam visitas. Desceu as escadas,
querendo saber quem eram as pessoas que chegavam.
- Quem
chegou?
- Só
uns amigos meus bem, eles querem caçar também.
Um homem alto de bigode entrou na casa
e fui cumprimentar o senhor Taylor. Jenny o olhou bem, tinha a
impressão de conhece-lo. Sim, conhecia, era o delegado da sua
cidade, não é a toa que era amigo do seu pai, o prefeito e o
delegado andam sempre juntos. Ela ignorou a presença do delegado ali, até que mais carros chegaram...logo ela estava sozinha com
cinco homens, sendo eles, seu pai, o delegado e mais três que ela
não conhecia...A pequena Jenny começou a sentir-se desconfortável
naquela casa.
Os
homens mais poderosos da cidade estavam ali na fazenda, e no meio
deles uma única garota sozinha...caçar? Que nada...os planos
daquele pai diabólico para seu filha não tinham nada a ver com
caçada, pelo menos, não para ela. Um a um, eles abusaram do corpo
da garota em seu quarto, enquanto seu pai filmava tudo...Ela chorou e
implorou para que parassem, mas não deu certo, seus gritos e suas
súplicas causam apenas risos dos homens. Seus olhinhos olhavam para
o pai, implorando por ajuda...mas ele apenas dizia “você está
ótima querida”. Após horas, a largaram caída no sofá, com sangue escorrendo entre as pernas e marcas de mordida por toda parte.
Primeiro ela pensou em pedir
ajuda...mas para quem? Para a polícia? Toda a lei e ordem da sua
cidade estava ali, abusando do seu corpo...tentou falar com a mãe,
mas esta sempre fingia que não ouvia ou que não entendia...ela não
tinha a quem recorrer...
Todo feriado lá se iam eles “caçar”,
sempre os mesmos amigos, sempre a mesma desculpa e sempre a mesma
frase “você está ótima querida”. A garota aguentou o quanto
podia, rezava todas as noites para isso parar...Três anos se
passaram nessa situação, Jenny agora tinha 15 anos. Morria de
tristeza e vergonha a cada aniversário...queria tanto ser uma garota
normal e não ter que passar por esse tipo de coisa...mas vai saber
quantas de suas amigas também se encontram numa situação assim?
Eu
estava sempre por perto...pressentia que algo iria acontecer. Certa
vez, eu me aproximei dela, enquanto ela olhava-se no espelho. Seu
rostinho triste e pensativo procurava desesperadamente por uma
solução para seu problema infernal. De vez em quando, enquanto eu a
observava, ela virava para trás, como quem procura por alguém, ou
algo...Será que ela esta sentindo minha presença? Se sim...isso não é bom, não
mesmo.
Na
noite que fez quinze anos, Jenny decidiu acabar com isso de uma vez
por todas. Todas as suas amigas falavam sobre beijar meninos e ela só conseguia pensar em como não ser abusada a cada feriado. Já chega, pensou.Trancou-se no banheiro e com uma lâmina de barbear
começou a se cortar nas veias dos pulsos. Viu seu sangue espirrar e
por um momento sentiu medo. Sua vida escapava de suas veias
lentamente...sentiu frio, sentiu fraqueza...tudo ficou escuro.
Eu
deveria estar do lado dela nessa hora, com minha mão em seu ombro, mas eu não estava, eu não
precisei.
Horas
mais tarde, Jenny acordou no hospital com os braços enfaixados,
tivera sido salva a tempo pela empregada da casa.
Eu a olhei bem nos olhos quando ela
acordou e notei que parecia feliz...feliz por estar viva, por algum
motivo, estava feliz por não ter morrido.
O ser humano foi feito
para viver, e não morrer. A morte é uma consequência, algo
natural, mas não um objetivo. Não importa o quanto se deseje a
morte, o corpo nunca quer morrer, ele não foi feito para isso...E
quando finalmente se alcança a morte, as pessoas percebem o quanto a
temem. Todos temem à morte, mas alguns mentem para si mesmos e para os outros.
Depois disso ela se recuperou e fugiu
de cidade. Cortou e pintou o cabelo, mudou de nome, arrumou um emprego numa casa
noturna e foi morar com um namorado. Nunca mais tentou se matar. Não
tente apressar as coisas Jenny, nós vamos nos ver um dia, no curso
natural das coisas. Como devem ser sempre.
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